4. Pós-Modernidade, Capitalismo Tardio e Crítica à Racionalidade Democrática.
4.1 Neoliberalismo e o Declínio do Estado Moderno.
É neste contexto de exacerbação do individualismo que o liberalismo redivivo se configura sob uma outra denominação: o neoliberalismo. Doutrina que nasce da reação à ascensão de um pensamento socialmente intervencionista, nos início dos anos 1940 na Suíça, em oposição aos ideários socialistas e social- democratas, e que resultou na formação da Sociedade Mont Pellerin. Tais pensadores propugnam pelo estabelecimento de um Estado-Mínimo, calcado na hiper-valorização do mercado e de sua racionalidade espontânea, e na restrição do espaço da soberania popular.
O poder do Estado deveria ser despido de qualquer vínculo dinâmico com a política, especialmente em relação à política democrática, levando-se em conta que esta era marcada pelo reconhecimento da potência inexaurível do homem na criação de novas realidades e instituições, e não por sua submissão às determinações estáticas do poder constituído, seja ele jurídico ou econômico.
Tendência antidemocrática do pensamento neoliberal que corresponde a uma doutrina liberista, que subjuga as potencialidades emancipatórias contidas no liberalismo político, com toda sua tradição de defesa do ideário de liberdade e de controle sobre o poder, em favor de uma exegese a todo custo das virtudes “mágicas” do mercado. Inclusive no que atine à validade dos direitos fundamentais do homem desenvolvidas laboriosamente na história, devidamente homiziados em prol da lógica reificada do capital e de sua reprodução ampliada.
O mercado de instância mediadora das carências dos indivíduos se transfigura, por fim, em si mesmo, e em fundamento último do Estado e dos processos decisórios. Eventuais tomadas de decisão política que possam ser caracterizadas como conflituosas com a racionalidade privada dos “sujeitos
econômicos”, não podem impor-se mas deve ser sobrestadas pelos imperativos sistêmicos das “leis econômicas”.
A economia, de realidade determinada pela vontade e teleologia humanas, se constitui em realidade autárquica, à margem de qualquer vontade política concreta, pois decorre da produção de uma normatividade externa ao homem, alheia as vicissitudes e aos caprichos momentosos da coletividade, com seus interesses eminentemente contraditórios.
Nesse sentido, a emergência do neoliberalismo, e de seu discurso despolitizador e desjuridizante, gemina-se à crise de sentido de uma certa compreensão da modernidade, cingida a uma visão estritamente instrumental do homem e de suas realidades, potencializando-se, com isso, os efeitos antidemocráticos do afastamento do Estado de seus fundamentos políticos, que somente pode ser devidamente combatidos por uma nova visão de poder ancorada no reconhecimento da soberania popular.
Soberania popular que não deve ser mais encarada como mera cristalização de um poder constituinte, agora objetivado e estagnado em uma idéia de poder constituído, infensa às determinações da “vontade geral”, que engessa e obstaculiza a práxis instituidora de novas realidades de ordenação do poder nas sociedades contemporâneas, como diria Negri:
“No momento em que a potência se institucionaliza, ela deixa ser potência, declara jamais tê-lo sido. Só há uma condição adequada á definição de um conceito de soberania ligado ao de poder constituinte, mas é paradoxal: que ela exista como práxis de um ato constitutivo, renovado na liberdade, organizado na continuidade de uma práxis livre”.
Conceito de soberania que não pode ser subsumido a uma leitura excessivamente lógica e despolitizadora da realidade como a praticada pelos diferentes positivismos jurídicos, sob pena da completa deslegitimação democrática do conceito, tornando-o um apanágio doutrinário das ordens tecnocráticas contemporâneas.
O entendimento de um autor moderno como Bodin de que a soberania era uma forma de ordenação unitária das sociedades nacionais, que devia obedecer apenas às determinações unipessoais do monarca, transmutou-se logo depois na modernidade liberal em uma expressão abstratamente jurídica do poder impessoal do Estado, e na pós-modernidade em uma figuração autômata da esfera econômica do mercado. E que terminou por conformar a política ao horizonte do possível, dedutível da sociabilidade restritivista do mercado neoliberal, onde no máximo as manifestações da soberania popular não deviam romper o “círculo de giz” previamente fixado pela efetividade da fortuna - fixada no caso concreto das estruturas políticas e sociais do Estado Contemporâneo - pelas determinações heterônomas da propriedade privada. Refutando, por último, a dimensão constituinte da política mencionada por Negri ao citar Maquiavel130 :
“A política é uma tensão crescente, uma espera que se prolonga até a explosão, o assomar de uma sobredeterminação potente sobre o existente, até a ruptura dos ordenamentos e simetrias estabelecidos...”.
Resgaste do político que na contemporaneidade somente pode ser realizada por uma razão profundamente comprometida com os valores
democráticos, especialmente de uma democracia que não se circunscreva à matriz minimalista neoliberal, de teor puramente procedimental.
Até mesmo porque o resgate do político, em meio a uma hegemonia dos valores de mercado e da burocracia, só pode ser feita a partir de uma saída totalitária, que traduza a política como expressão intuitiva da vontade unipessoal e carismática de um líder cesarista, ou de uma “vontade” abstrata de um sistema de poder baseado em uma aliança Partido/Estado.
Afinal o consenso produzido pelos Estados Neoliberais tem dificuldade em aceitar o conflito e uma estrutura de poder dialógica, aberta às determinações necessariamente contraditórias de uma sociedade de classes. Posto que em um Estado Democrático, o político permeia a construção do significado da ordem jurídica, não se estagnando na configuração momentânea da lei produzida pelos representantes da vontade popular, mas perdurando na disputa constante pelo alcance do seu sentido, que redefine dinamicamente os próprios parâmetros da legalidade, anteriormente encarada de forma muito hermética pelos adeptos do pensamento liberal e de seu Estado de Direito.
A tendência à despolitização crescente das sociedades de mercado deve ser contrarrestada por uma demanda não menos intensa por ocupação de novos espaços de poder pelas maiorias que compõem a sociedade civil. O poder do Estado, de invólucro burocrático, preso às determinações normativas de um direito fossilizado, deve ser compreendido como espaço de disputas, eminentemente conflitual, onde seu conteúdo se reconfigura de acordo com a “interpretação aberta” de seus mais variados atores sociais, mormente em uma sociedade complexa e contraditória como é a sociedade contemporânea.
Mas para que isso aconteça faz-se necessário que a lógica reificada da economia capitalista, maximizada pelo domínio do discurso neoliberal, seja superada pela construção ativa de um poder assentado no reconhecimento do papel ativo dos indivíduos e das coletividades