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Neologismos semânticos e a ideologia construída

2.3 A VARIANTE CUBANA DO CASTELHANO: FORMAÇÃO E

2.3.3 Neologismos semânticos e a ideologia construída

Já nas primeiras páginas da obra de Santiesteban (1985, p. 3) é possível ler sobre o assunto: “[...] un gusano no designa a un verme, sino al individuo hostil a la Revolución (por evidente analogía)52”. Essa

“evidente analogia” de que um indivíduo só possa ser chamado de “verme”, caso seja “hostil à Revolução”, pode encontrar sua justificativa, não na definição lexicográfica do substantivo comum revolución, como parte de um dos lemas que o autor registra em seu repertório léxico, mas, na seção da obra intitulada “DONDE SE CUENTA CÓMO LA SEMÁNTICA LLEGÓ A ENLOQUECER”:

La Revolución, acertadamente calificada como el hecho cultural más genuino y grandioso de nuestra historia – que llevó a término epopeyas como la campaña de alfabetización y la creación de editoriales que producen anualmente en el orden de las siete cifras -, va haciendo posible el conocimiento profundo y el dominio garboso del idioma por grandes masas de población53

(SANTIESTEBAN, 1985, p. 3).

Sobre o triunfo de La Revolución, como movimento social, o autor continua com a explicação sobre a relevancia de mencionar este fato histórico, na subseção intitulada “LA REVOLUCIÓN CREA VOCABLOS”: “Todo acto genial viene del pueblo y va hacia él…, dijo

51 “A nova realidade sociolinguística derivada deste fato histórico favoreceu o

desaparecimento progressivo de muitos anglicismos transmitidos sobretudo através dos meios de comunicação”

52 “[...] um gusano não designa um verme, senão o indivíduo hostil à Revolución

(por evidente analogia) ”.

53 “ONDE SE CONTA CÓMO A SEMÂNTICA CHEGOU A

ENLOUQUECER”: a Revolución, acertadamente qualificada como o fato cultural mais genuíno e grandioso da nossa história – que levou ao fim a epopeias como a campanha de alfabetização e a criação de editoras que produzem anualmente no montante das sete cifras -, vai tornando possível o conhecimento profundo e o domínio garboso do idioma por grandes parcelas da população.

el poeta. Y un pueblo en efervescencia revolucionaria es capaz de genialidades cotidianas que se plasman en su léxico54

(SANTIESTEBAN, 1985, p. 18). E para comprovar que essas “genialidades cotidianas que se plasmam no seu léxico” e fruto da “efervescência revolucionária”, o autor registra que:

A partir de enero del ’59, del que percibía lo justiciero del proceso político que se iniciaba, se dijo que estaba claro. Oscuro pasó a designar al que no comprendía los cambios desencadenados desde esa fecha. Esta “oscuridad”, convertida ya en completa desafección, tuvo como resultado al

gusano (voz con tremenda carga despectiva para

referirse al contrarrevolucionario), frecuentemente alguien a quien le habían partido la siquitrilla (eufónico giro basado en el cubanismo siquitrilla, hueso de las clavículas del ave, espoleta)55

(SANTIESTEBAN, 1985, p. 19-20,).

O autor situa o leitor da sua obra e o leva até o ano de 1959, em que o movimento social liderado por Fidel Castro Ruz chegou ao poder e iniciou-se o “processo político” de que Santiesteban fala na citação anterior. Quem era capaz de entender e de aceitar as “mudanças desencadeadas desde essa data” na ilha era considerado como sábio ou esclarecido (estar claro de algo) e quem permanecia na “escuridão”, sendo desafeto de La Revolución, era considerado um “verme” e seu descontentamento tinha a ver com o fato de ser um siquitrillado. Esse vocábulo é definido na própria obra de Santiesteban:

SIQUITRILLADO, DA adj. y s. Cub. Persona desafecta a la Revolución por haber sido dañada

54 “A REVOLUÇÃO CRIA VOCÁBULOS”: “Todo ato genial vem do povo e vai em direção a ele…, disse o poeta. E um povo em ebulição revolucionária é capaz

de genialidades cotidianas que são estampados em seu léxico”

55 A partir de janeiro de ’59, daquele que percebia quão justiceiro era o processo

político que se iniciava, se disse que era um esclarecido. Oscuro passou a designar aquele que não compreendia as mudanças desencadeadas a partir dessa data. Esta “escuridão”, convertida já em completo desafeto, teve como resultado o gusano (voz com enorme carga despectiva para referir-se ao

contrarrevolucionario), frequentemente alguém a quem le habían partido la siquitrilla (gíria eufônica baseada no cubanismo siquitrilla, osso das clavículas

económicamente por alguna de sus leyes. Se decía festivamente de aquel cuyos bienes eran nacionalizados: “Le rompieron la siquitrilla!” (V.). …un conjunto de gusanos, que representan a los

antiguos explotadores, los siquitrillados de hoy…

(Del guión de la película cubana Ustedes tienen la

palabra)

…siquitrillados que andan por ahí… (A. C. Pérez:

La ronda de los rubíes, 1973)

…en la jerga popular se les dio el nombre de

siquitrillados – la burguesía de terratenientes, industriales, casatenientes. (C. Rivero: Los sobrinos del Tío Sam, 1976) (SANTIESTEBAN,

1985, p. 454, grifos nossos).

É necessário dizer que la Revolución “lesou economicamente por alguma das suas leis” todos aqueles que possuíam algum tipo de bens. Estes não foram “nacionalizados”, foram tomados dos seus donos, sem nenhum tipo de indenização. É por isso que muitas dessas pessoas eram “desafetas” ao movimento social, pois se negavam a entender as “mudanças desencadeadas” desde janeiro de 1959 em Cuba. A população que não tinha sido “lesada economicamente por alguma das leis” de la Revolución e os simpatizantes ao movimento comemoraram “festivamente” o “fato cultural mais genuíno e grandioso” da história de Cuba e, estando em plena “efervescência revolucionária” foi capaz, ainda, de mais uma “genialidade cotidiana que se plasmou no seu léxico”, agora para homenagear o líder máximo de la Revolución, o qual é registrado por Santiesteban (1985, p. 19-20):

Pero donde más alto brilló el genio popular fue al llamar el Caballo al jefe de la Revolución Cubana. Ser un caballo en una disciplina cualquiera es, en argot cubano, dominarla brillantemente. Quizás sea una herencia española: allí se llama caballo al sarmiento que brota con mayor pujanza. Puede haber influido también la charada, donde el uno era el caballo (en el habla popular cubana se dice indistintamente ser el uno o ser el caballo, refiriéndose a quien se distingue tremendamente). Pero haber llamado a alguien el Caballo por antonomasia, es un homenaje singularísimo. Este hecho ya ha tenido variada resonancia literaria, especialmente en el bellísimo poema de Juan

Gelman: Historia, agranda tus portones, entramos

con Fidel, con el caballo…Para finalizar el tema,

mencionemos la curiosa observación del profesor Leonardo Betancourt: puesto que los castros fueron baluartes edificados en las alturas del norte de la península ibérica, por impar coincidencia Fidel Castro significa “fortaleza fiel de la montaña56”.

Em trabalhos anteriores desenvolvemos pesquisas específicas em relação às unidades léxicas ideologicamente marcadas da variante cubana do castelhano. Nesses trabalhos analisamos lexias como revolución; revolucionario, -a; socialismo; compañero, -a; dentre muitas outras,

56“Mas onde mais alto brilhou o gênio popular foi o de chamar de Cavalo ao chefe

da Revolución Cubana. Ser um cavalo numa disciplina qualquer é, na gíria cubana, dominá-la brilhantemente. Talvez seja uma herança espanhola: ali se chama de caballo ao sarmento que brota com maior pujança. Pode ter influenciado também a charada, onde o número um era o cavalo (na fala popular cubano se diz indistintamente ser o número um ou ser o cavalo, referindo-se a quem se distingue tremendamente). Mas ter chamado alguém de Cavalo por antonomásia é uma homenagem singularíssima. Este fato já teve ressonância literária diversa, especialmente no belíssimo poema de Juan Gelman: História,

alarga teus portões, entramos com Fidel, com o cavalo…Para finalizar o tema,

mencionemos a curiosa observação do professor Leonardo Betancourt: já que os castros foram baluartes edificados nas alturas do norte da península ibérica, por ímpar coincidência Fidel Castro significa “fortaleza fiel da montanha”.

portanto, recomendamos a leitura de Ortigoza (200657; 200858) para

aqueles interessados em conhecer mais sobre o assunto.

57 Trata-se de uma pesquisa bibliográfica baseada na Análise Contrastiva de dois

manuais de gramática da língua espanhola, um considerado padrão no mundo hispânico e outro editado em Cuba, e, portanto, considerado uma gramática de uma variante do espanhol. Buscou-se comprovar as hipóteses de que os exemplos de classes gramaticais ou da sintaxe que apareciam no manual de gramática editado em Cuba apresentam um léxico diferenciado em relação ao que aparece nos exemplos de uma gramática considerada padrão. Buscou-se também comprovar que existe relação entre o vocabulário do manual de gramática de Cuba e o discurso político presente em outros materiais impressos, os quais expõem idéias [sic] similares. Isto é feito através da contextualização das lexias apresentadas nos exemplos desta gramática, explicando-se as diferentes acepções que estas podem ter, segundo a ideologia socialista que está por trás das mesmas, em Cuba. Esta monografia baseia-se nos trabalhos de autores como Émile Benveniste, Mikhail Bakhtin, Diana Luz P. de Barros, Zilda Gaspar Oliveira de Aquino, Maria Tereza de Assunção Freitas, Evandro Ghedin, Juan José Verdesio, Michael Silverstein, Teun A. Van Dijk. Também foram utilizados outros recursos como livros, sites da Internet sobre Cuba, discursos dos líderes políticos do país e as experiências da autora deste trabalho, natural da ilha e residente na mesma até os dezesseis anos (ORTIGOZA, 2006, p. 4).

58 Este trabalho tem como objetivo mostrar, com base na Lingüística [sic]

Contrastiva, como dentro do Manual de Gramática I, editado em Cuba e adotado como material de análise deste trabalho, existem frases que veiculam conteúdos ideológicos e políticos próprios do sistema de governo de Cuba, legitimadas pelo Discurso Pedagógico. Contrastamos unidades léxicas que, segundo nosso ponto de vista, apresentam outras acepções em relação aos seus equivalentes na variante padrão da língua espanhola, para verificar o grau de semelhança e as diferenças entre eles. Embora os vocábulos ou locuções que analisamos pertencessem à língua espanhola, acreditávamos que os mesmos não eram totalmente transparentes para outros falantes dessa língua, os quais não tivessem passado pelo(s) mesmo(s) processo(s) que os usuários da variante cubana ou não tivessem acesso a determinadas informações. Tendo como referência essa hipótese, propusemos os seguintes questionamentos: 1) até que ponto, certos vocábulos e locuções da variante do espanhol falada em Cuba eram transparentes para falantes nativos e para aprendizes de espanhol que não usam ou que não conhecem a variante cubana? 2) o que poderia ser feito para haver uma maior compreensão do significado de mensagens que certos enunciados e termos usados na variante cubana do espanhol carregavam consigo e que estavam ligados aos valores ideológicos do sistema governamental cubano? 3) até que ponto as idéias [sic] comunistas, provenientes do marxismo e adaptadas para a realidade cubana, apareciam nas frases do manual de gramática que selecionamos como material de análise? Este trabalho pretende ser um instrumento de consulta para pesquisadores da área da Lexicologia e da Lexicografia, além de auxiliar

“Se toda linguagem articula interesses específicos, então, aparentemente, toda linguagem seria ideológica”, afirma Eagleton (1997, p. 178, grifos nossos). Contudo, quando se trata de uma ideologia construída, ela:

[...] não se limita, de maneira nenhuma, ao ‘discurso interessado’ ou à produção de efeitos persuasivos. Refere-se mais precisamente ao processo pelo qual os interesses de certo tipo são mascarados, racionalizados, naturalizados, universalizados, legitimados em nome de certas formas de poder político [...] (EAGLETON, 1997, p. 178).

Em Cuba, o sistema político que está no poder desde 1959 foi trabalhando, por meio da língua, nessa racionalização, naturalização, universalização e legitimação do seu discurso para que a grande maioria aceitasse agir em nome do que era ideologicamente aceito. Cabe destacar que aqui estamos falando de ideologia em sua interface com o discurso político de orientação marxista-leninista e com o discurso pedagógico, como já dissemos. Ao longo dos anos, os manuais de gramática e os dicionários passaram a ser instrumentos de disseminação dos ideais socialistas de La Revolución, no contexto de ensino e de aprendizagem do castelhano, isto é, nas escolas:

Como modo de apreensão do funcionamento da ideologia, o conceito de aparelhos ideológicos de Althusser é bastante esclarecedor. Retomando a teoria marxista de Estado, o autor afirma que o que tradicionalmente se chama de Estado é um aparelho repressivo do Estado (ARE), que funciona “pela violência” e cuja ação é complementada por instituições – a escola, a religião, por exemplo –, que funcionam “pela ideologia” e são denominados

aparelhos ideológicos de Estado (AIE). Pela

maneira como se estruturam e agem esses aparelhos ideológicos – por meio de suas práticas e

professores de espanhol como língua estrangeira à hora de mostrarem aos aprendizes as diferentes variantes do espanhol. E, ainda, pretende constituir um material de consulta para aquelas pessoas interessadas em conhecer as particularidades linguísticas [sic] de base sócio-culturais [sic] e políticas de Cuba (ORTIGOZA, 2008, p. 6).

de seus discursos – é que se pode depreender como funciona a ideologia (trata-se sempre, para Althusser, do funcionamento da ideologia dominante, pois, mesmo que as ideologias apresentadas pelos AIE sejam contraditórias, tal contradição se inscreve no domínio da ideologia dominante) (MUSSALIN, 2001, p. 104).

Os AIE se servem da língua com o objetivo de promover os valores ideológicos do sistema, sendo ela um forte instrumento com o qual o Estado conta para se manter no poder desde 1959 em Cuba.

2.3.4 Modificações morfossintáticas e fonológicas do léxico

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