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Nestes casos, Bourdieu (1989, p 12) explicita:

A Escola funcionava como um mercado de bens simbólicos, que procurava ajustar a perfomance de seus alunos aos novos padrões da época, reforçando o que seria aceitável socialmente e o que não era aceitável socialmente.

O depoimento da normalista Terezinha Almeida pode evidenciar como a Escola Normal prescrevia a conduta das normalistas, exigindo o cuidado com a aparência, os gestos, o tom de voz e a forma de portar-se com polidez diante das autoridades, dos mais velhos e até dos cidadãos comuns e, principalmente, o compromisso com a verdade:

Nesta época, a dsciplina era muito rígida, mas na minha classe (risos) a maioria era insubordinada. Nesta época era diretor da escola o Dr. Waldomiro, que nos comunicou que teríamos um (pausa) um novo inspetor e seu nome era Dr. Mário, muito rígido e sério. Acho até que foi colocado para nos botar no caminho certo.Um dia minha colega Marina Parreira (mais conhecida por Valila) e eu, conversávamos, ela descascava uma lima, estávamos perto da janela. Ao olhar para o corredor, percebi Dr. França lá embaixo. Então exclamei: Valila cuidado! Mas não deu tempo, a película já havia saído das mãos da Valila. Nervosa, comecei a olhar a direção que a película (da lima) iria tomar. Balançando, balançando, não é que caiu na careca do Dr. França! Aí foi uma desordem. (...) Aí Dr. Mário chegou na classe... queria saber quem havia jogado... E ninguém se acusava, é lógico... Só eu e a Valila estávamos lá fora... Daí a Valila tremia, ficou amarela, parecia que ia ter uma vertigem. Ficou muito tempo, por uns três minutos, todo mundo em silêncio, tremendo. Dr. Mário falou que se ninguém se acusasse, ele iria nos suspender de aula por uma semana e todos os professores iriam dar zero. Valila levantou e disse: Fui eu, Dr. Mário, descuidei, descascando uma lima e caiu...Aí levamos um sermão de mais de uma hora.(Terezinha Almeida Hartung, formanda de 1950)

Mesmo com toda rigidez do sistema, as alunas burlavam a vigilância. Esta burla era uma tática de apropriação do espaço escolar que demarcava a existência de uma produção de uma forma e de uma cultura escolar que escapava do controle dos dispositivos legais. Pelo depoimento de Maria José de Barros Amaral, mais conhecida por Bila, percebe-se como as regras eram burladas:

No meu tempo de moça, tinha que estudar na Escola Normal. Curso para mulheres, quem não era professora não era nada. Entrei na escola em 1944, os professores eram ótimos, Sr. João Rodrigues, D. Delmira, D. Tereza Guarini. De D. Ináh, tenho muitas recordações. Ela dava aula de desenho e morava perto da escola. Se ela virasse a esquina e nos visse na janela podia saber que tínhamos notas baixas.Quando ela apontava na esquina corríamos todas para os “lugares da D. Ináh”, não no nosso lugar normal na sala, e sim pela ordem da chamada. Então ela começava, número, 1, 2, 3... ai de quem saísse deste lugar. Ela era ótima professora, mas muito enérgica. Comemoramos, 25, 50 anos de formatura e esperamos comemorar os 60 anos. Pena que algumas já são falecidas, mas são sempre lembradas. (Maria José de Barros formou-se em 1950, não exerceu a profissão de professora).

Mesmo exigindo das normalistas uma postura adequada à missão que pretendiam assumir, as “artes” da turma são lembradas com freqüência por elas.

Terezinha lembrou-se das aulas de Dr. Chavasco, com detalhes:

Dr. Chavasco dava aula de Biologia prá nós. Em uma de suas aulas, ele chegou muito calmo, lento mesmo, sentou, tirou o relógio do bolso, o relógio era de ouro. A corrente de barbante implicáva-nos. Sobre sua mesa havia também uma caveira. Um dia Edir muito levada, peralta mesmo, resolveu botar um chapéu e um cigarro na caveira. E dizia: Vamos fazer uma homenagem a Dr. Chavasco.Todas concordaram. A caveira tinha um nome... O nome da caveira não me lembro. Foi colocada embaixo também uma faixa.(não me lembro o escrito) Todas achando que faríamos sucesso. Ele fez a chamada e elogiou: Que linda que ficou a caveira! Que gracinha! Todas riram achando que tinha gostado. Mas ele falou: Vocês não farão prova e zero! Saiu da sala e foi chamar o Dr. Waldomiro que era o diretor na época. (Terezinha Almeida Hartung, formanda de 1950, não exerceu a profissão).

Quase todas as normalistas entrevistadas mencionaram o rigoroso processo de seleção para ingressar no Curso de Magistério, mas ao mesmo tempo falaram com orgulho da Escola Normal como educação modelo da época e a importância que a Escola exerceu sobre sua formação profissional e construção de sua identidade, deixando marcas e lembranças até hoje.

A ex-normalista Itália Burza também fala com muito carinho da Escola Normal:

Eu tenho orgulho de ter estudado na Escola Normal, uma escola de tradição, de cultura. A Escola se destacou no Estado de Minas. Os professores eram excelentes.Tenho só boas recordações deste tempo. (Professora há 30 anos, Itália Burza, formou-se em 1942).

A ex-aluna Zoraide assim se expressa sobre a Escola:

A Escola Normal só me traz boas lembranças: o carinho e a dedicação dos professores. Lembro-me de que eu não podia comprar todos os livros, então Dr. Raul Apocalypse, percebendo que eu não tinha, me doou o livro que era adotado, “NOSSO IDIOMA”, usado em todas as aulas de português. Isto eu nunca mais esqueci... Este livro era muito bom, tanto que foi usado para pesquisa de meus filhos e até dos meus netos. (Professora Zoraide Fleming Bolognani, formanda de 1941, esteve em exercício no magistério 30 anos).

A professora Julieta também recorda os momentos marcantes de sua vida como