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Netnografia, aproximando o olhar

No documento São Paulo (páginas 80-83)

3.1 O OLHAR PARA AS REDES

3.1.1 Netnografia, aproximando o olhar

Diante de todo esse cenário, as ciências sociais sentiram-se provocadas a

investigar fenômenos ocorridos nesses ambientes. Com esse objetivo,

desenvolveram e adaptaram métodos para interpretar as suas observações,

traduzindo os dados em aspectos sociais e apontando os impactos detectados. Para

a análise das interações humanas e o comportamento social, uma das técnicas

utilizadas é a etnografia, que consiste na imersão do pesquisador no contexto a ser

estudado, para a partir daí chegar as suas interpretações. Por se tratar de um

ambiente virtual, a etnografia também pode ser chamada de netnografia.

O termo “netnografia” foi cunhado por um grupo de pesquisadores

norte-americanos a partir da aglutinação das palavras inglesas net + ethnography=

da observação em campo etnográfico usando o meio eletrônico para “seguir os

atores”” (BRAGA, 2013, p. 5). Um dos objetivos deste método de aproximação e

investigação é, com base nos dados coletados, estabelecer um modelo de

interpretação dos aspectos constituintes das ações de cada sujeito e,

consequentemente, nos impactos possíveis no seu grupo social e sobre o próprio ator

em foco.

Dentro da metodologia da netnografia, podem ser destacados dois tipos de

pesquisadores. O primeiro é o chamado lurking, da expressão inglesa que pode ser

traduzida “espreitando ou escondendo-se”, que se refere ao pesquisador que está

focado na observação de determinado grupo, buscando interferir da mínima forma

possível no contexto e práticas cotidianas (POLIVANOV, 2013, p. 64). O segundo tipo

é o extremo oposto do primeiro, é conhecido como insider, que indica alguém que

possui ligações próximas ou que faz parte do contexto do seu objeto de estudo

(POLIVANOV, 2013, p. 64), ou seja, devido à proximidade não pode exercer apenas

a observação, mas participa de forma ativa do contexto em foco.

Em pesquisas ambientadas no ciberespaço a prática do lurking tem sido a mais

comum e útil para os pesquisadores, que ao se inserirem em um novo grupo social,

podem através da observação do comportamento dos atores apreender as dinâmicas

de funcionamento, os valores e regras sociais envolvidas (POLIVANOV, 2013, p. 64).

Este aprendizado, centrado na observação do contexto, minimiza as interferências por

parte do pesquisador e eventuais impactos nas interpretações finais. Essa pesquisa

se utilizou do lurking para a coleta e análise dos dados apresentados na próxima

sessão deste capítulo.

Por se tratar de uma tentativa de observação e interpretação do comportamento

social, a netnografia não é utilizada apenas pelas Ciências Sociais como a

Antropologia ou a Sociologia. Os estudos sociais voltados para o alcance da mídia e

o marketing para a promoção de marcas e produtos também tem utilizado essa

metodologia amplamente. Segundo Robert V. Kozinets, um dos especialistas em

mídias sociais e pesquisas de marketing, a netnografia é uma metodologia poderosa

que possibilita construir importantes interpretações do comportamento do sujeito, a

partir de suas interações nas redes sociais (KOZINETS, 2010, p. 1) e os interpreta

“sob aspectos culturais e sociais, transformando esse material em informações

relevantes” (RODRIGUES, 2018, p. 69) para a modelagem das possíveis reações dos

atores envolvidos naquela cena. Assim a netnografia, considera as interações online,

como reflexos culturais percebidos a partir de um entendimento sobre a humanidade.

O olhar através da netnografia para as comunidades online é, em muitos

aspectos, semelhante ao proporcionado pela etnografia para as offline. Conforme

Kozinets observa, ambas pesquisas se estruturam da seguinte forma:

1. É natural. Ela se aproxima e se incorpora em uma cultura onde passa a existir, viver e respirar. 2. É imersiva. Busca entendimento cultural de um modo ativo que desenvolve participação pessoal e engajada ao longo de observação “objetiva”. 3. É descritiva. Busca “descrição rica/detalhada”, a linguagem espessa, evocativa, vivida, capaz de transmitir a realidade subjetiva e a verdade emocional dos membros de uma cultura. 4. É multi-métodos. Usa outros métodos promiscuamente, como entrevistas, semiótica, técnicas projetivas, fotografia e vídeo para completar o retrato da realidade vivida de uma cultura. (KOZINETS, 2010, p. 4)

Por ser um método que foca o contexto, a netnografia observa não apenas as

palavras utilizadas nas interações, mas também as características do comunicador, a

construção e a articulação da linguagem. Examina ainda “as fontes, espaçamento,

símbolos, textos, imagens, fotos e vídeos” (KOZINETS, 2010, p. 6), ou seja, toda

linguagem utilizada na esfera digital. Desta forma, as redes sociais se tornam um

espaço onde os atores podem realizar as suas interações sociais. Neste ambiente é

possível que expressem as suas emoções, reagindo a tudo ao que são expostos pelas

postagens dos outros atores, permitindo que se lancem novas perspectivas sobre os

sujeitos participantes (RODRIGUES, 2018, p. 68), fornecendo material para a

compreensão daquilo que está sob olhar do pesquisador.

Assim, o que se observa no comportamento dos sujeitos contemporâneos é a

forma de utilizar as plataformas digitais. As redes sociais possibilitaram o ambiente

para a criação de uma autorrepresentação por parte do sujeito que melhor se adeque

a sua visão, também a formação de grupos sociais e o fortalecimento do sentimento

de comunidade, proporcionando aos usuários que encontrem o seu lugar de

“pertencimento”, as informações e o apoio emocional que procuram (KOZINETS,

2014, p. 21). As pessoas estão conectadas, porém não são virtuais. Por isso a

observação dessas interações pode gerar compreensões sobre os sujeitos ali

representados.

Sabendo-se que as interações humanas se dão tanto por forma imediata quanto

mediada, a netnografia propõe que esses ambientes “não podem mais ser tratados

como “não-lugares” e menos ainda de forma dicotômica, opondo-se o virtual ao “real””

(POLIVANOV, 2013, p. 69), mas sim de forma complementar entre si.

No documento São Paulo (páginas 80-83)