3.1 O OLHAR PARA AS REDES
3.1.1 Netnografia, aproximando o olhar
Diante de todo esse cenário, as ciências sociais sentiram-se provocadas a
investigar fenômenos ocorridos nesses ambientes. Com esse objetivo,
desenvolveram e adaptaram métodos para interpretar as suas observações,
traduzindo os dados em aspectos sociais e apontando os impactos detectados. Para
a análise das interações humanas e o comportamento social, uma das técnicas
utilizadas é a etnografia, que consiste na imersão do pesquisador no contexto a ser
estudado, para a partir daí chegar as suas interpretações. Por se tratar de um
ambiente virtual, a etnografia também pode ser chamada de netnografia.
O termo “netnografia” foi cunhado por um grupo de pesquisadores
norte-americanos a partir da aglutinação das palavras inglesas net + ethnography=
da observação em campo etnográfico usando o meio eletrônico para “seguir os
atores”” (BRAGA, 2013, p. 5). Um dos objetivos deste método de aproximação e
investigação é, com base nos dados coletados, estabelecer um modelo de
interpretação dos aspectos constituintes das ações de cada sujeito e,
consequentemente, nos impactos possíveis no seu grupo social e sobre o próprio ator
em foco.
Dentro da metodologia da netnografia, podem ser destacados dois tipos de
pesquisadores. O primeiro é o chamado lurking, da expressão inglesa que pode ser
traduzida “espreitando ou escondendo-se”, que se refere ao pesquisador que está
focado na observação de determinado grupo, buscando interferir da mínima forma
possível no contexto e práticas cotidianas (POLIVANOV, 2013, p. 64). O segundo tipo
é o extremo oposto do primeiro, é conhecido como insider, que indica alguém que
possui ligações próximas ou que faz parte do contexto do seu objeto de estudo
(POLIVANOV, 2013, p. 64), ou seja, devido à proximidade não pode exercer apenas
a observação, mas participa de forma ativa do contexto em foco.
Em pesquisas ambientadas no ciberespaço a prática do lurking tem sido a mais
comum e útil para os pesquisadores, que ao se inserirem em um novo grupo social,
podem através da observação do comportamento dos atores apreender as dinâmicas
de funcionamento, os valores e regras sociais envolvidas (POLIVANOV, 2013, p. 64).
Este aprendizado, centrado na observação do contexto, minimiza as interferências por
parte do pesquisador e eventuais impactos nas interpretações finais. Essa pesquisa
se utilizou do lurking para a coleta e análise dos dados apresentados na próxima
sessão deste capítulo.
Por se tratar de uma tentativa de observação e interpretação do comportamento
social, a netnografia não é utilizada apenas pelas Ciências Sociais como a
Antropologia ou a Sociologia. Os estudos sociais voltados para o alcance da mídia e
o marketing para a promoção de marcas e produtos também tem utilizado essa
metodologia amplamente. Segundo Robert V. Kozinets, um dos especialistas em
mídias sociais e pesquisas de marketing, a netnografia é uma metodologia poderosa
que possibilita construir importantes interpretações do comportamento do sujeito, a
partir de suas interações nas redes sociais (KOZINETS, 2010, p. 1) e os interpreta
“sob aspectos culturais e sociais, transformando esse material em informações
relevantes” (RODRIGUES, 2018, p. 69) para a modelagem das possíveis reações dos
atores envolvidos naquela cena. Assim a netnografia, considera as interações online,
como reflexos culturais percebidos a partir de um entendimento sobre a humanidade.
O olhar através da netnografia para as comunidades online é, em muitos
aspectos, semelhante ao proporcionado pela etnografia para as offline. Conforme
Kozinets observa, ambas pesquisas se estruturam da seguinte forma:
1. É natural. Ela se aproxima e se incorpora em uma cultura onde passa a existir, viver e respirar. 2. É imersiva. Busca entendimento cultural de um modo ativo que desenvolve participação pessoal e engajada ao longo de observação “objetiva”. 3. É descritiva. Busca “descrição rica/detalhada”, a linguagem espessa, evocativa, vivida, capaz de transmitir a realidade subjetiva e a verdade emocional dos membros de uma cultura. 4. É multi-métodos. Usa outros métodos promiscuamente, como entrevistas, semiótica, técnicas projetivas, fotografia e vídeo para completar o retrato da realidade vivida de uma cultura. (KOZINETS, 2010, p. 4)
Por ser um método que foca o contexto, a netnografia observa não apenas as
palavras utilizadas nas interações, mas também as características do comunicador, a
construção e a articulação da linguagem. Examina ainda “as fontes, espaçamento,
símbolos, textos, imagens, fotos e vídeos” (KOZINETS, 2010, p. 6), ou seja, toda
linguagem utilizada na esfera digital. Desta forma, as redes sociais se tornam um
espaço onde os atores podem realizar as suas interações sociais. Neste ambiente é
possível que expressem as suas emoções, reagindo a tudo ao que são expostos pelas
postagens dos outros atores, permitindo que se lancem novas perspectivas sobre os
sujeitos participantes (RODRIGUES, 2018, p. 68), fornecendo material para a
compreensão daquilo que está sob olhar do pesquisador.
Assim, o que se observa no comportamento dos sujeitos contemporâneos é a
forma de utilizar as plataformas digitais. As redes sociais possibilitaram o ambiente
para a criação de uma autorrepresentação por parte do sujeito que melhor se adeque
a sua visão, também a formação de grupos sociais e o fortalecimento do sentimento
de comunidade, proporcionando aos usuários que encontrem o seu lugar de
“pertencimento”, as informações e o apoio emocional que procuram (KOZINETS,
2014, p. 21). As pessoas estão conectadas, porém não são virtuais. Por isso a
observação dessas interações pode gerar compreensões sobre os sujeitos ali
representados.
Sabendo-se que as interações humanas se dão tanto por forma imediata quanto
mediada, a netnografia propõe que esses ambientes “não podem mais ser tratados
como “não-lugares” e menos ainda de forma dicotômica, opondo-se o virtual ao “real””
(POLIVANOV, 2013, p. 69), mas sim de forma complementar entre si.
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São Paulo
(páginas 80-83)