CAPÍTULO V CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE
V. 2 2 Duas dialéticas diferentes
V.7. AS ESTRUTURAS CLÍNICAS
V.7.1. NEUROSE Recalque
Este aprofundamento teórico será iniciado pela Neurose, considerando que esta estrutura, apesar de fazer um laço social enquanto semblant, foi introduzida por Freud como sendo capaz de fazer um laço do tipo “civilizatório”. Apresenta uma fantasia inconsciente que se apresenta como um romance familiar de cunho mítico edipiano, e que, através da empatia, almeja uma identificação para si mesmo, pela via do amor do outro à sua singularidade.
Este é um dos laços sociais possíveis, se considerados todos os sujeitos como iguais. Costuma ser considerado de início como o mais provável, seja porque o mais frequentemente encontrado, seja porque esta estrutura demande mais.
V.7.1.1. A necessidade do amor e o “Não sei” edipiano
Para um sujeito neurótico, obstaculizando aquela ordem simbólica discursiva onde se pretenderia ter um sentido lógico-formal completo e totalizável, subjaz nas entrelinhas como enigma o paradoxo do desejo do Outro, ao qual ele demanda um reconhecimento do seu ser, através de demanda de um amor à sua identidade singular.
O conceito forjado por Lacan deste grande Outro é uma construção apoiada no Simbólico, na função do significante enquanto letra, em um inconsciente estruturado como
uma linguagem (1998). Se o discurso é o que, em sua função de semblante, permite o estabelecimento de um laço social de função civilizatória na estrutura da Neurose, é exatamente porque este sujeito se divide, se elude, se evanesce, no intervalo entre o dito e o dizer. As crenças de um neurótico são abaláveis, porque ele não tem confiança nelas como certezas. Estas crenças podem ser, portanto, até certo ponto, questionáveis, maleáveis, ou pior: moldáveis, sugestionáveis.
Mas, como já revelara a insegurança de Descartes, o neurótico duvida de si mesmo, ele vacila em sua identidade, e é por isso que o laço social só é possível pela via do semblante. O sujeito neurótico está para sempre destituído e condenado a se buscar e a se forjar a si mesmo, na tentativa de encontrar a sua almejada e pretensa identidade, pretendida como se esta existisse. Melhor dizendo, ele procura uma identidade (como se esta fosse possível existir), mas não a encontra. Encontra apenas uma moldura do pouco de realidade, com a qual tenta enquadrar o real de seu sintoma, que sempre lhe escapa e repete. É exatamente por esta falta estrutural, ou seja, pelo fato de que “a relação sexual não existe”, que o sujeito procura de alguma forma “fazer-de-conta” que ela possa existir, mas tem que se contentar que seja sob o viés do semblante.
O desejo do neurótico é um “desejo de desejo” do Outro. Como ele não pode confiar em seu próprio desejo, que “é articulado mas inarticulável”, ele se divide justamente ao tentar articular o impossível: é a própria ordem simbólica, cujo sentido lógico-formal-matemático lhe escapa, que deixa sempre um resto indizível.
Este resto paradoxal, se por um lado causa o conflito consigo mesmo e o mal-estar na civilização (FREUD, 1930, vol. XXI), lhe causa o vazio de significação que pode infinitamente relançar uma nova pergunta sobre o enigma do desejo. Lacan afirma categoricamente que “não é porque Édipo matou seu pai, nem porque ele quer dormir com sua mãe”, “não é por esta razão que Freud escolheu Édipo... é o ‘ele não sabia’...” (LACAN, 1992, Seminário 8, p. 104).
Esta pergunta do neurótico ao saber sobre o desejo enquanto enigma, que excede ou extrapola a matemática contábil, funciona como um endereçamento - levando-o a se enlaçar a um outro social que ele mesmo investe de insígnias fálicas enquanto grande Outro, na vã esperança de que este Outro lhe dê respostas, como se fosse ou uma busca de julgamento no Outro como se fora uma questão de atribuição de culpa, ou então como uma espécie de transferências de responsabilidades.
V.7.1.2. O amor de transferência na Neurose
Este grande Outro, ao qual ele atribui estas insígnias fálicas pretensamente totalizantes, é idealizado por ele como sendo o detentor da resposta à sua pergunta sobre a sua identidade (“Quem sou eu?”) sob a fantasia ilusória de um amor, que fosse gratuito, à sua singularidade. Este amor, buscado no outro semelhante pela via do reconhecimento, em uma sonhada gratuidade deste amor, lhe traria supostamente a confirmação ilusória de sua singularidade e, através desta, a almejada garantia de uma identidade que, sendo única e exclusivamente sua, lhe pudesse dar uma consistência de ser como único e indivisível.
No caso da Neurose a questão da gratuidade/singularidade em jogo no amor é, portanto, estabelecida a partir do pressuposto da cunhagem de uma suposta moeda de troca no desejo que ele presume ou atribui ao “Falo”, em: “A significação do falo” (LACAN, 1998), instituindo-o através do significante. A propósito, o pagamento da análise tem a função de insígnia ou de marca desta separação, destacando uma distância entre o sujeito e o analista.
V.7.1.3. A teoria socrática da imortalidade e a pulsão de morte
Para enfrentar o paradoxo ético da “Coisa” como “das Ding”, Lacan desenvolve o controverso tema da pulsão de morte introduzida por Freud, em 1920, em “Além do princípio do prazer” (FREUD, v. XVIII, ESB, 1976). “Como desejo de um impensável sujeito, que se apresenta no ser vivo, em quem isso fala. Este é, precisamente, irresponsável por aquilo que está em jogo, a saber, esta posição excêntrica do desejo no homem, que é desde sempre o paradoxo da ética” (LACAN, 1992, Sem. 8, p.102).
Ao comentar a Apologia de Sócrates, introduz a questão enigmática de um desejo de morte (LACAN, 1992, Sem.8, p.87) em Sócrates: “é difícil pensar que ele não quisesse morrer”, voltando a retomar o conceito do “entre-duas-mortes”:
Não há para o homem coincidência das duas fronteiras que se limitam com essa morte... A primeira fronteira, quer esteja ligada a um prazo fundamental que se chama velhice, envelhecimento, degradação, quer a um acidente que rompe o fio da vida, a primeira fronteira é aquela onde, com efeito, a vida se acaba e tem seu desenlace. Pois bem, é evidente, e desde sempre, que a situação do homem se inscreve no seguinte: que essa fronteira não se confunde com a da segunda morte, que se pode definir sob a fórmula mais geral, dizendo que o homem aspira aniquilar-se para se inscrever nos termos do ser. A contradição oculta, o detalhe a se compreender é que o homem aspira a destruir-se na própria medida em que se eterniza. (LACAN, 1992, Sem. 8, p. 103, grifo nosso)
Descrevendo a postura do herói, demonstra que ele a enfrenta para passar à memória da posteridade. “A história de Aquiles que prefere, deliberadamente, a morte que vai torná-lo imortal ‘a recusa ao combate que lhe pouparia a vida...” (LACAN, 1992, Sem.8, p. 103-104).
Discute o conceito de épistème, a ciência, tal como Sócrates o produziu, como “aquilo que se impõe necessariamente a toda interlocução em função de uma certa manipulação, de uma certa coerência interna, que está ligada, ou que ele crê ligada à única, pura e simples referência ao significante.” (LACAN, 1992, Sem.8, p. 105).
E descreve a teoria socrática da imortalidade da alma: “Ele nos afirma que é nessa segunda morte – encarnada em sua dialética pelo fato de ele elevar a coerência do significante à potência absoluta, potência de único fundamento da certeza – que ele, Sócrates, encontrará sem dúvida alguma sua vida eterna.” É por utilizar o argumento da segunda morte, pelo privilégio do significante, é que Sócrates defende a alma como imortal.
Lacan discute e critica o paradoxo da posição socrática: Sócrates contrapõe, à ideia da imortalidade, a sua própria concepção de ciência. E interroga: “A que responde a posição que ele introduz?” “A que atopia do desejo?” Essa atopia do desejo,
... ela designa o ponto central onde, em nossa topologia, o espaço entre-duas- mortes está em estado puro, e esvazia o lugar do desejo como tal. O desejo ali não passa de seu lugar, na medida em que não passa, para Sócrates, de desejo de discurso, de discurso revelado, revelando para sempre. (LACAN, 1992, Sem.8, p. 108, grifo nosso)
Ao interrogar a atopia do sujeito socrático, que esvazia o lugar do desejo, como um “desejo de discurso”, ele deixa a questão em aberto: “A esta pergunta, não respondo. Exponho-a.” (LACAN, 1992, Sem.8, p. 108).
E é a partir dessas considerações preliminares que Lacan pode passar a formular sua crítica àquilo que se chama a “relação médico-paciente” (LACAN, 1992, p. 109). Neste momento ele ainda define o que deveria ser o lugar do analista como: “aquele que ele deve oferecer vago ao desejo do paciente para que se realize como desejo do Outro” (LACAN, 1992, p. 109).
Após a desconstrução teórica das ideias sobre a relação médico-paciente subjacentes à posição médica, dando início a seus comentários e críticas a respeito das concepções sobre o “amor”, é que ele finalmente pôde introduzir a noção de Transferência como uma suposição de saber (LACAN, 1992, Sem.8).
V.7.1.4. O paradoxo da ética: a sugestão como efeito de uma teoria prévia
“Percebe-se que existe outra coisa além da tendência à rememoração.” E: “Se a fala se mantém, é porque existe a transferência” (LACAN, 1992, Sem.8, p. 175).
Mas: “resta uma margem irredutível de sugestão, um elemento sempre suspeito, que não está ligado ao que se passa lá fora – não se pode sabê-lo – mas sim ao que a própria teoria é capaz de produzir” (LACAN, 1992, Sem. 8, p. 175)
E essa transferência “não é para a pessoa a quem se dirige”, mas “ela se manifesta na relação com alguém a quem se fala.” (LACAN, 1992, Sem.8, p. 177) Descrevendo o “Che vuoi?” (“O que o Outro quer de mim?”) como uma interrogação sobre o enigma do desejo do Outro:
É na medida em que não sabe o que Sócrates deseja, e que é o desejo do Outro, é nessa medida que Alcibíades é possuído, pelo quê? – por um amor do qual se pode dizer que o único mérito de Sócrates é designá-lo como amor de transferência, e remetê-lo ao seu verdadeiro desejo. (LACAN, 1992, Sem.8, p.180)
Entretanto: “Essas repetições devem ser estritamente distintas daquilo que podemos chamar de transferência, mesmo que possam, em certos casos, ter efeitos homólogos.” (LACAN, 1992, Seminário 8, p.177). Assim, portanto, Lacan admite que as repetições poderiam ter “efeitos homólogos à transferência”.