3. CAPÍTULO II METODOLOGIA, JORNALISMO DE REVISTA E TEORIAS DO JORNALISMO
3.4 As teorias do jornalismo
3.4.3 Newsmaking e os critérios de noticiabilidade
Teoria surgida nos anos 1970 a partir de uma simples constatação: há superabundância de fatos ocorrendo todos os dias e, sem uma organização do trabalho jornalístico, é impossível produzir notícias com a rapidez que os meios de comunicação necessitam. Trata-se de um conceito que vincula a seleção de um assunto pelo repórter a três vertentes: a cultura profissional dos jornalistas, a organização da rotina e a institucionalização de processos produtivos.
58 Com base nessas regras, diz o pesquisador Mauro Wolf, o profissional da comunicação consegue otimizar o seu trabalho, como se fosse um empregado de uma indústria. Quando ocorre algum tipo de distorção do fato trata-se de um problema provocado de modo inconsciente pelo jornalista, ligado às práticas profissionais, às rotinas produtivas, aos valores partilhados e interiorizados acerca do modo de desempenhar a função de informar.
O objetivo declarado de qualquer órgão de informação é fornecer relatos dos acontecimentos significativos e interessantes. [...] Este objetivo é, como muitos outros fenômenos aparentemente simples, inextricavelmente complexo. O mundo da vida quotidiana – a fonte das notícias – é constituído por uma superabundância de acontecimentos [...]. São esses acontecimentos que o órgão de informação deve selecionar. A seleção implica, pelo menos, o reconhecimento de que um acontecimento é um acontecimento e não uma casual sucessão de coisas cuja forma e cujo tipo se subtraem ao registro. O objetivo de selecionar tornou-se mais difícil devido a uma característica posterior dos acontecimentos. Cada um deles pode exigir ser único, fruto de uma conjunção específica de forças sociais, econômicas, políticas e psicológicas [...]. (WOLF, 2001, p. 188).
Por conta da superabundância de acontecimentos, aponta a socióloga norte- americana Gaye Tuchman (1977), os órgãos de informação, para produzirem notícias, devem cumprir três obrigações: tornar possível o reconhecimento de um fato desconhecido como acontecimento notável; elaborar formas de relatar os acontecimentos que não tenham em conta a pretensão de cada fato ocorrido a um tratamento idiossincrásico; organizar, temporal e espacialmente, o trabalho de modo que os acontecimentos noticiáveis possam afluir e ser trabalhados de uma forma planificada. Estas obrigações estão relacionadas entre si.
Para facilitar o trabalho do profissional de comunicação, os fatos são medidos de acordo com critérios de noticiabilidade ou valores-notícia, divididos em cinco categorias: – substantivas (relativas ao conteúdo da notícia): diz respeito à importância e à quantidade de pessoas envolvidas no fato, se é um acontecimento de interesse nacional ou de interesse humano, ou ainda, se é um feito excepcional;
– relativas ao produto: aborda a disponibilidade de material, a brevidade (se a notícia está dentro dos limites de tempo e espaço do jornal), a atualidade, a novidade, a organização interna da empresa, a qualidade (ritmo, ação dramática), o equilíbrio (diversificação de assuntos na edição do jornal), o deadline, a escala de trabalho dos jornalistas;
– relativas ao meio de informação: refere-se à acessibilidade e à proximidade do jornal com a fonte ou com o local da notícia, à frequência que aquele fato ocorre, à formatação prévia de manuais de redação, à política editorial do veículo;
59 – relativas ao público: se o fato permite plena identificação de personagens ou se ele retrata um serviço de grande interesse público;
– relativas à concorrência: engloba as notícias que são exclusivas de um único meio de comunicação, o chamado furo jornalístico, capaz de gerar expectativas em todos os consumidores e que também era perseguido pelas revistas semanais, e não apenas pelos veículos de comunicação diários.
Assim, os fatos que se encaixam em algumas dessas categorias têm grandes chances de virarem notícia no dia seguinte. Por outro lado, tudo o que não corresponde a esses requisitos é excluído por não ser adequado às rotinas produtivas e à cultura profissional que o jornalismo exige. Isso significa que, embora o jornalista seja um profissional que tenha participação ativa na construção da realidade, incluindo da realidade discutida pelas pessoas no dia a dia, não há uma autonomia incondicional em sua prática profissional. Existe, sim, uma submissão a um planejamento produtivo, a regras jornalísticas, aos critérios de noticiabilidade, que teriam maior importância do que as preferências pessoais na hora de selecionar o que vai virar ou não notícia na edição seguinte.
Os valores/notícia são usados de duas maneiras. São critérios para selecionar, do material disponível para a redação, os elementos dignos de serem incluídos no produto final. Em segundo lugar, eles funcionam como linhas-guia para a apresentação do material, sugerindo o que deve ser enfatizado, o que deve ser omitido, onde dar prioridade na preparação das notícias a serem apresentadas ao público. (...) Os valores/notícia são a qualidade dos eventos ou da sua construção jornalística, cuja ausência ou presença relativa os indica para a inclusão num produto informativo.Quanto mais um acontecimento exibe essas qualidades, maiores são suas chances de ser incluídos (WOLF, 1999, p. 203)
Ou seja, o veículo de comunicação tem uma periodicidade, um formato definido e uma rotina produtiva, o que torna possível um planejamento prévio de alguns tipos de notícia que o comporão, antes mesmo que elas sejam produzidas. Porém, no caso de acontecimentos excepcionais, que fogem do previsível, o órgão de informação tem flexibilidade para se adaptar à situação. O faro jornalístico, conclui Wolf, não é uma capacidade misteriosa de captar notícias, mas uma capacidade adquirida a partir de parâmetros como os valores/notícia. Porém, sabe-se que, ao se limitar a essa rotina, o jornalista corre o sério risco de tornar sua cobertura burocrática e sem criatividade, relatando apenas notícias cotidianas, que não despertam a curiosidade do seu público consumidor.
60 Embora a teoria dos critérios de noticiabilidade seja mais eficiente para analisar a cobertura realizada por veículos de comunicação diários, como um jornal impresso, por conta da rotina de produção ser mais rígida e depender de uma organização oferecida por esses critérios, ela também pode ser aplicada em análises de revistas semanais, como os objetos desta pesquisa. A revista, mesmo com suas particularidades, também é um produto jornalístico e, como tal, dadas as suas características, necessita de um certo arranjo ou organização para as operações jornalísticas que sobre ela operam. Uma revista também tem o compromisso de informar o leitor, transmitindo notícias, fazendo análises e reflexões mais substanciosas. Assim, se o profissional de comunicação não se basear em alguns critérios na hora de definir a pauta que será desenvolvida, os assuntos que serão trabalhados naquela edição, os acontecimentos da semana que realmente merecem uma cobertura mais profunda e analítica, e os prazos que os repórteres e os repórteres fotográficos têm para cumprir suas tarefas, dificilmente a publicação chegará às bancas e às casas dos assinantes no dia determinado.
Em uma revista semanal, jornalistas e editores, seguindo suas capacidades e necessidades, produzem o conteúdo de acordo com tempos e espaços de uma mídia impressa que difere das outras e, por isso, necessitam ter um outro olhar para a realidade, mas não podem abrir mão dos critérios de noticiabilidade típicos do jornalismo. O que pode acontecer, na prática, é determinado critério ser mais relevante para um jornal diário e menos significativo para uma revista, seja ela mensal ou semanal, e vice-versa. A acessibilidade à fonte, o deadline e a proximidade física do acontecimento em relação ao jornalista são, em teoria, mais importantes para uma cobertura jornalística diária, em que o tempo de produção da notícia é muito mais enxuto. Por outro lado, critérios como relevância do fato (não importa a distância) e da fonte que deve ser consultada, a novidade e o furo jornalístico são elementos essenciais para a produção de uma revista semanal, em que o leitor busca o diferencial da notícia em relação aos veículos concorrentes.
Vale lembrar ainda que, além da linha editorial, do perfil do leitor médio e do alcance dos recursos financeiros, são os recursos humanos disponíveis (repórteres, editores, fotógrafos, editores de arte, etc) que definem o planejamento das pautas a serem cobertas. E estas, mesmo no jornalismo de revista, atendem a critérios de noticiabilidade. "Em princípio, as revistas buscam tratar dos acontecimentos mais importantes da semana", lembra Marcia
61 Benetti (2013, p.51). E quando a autora fala em importante, pressupõe que as notícias têm hierarquias, que são, portanto, definidas pelas categorias dos critérios de noticiabilidade.
Por não terem o compromisso de informar diariamente, as revistas operam com a construção de um fato, sua contextualização, análise, privilegiando os temas de longa duração. Tavares e Schwaab (2013) observam que a revista está cercada por duas determinantes temporais: do tempo de produção da notícia e do tempo de duração da notícia. Em uma publicação semanal, o tempo de duração da notícia tem grande relevância, o que significa dizer que o jornalista precisa ter um olhar e uma postura diferente sobre a realidade, com o objetivo de produzir matérias e reportagens que permaneçam atuais por mais tempo, seja na maneira de abordar o fato (se for algo factual, trazendo aspectos que o mantenham atraente por muitos dias e semanas), seja na escolha do tema a ser debatido (os chamados temas mais "frios" e "atemporais").
Na prática, nos casos de eventos pré-agendados, como uma Copa do Mundo, cabe ao profissional de revista buscar o inusitado a respeito do fato para conseguir se destacar dentro do mercado editorial. Se a revista fez uma cobertura mais factual sobre o Mundial de futebol, se atendo apenas a questões como escalação das seleções e autores dos gols, ela se comportou como um jornal impresso diário, e não como uma revista propriamente dita. "A extensão do tempo marca e impele ao jornalista um outro tipo de fazer, o que diz, com certeza, da existência de posturas e olhares diferentes nela observado", apontam Tavares e Schwaab (2013, p.34). Ou seja, era preciso se ater mais ao tempo de duração da notícia, e não apenas ao tempo de produção da notícia. Era preciso ter um outro olhar sobre o fato.
Scalzo considera ser impossível imaginar uma publicação semanal de informações que se limite "a apresentar para o leitor, no domingo, um mero resumo do que ele já viu e reviu durante a semana. É sempre necessário explorar novos ângulos, buscar notícias exclusivas, ajustar o foco para aquilo que se deseja saber, e entender o leitor de cada publicação" (Scalzo, 2004, p.41). Mas isso pede uma necessidade de rearranjo técnico (das operações), de tecnologia (instrumentos, impressão), de cobertura de fatos e temas, e que as revistas, pelo menos na metade do século XX, pareciam não estar preparadas. Pois estamos falando de uma obra (da Scalzo) escrita neste século, enquanto a análise desta pesquisa se refere a revistas nascidas no início do século passado e que reportam um evento esportivo ocorrido há mais de sessenta anos.
62 É preciso ainda reforçar como o perfil do leitor de uma publicação interfere na maneira com que ela retrata um tema ou um acontecimento, ou seja, o quanto esse público leitor funciona como um critério de noticiabilidade importante. O que leva um fato a atrair a atenção e outro ser ignorado depende do tema e dos referentes de cada revista, pois o "jornalismo de revista está intimamente ligado às expectativas dos leitores", lembra Renné Oliveira França (2013, p.93), o que significa que, diferentemente do jornal impresso diário, que traz os acontecimentos de uma maneira mais objetiva, geral e factual, com o intuito de atingir o maior número de leitores possível, "a revista costuma ser especializada, com características próprias que dizem de sua identidade". E o autor continua:
Dessa forma, cada 'mundo' apresentado pela revista será um mundo criado pela relação entre a atualidade (na qual se encontram os acontecimentos e personagens) e a expectativa da comunidade de leitores. Os referentes jornalísticos, nesse caso, são recortes da realidade feitos pelas escolhas da instituição jornalística a partir daquilo que ela espera que agradará seus leitores. (FRANÇA, 2013, p.93)
Ou seja, as revistas levam em conta o público e utilizam as suas marcas jornalísticas para acompanhar os acontecimentos, por isso, muitas vezes, "a formatação antecede o fato" (p.94). O acontecimento é o referente (ou o critério de noticiabilidade) mais claro do jornalismo de revista, e o que o autor chama de pensata, que é o que define previamente como determinado assunto será tratado, inclusive o formato em que ele será apresentado (nota, matéria, foto com legenda, grande reportagem, charge, etc), formata esse acontecimento de acordo com as expectativas de seu público.
Por isso, cada revista aqui analisada seguiu o seu padrão de comportamento ao acompanhar as disputadas da Copa do Mundo. Até pela periodicidade, Cruzeiro, Revista da Semana e Careta e Fon-Fon não conseguiriam trazer informações como placares de jogos e autores de gols sobre a Copa de 1950 com mais antecedência que o jornal diário e o rádio. Assim, uma saída para isso seria apostar em outros fatos relacionados ao evento esportivo, e mostrar a rotina de vários personagens ligados ao Mundial, como atletas, torcedores, turistas. No capítulo seguinte, veremos se, na prática, as quatro revistas conseguiram se diferenciar dos demais veículos de comunicação na cobertura da Copa do Mundo.