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1 UMA NOVA HISTORIOGRAFIA DO DIREITO INTERNACIONAL

1.3 Os grandes temas dos estudos recentes de história do Direito internacional

1.3.1 Newstream e História do Direito internacional

Antes que se aborde qualquer tema comum aos atuais debates em torno da história do direito internacional, é preciso ao menos fazer referência à contribuição da chamada newstream ao tema.

Seria extremamente difícil estabelecer um conceito do que viria a ser a chamada newstream no direito internacional. O termo comumente é utilizado, em língua inglesa, para designar um grupo de autores, em determinado ramo do conhecimento, que pretendem substituir, renovar ou simplesmente criticar as correntes tradicionais e majoritárias (mainstream). Há certo maniqueísmo em tal distinção que muitas vezes pretende estabelecer uma oposição entre renovação e conservadorismo.

No direito internacional, os autores ligados à newstream não representam uma escola. A sua intenção é renovar a disciplina a partir de vários pontos de vista não necessariamente coincidentes.

Dado que os autores ligados a essas novas correntes possuem projetos os mais diversos para lidar com os temas jurídicos internacionais, Deborah Cass, em um importante artigo, tentou sumarizar os diversos pontos de vista.

Para Cass, a newstream pretenderia renovar o direito internacional a partir de três desafios básicos: conceitual, metodológico e estratégico.

O desafio conceitual se manifestaria de três modos: a) cultura (essa dimensão não teria sido bem explorada pela mainstream, mas seria essencial para a compreensão e implementação das normas de direito internacional); história e soberania (pois a mainstream teria mantido uma perspectiva sobre a história do direito internacional que privilegiaria a visão de progresso na qual a soberania evoluiria de um princípio incerto de pura distribuição de poder para mecanismos jurídicos mais formais); c) linguagem (uma vez que as correntes tradicionais não teriam levado em conta, com o devido cuidado, na análise dos temas jurídicos internacionais, as questões referentes ao domínio da linguagem).

O segundo desafio, denominado metodológico, também se manifestaria de três diferentes maneiras: a) duplos (em que se analisariam oposições conceituais, revelando a natureza instável e contingente do direito que suporta aquelas oposições); b) busca pessoal (onde se enfatiza que os atores internacionais estão empenhados em uma busca pessoal, minando assim o caráter de objetividade e formalismo das regras jurídicas); c) linguagem (o uso de tal recurso se dá com vistas a sublinhar as várias dimensões da linguagem para interpretar a realidade jurídica internacional).

Por último, o desafio estratégico se revelaria da seguinte forma: a) incorporação de perspectivas múltiplas e contextualização (assim, perspectivas culturais, raciais, de gênero, sociais e políticas seriam levadas em consideração na análise do direito internacional); b) reescrita da história da disciplina (necessária tendo em vista as possibilidades que isso abre de novas interpretações do direito internacional); c) integração de considerações políticas à análise do direito (dada a inseparabilidade do fenômeno político do jurídico) (CASS, 1996, pp. 344-378).

Como se viu no breve panorama traçado sobre o estado da arte no campo historiográfico do direito internacional, muitas das aberturas oferecidas foram ou estão sendo levadas a contento pelos autores ligados à newstream.

Fazendo um balanço sobre os trabalhos na área elaborados pelos newstreamers, Cass ressalta que, especificamente no campo historiográfico, a visão comungada entre os vários autores é a de que a história do direito internacional que produziu a mainstream é repetitiva, excessivamente linear no seu foco, instável e produz o efeito de ocultar interesses não propriamente jurídicos numa bandeira de pureza do direito. Por essa razão, os autores ligados à newstream reivindicariam a necessidade de uma verdadeira reescrita da história do direito internacional, porque a mainstream constantemente apenas reiteraria sua própria leitura histórica da disciplina, a fim de apresentá-la como uma narrativa de progresso inevitável e modernização – ou seja, uma narrativa tipicamente ligada à chamada razão iluminista.

O denominador comum acerca da necessidade de uma reavaliação da história do direito internacional não levaria, no entanto, aos historiadores internacionalistas optarem pelos mesmos caminhos. Segundo Cass, a newstream apresenta diferentes versões das narrativas desenvolvidas pela mainstream, bem com oferece diferentes versões para como aquelas narrativas poderiam ser alteradas.

Um primeiro grupo, seguindo tradições realistas ou sociológicas, argumenta que o direito internacional e sua história têm sido construídos de maneira tal que se tem feito algo chamado “direito”, algo cuja existência seria, ao menos, semi-autônoma. Assim, o que quer enfatizar esse grupo não é que a história do direito internacional seja de algum modo fraudulenta, mas que ela foi feita, construída, o que por si só já permite contestar a versão da história proposta pela mainstream e demonstrar que ela está longe de ser inevitável. Por sua vez, para um segundo grupo, o direito se constituiria como não mais que um conjunto de práticas argumentativas, uma forma de retórica. Portanto, se o direito e sua história são

simplesmente estruturas de certas práticas repetidas e argumentos, então a história e o direito internacional podem ser questionados e desenredados, não apenas revelados (como o primeiro grupo advoga), a fim de que sejam alterados.

Deborah Cass enumera quatro razões diferentes para autores ligados à newstream serem especialmente críticos das narrativas históricas da mainstream: (a) um exame da história da noção de soberania revela que as narrativas históricas lineares são erradas e que a sua aceitação tem distorcido nossa atual compreensão do significado da doutrina. Um exemplo disso seria que, embora tenha sido propagada a idéia de que a soberania teria perdido gradualmente sua força do século XIX até os dias de hoje, uma análise mais apurada da questão demonstra que a soberania sempre possuiu um caráter instável; (b) paradoxalmente, a história da mainstream inibe os juristas de enfrentarem problemas atuais, porque em tal tipo de história, está-se sempre olhando para os desenvolvimentos do passado ou antecipando um inevitável futuro reformado. Isso tanto reforçaria a idéia de um progresso inevitável como impediria os juristas de se concentrarem nas dificuldades substantivas do presente; (c) a narrativa da mainstream presume uma clara demarcação entre o passado, no qual a religião, o misticismo e as ideologias universalizantes reinavam, e o presente, no qual a sociedade seria caracterizada pelo direito, pela racionalidade e pela ausência de ideologia. Tal demarcação seria falaciosa, pois conceitos dotados de uma alta carga de religiosidade ainda persistem, sob outras vestes, no discurso jurídico internacional, fomentando a existência de uma verdadeira religião civil;15 (d) a visão linear da história que propaga a mainstream enterra as desigualdades que se encontram na fundação de certos desenvolvimentos doutrinários. Um exemplo disso seria o conceito de soberania, que se afirmou a custo das desigualdades que os povos europeus perpetuavam em relação aos povos não-europeus (CASS, 1996, pp. 354-359).

15 Sobre o tema, ver o inovador trabalho de teólogos como Jürgen Moltmann e Johann Baptist Metz (MOLTMANN, 1987, pp. 15-52; METZ, 2002, 13-107).

O interesse revisionista desses autores já foi associado ao fato de que há, em boa parte dos trabalhos ligados à newstream, certo pessimismo para com o direito internacional, e o pessimismo inibiria uma visão de futuro, uma vez que uma disciplina sem futuro se voltaria para o passado a fim de entender o que deu errado em seu projeto (PAULUS, 2001, p. 738).

De todo modo, algumas das críticas que as novas correntes têm sofrido em relação aos seus projetos teóricos também se aplicam a suas análises históricas.

Embora não seja papel do historiador dar respostas às questões presentes – ele pode até mesmo fazê-lo, mas não se pode ver obrigado a isso -, os historiadores newstreamers quase sempre têm utilizado à história como projeto político para criticar o direito internacional vigente sem trazer qualquer substituto para ele. Mais, o recurso à história daria a idéia de que ele estaria sendo feito, em verdade, para fugir dos problemas atuais (PAULUS, 2001, pp. 738-739). O mais impressionante é que esta é uma crítica desde há muito feita aos vários movimentos pós-modernistas e que se repete sem uma resposta consistente.16 Em outras palavras, as doutrinas pós-modernistas, em geral, e especificamente no direito internacional, não possuem um projeto institucional para substituir o que existe por algo completamente novo.17

No entanto, ainda que se possam apor críticas à perspectiva histórica adotada por muitos autores ligados à newstream, o simples fato de terem eles estimulado um novo interesse doutrinário acerca dos temas históricos merece ser festejado.

16

Veja-se, por exemplo, as críticas de Georgiev, há mais de dez anos, sobre os estudos pertencentes à newstream (GEORGIEV, 1993).

17 Tome-se como exemplo o trabalho de um dos mais competentes autores ligados à newstream, Martti Koskenniemi. Embora as críticas por ele formuladas aos mais diversos institutos do direito internacional possam ser consideradas brilhantes, o seu projeto para a reconstrução do direito internacional ainda é muito incipiente. Em uma das obras já comentadas, The Gentle Civilzer of Nations, ele chega a formular, nas últimas páginas do livro, a proposta de que o direito internacional deve se guiar por uma cultura de formalismo. A proposta, mesmo sem levar em consideração que é formulada em poucas páginas, é dotada de uma abstração que dificulta sobremaneira a sua viabilidade prática (KOSKENNIEMI, 2002a, pp. 494-509). Em um estudo anterior, versando

sobre a questão da hierarquia no direito internacional, propôs o uso da tópica para a solução de problemas e, assim, evitar o reforço da hierarquização no direito internacional. Contudo, também nessa ocasião, apenas poucos parágrafos são dedicados, percebendo-se também um forte descolamento da proposta com a prática (KOSKENNIEMI, 1997, pp. 566-582).