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Acórdão do TEDH, de 6 de Abril de 2000, caso Comingersoll S.A. c. Portugal, considerando n.º 32, 2§.

381 Acórdão do TEDH, de 6 de Abril de 2000, caso Comingersoll S.A. c. Portugal, no considerando n.º 34 pode

ler-se: “O Tribunal tem também tido em conta as práticas dos Estados membros do Conselho da Europa, em

tais casos. Embora seja difícil identificar com precisão a regra comum a todos os Estados membros, a prática judiciária, em vários dos Estados, mostra que a possibilidade legal de a uma pessoa jurídica pode ser atribuída uma indemnização por danos não patrimoniais não pode ser excluída”.

382

Acórdão do TEDH, de 6 de Abril de 2000, caso Comingersoll S.A. c. Portugal, considerando n.º 35.

383 M

ARIA MANUEL VELOSO, “Danos não patrimoniais a sociedade comercial? – Anotação ao acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 20.04.2004, Apelação n.º 430/04”, CDP, n.º 18, Abril-Junho, 2007, p. 42.

384

COUTINHO DE ABREU, Curso de Direito Comercial – Das Sociedades, Vol. II, Coimbra, Almedina, 2002, p. 175. No sentido de se ter verificado, no caso concreto, a desconsideração da personalidade jurídica ou o levantamento do véu está o voto de vencido do Juiz Rozakis.

385 No caso concreto considerou-se que a sociedade Comingersoll, os seus directores e accionistas sofreram,

por causa da demora irrazoável do processo, consideráveis transtornos e prolongada incerteza na condução dos seus assuntos quotidianos.

O último pressuposto da responsabilidade subjectiva a analisar é o nexo de causalidade, que se encontra implícito nos artigos 7.º/1 e 8.º/1 do RRCEE, quando se refere aos danos que resultem dos factos ilícitos culposos. A doutrina tem adiantado três teorias para aferir do nexo de causalidade: (i) a teoria da causalidade adequada, (ii) a

teoria da esfera de protecção da norma e (iii) a teoria da conexão do risco. Por seu lado,

há muito que nossa jurisprudência, partindo da formulação do artigo 563.º do CC, elegeu a teoria da causalidade adequada386, segundo a qual uma condição do dano deixará de ser considerada causa dele sempre que seja de todo indiferente para a produção do dano e só se tenha tornado condição dele, em virtude de outras circunstancias extraordinárias.

Para que um dano seja considerado como efeito adequado de certo facto não é necessário que ele seja previsível pelo autor desse facto em face das circunstâncias por ele conhecidas ou reconhecíveis. Naturalmente que se a responsabilidade depender de culpa do lesante é imprescindível a previsibilidade do facto constitutivo da responsabilidade, mas que nem aqui se exige que sejam previsíveis os danos subsequentes387. A avaliação desta previsibilidade, que não dispensa a noção de causalidade ontológica, é efectuada mediante um juízo virtual de prognose formulado após a ocorrência do facto voluntário e do resultado (prognose póstuma)388.

No caso da responsabilidade civil extracontratual do Estado por dilações indevidas na administração da justiça, uma vez justificado o facto ilícito, o requerente beneficia de uma presunção de culpa ou do conceito de anormal funcionamento do serviço de justiça, bastando-lhe alegar e provar o nexo de causalidade entre o facto ilícito e os danos decorrentes desse facto ilícito389.

PARTE III

ACÇÃO DE INDEMNIZAÇÃO POR VIOLAÇÃO DO DIREITO A UMA DECISÃO EM PRAZO RAZOÁVEL OU SEM DILAÇÕES INDEVIDAS

1. Tribunal competente 1.1. Competência material

A jurisdição competente para julgar as questões em que haja lugar a responsabilidade civil extracontratual das pessoas colectivas públicas, maxime Estado, por facto jurisdicional, na modalidade dilações indevidas, seja qual for a jurisdição em que ocorre a violação do direito a uma decisão em prazo razoável, é a jurisdição administrativa. O artigo 4.º/1-g) do ETAF/04 atribui competência aos Tribunais Administrativos para todas as acções de responsabilidade por actos e omissões da função jurisdicional que se prendem com a (má) administração da justiça no seu

386 Vd., por todos, Acórdão do STA, de 17 de Janeiro de 2007, processo n.º 1164/06, devendo atentar-se na

doutrina e jurisprudência aí indicadas.

387A

NTUNES VARELA, Das Obrigações em Geral, Vol. I, 8.ª Edição, Coimbra, Almedina, 1994, p. 908 e ss..

388 Por todos,M

ARCELO REBELO DE SOUSA/ANDRÉ SALGADO DE MATOS,Responsabilidade…, p. 31.

389 Este pressuposto deve merecer uma maior atenção por parte dos recorrentes, já que boa parte das

acções por morosidade na administração da justiça naufragam por não verificação do mesmo. Vd., a título exemplificativo, nota 167.

funcionamento390. Devem considerar-se incluídas na competência dos Tribunais Administrativos, a título de mera concretização, o conhecimento das acções de responsabilidade por danos causados pelos actos de natureza administrativa (do Juiz, do Ministério Público e das autoridades de polícias) relativas ao inquérito, à instrução criminais e ao exercício penal, apesar da impugnação desses actos caber aos tribunais judiciais (cf. art. 4.º/2-c) ETAF/04)391.

Antes da entrada em vigor do ETAF vigente, a nossa jurisprudência e doutrina392 administrativistas não eram unânimes em considerar a jurisdição administrativa competente para decidir acções de indemnização com fundamento em responsabilidade civil emergente da violação do dever de prestar justiça em prazo razoável393. Ao longo dos tempos veio a desenvolver-se uma jurisprudência que divide a responsabilidade por facto jurisdicional em duas: i) facto ilícito imputado ao juiz no exercício da função de julgar e ii) facto ilícito imputado a um órgão da administração da justiça. Sendo largo o entendimento de que estando em causa a responsabilidade emergente da função de julgar, a competência cabe aos tribunais judiciais. Diferentemente, todos os outros actos e omissões dos juízes, bem como toda a actividade e actuações dos restantes magistrados, órgãos e agentes estaduais que intervenham na administração da justiça, em termos de relações com os particulares ou outros órgão e agentes do Estado, e, portanto estranhos à específica função de julgar, inscrevem-se nos concretos actos e actividades administrativas e, portanto, são da competência dos Tribunais Administrativos394. Assim e para a matéria que nos interessa - a responsabilidade civil do Estado por violação do direito a uma decisão sem dilações indevidas - e de acordo com o direito positivo, tem de considerar-se que quando a causa de pedir na acção se reconduza e assente, na sua essência, no deficiente funcionamento da “máquina judiciária” do Estado, como um todo orgânico e funcional, a jurisdição competente é a administrativa395.

1.1.1. Causa de pedir simples

Face ao disposto no artigo 4.º/1-g) do ETAF/04 e ao que ficou dito, cabe aos Tribunais Administrativos julgar as acções de responsabilidade em matéria de funcionamento da administração da justiça, nomeadamente por violação do direito a uma decisão sem dilações indevidas. Logo que a causa de pedir da acção se reconduza e assente, exclusivamente, na violação do direito fundamental a uma decisão em prazo razoável, dúvida não pode haver de que o foro competente é o foro administrativo. Assim,

390 Neste exacto sentido, M

ÁRIO ESTEVES DE OLIVEIRA/RODRIGO ESTEVES DE OLIVEIRA, Código de Processo nos Tribunais Administrativo, Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais - Anotados, Vol. I, Reimpressão da

edição de 2004, Coimbra, Almedina, 2006, p. 60.

391 V

IEIRA DE ANDRADE, A Justiça Administrativa (Lições), 7.ª Edição, Coimbra, Almedina, 2005, p. 123 e 124.

392

Para uma visão das posições doutrinais adiantadas veja-se, entre outros, RUI MEDEIROS, Acções de

Responsabilidade…, p. 6 e ss. e NÉLIA DANIEL DIAS, A responsabilidade…, p. 638 e ss..

393 Vd. Acórdão do STA, de 12 de Abril de 1994, processo n.º 32906, que considera a jurisdição

administrativa incompetente, já o Acórdão do STA, de 15 de Abril de 1999, processo n.º 43189, considera-a competente.

394 Veja-se, a este propósito, o Acórdão do Tribunal de Conflitos, de 29 de Novembro de 2006, processo n.º

3/05.

395 Para uma resenha das posições/teses jurisprudenciais assumidas a este respeito, vd. Acórdão do Tribunal

não se compreende o facto de (erradamente) abundarem acórdãos396 decididos já à luz do novo contencioso administrativo proferidos na jurisdição comum, quando a causa de pedir assentava simplesmente em violação do direito a uma decisão sem dilações indevidas. Tal erro consubstancia uma incompetência em razão da matéria, devendo ser tratado como excepção dilatória que é.

1.1.2. Causa de pedir complexa

Dúvidas já se levantam quando haja mais do que uma causa de pedir e estas pertençam a diferentes jurisdições, isto é, quando houver uma causa de pedir que assente em violação do direito a uma decisão em prazo razoável, em que a jurisdição competente é a administrativa e outra causa de pedir que se fundamente, por exemplo, em erro judiciário, originado na jurisdição comum cuja jurisdição competente é a judicial/comum397. Nestes casos, de causa de pedir dupla ou múltipla, mas sempre complexa, terá de se perguntar qual jurisdição competente para o julgamento. A resposta parece-nos ser a de que a jurisdição competente é a jurisdição comum, pois a excepção prevista no artigo 4.º/3-a) do ETAF/04 é mais forte que a regra prevista no artigo 4.º/1-g) do mesmo diploma, valendo aqui o princípio da atracção, na medida em que a matéria excepcionada subtraída aos tribunais administrativos transporta consigo a outra causa de pedir para os tribunais comuns. Entende-se que sopesados os valores que fundamentam a regra e os que fundamentam a excepção, estes últimos são mais fortes, portanto, prevalecendo sobre aqueles.

1.2. Competência territorial

Por fim, no que tange à competência, cabe ainda uma nota sobre a competência territorial, pois no caso de se estar perante uma causa de pedir simples ou uma causa de pedir complexa (por exemplo, de morosidade na administração da justiça cumulada com erro judiciário “administrativo”) tem de se entender que as pretensões em matéria de responsabilidade civil extracontratual devem ser deduzidas no tribunal do lugar em que se deu o facto constitutivo da responsabilidade, isto é, no tribunal administrativo da área onde ocorreu o processo que violou esse(s) direito(s), conforme resulta do disposto no artigo 18.º/1 do CPTA398.

2. Meios processuais adequados