4. RESPONSABILIDADE CIVIL
4.2. Pressupostos da responsabilidade civil
4.2.3. Nexo de causalidade
O nexo causal entre o fato ilícito e o dano por ele ocasionado também constitui pressuposto da responsabilidade civil. O estudo desse liame, muitas vezes, encontra diversos obstáculos, uma vez que apontar a correta causa do dano nem sempre se mostra simples. Ademais, podem surgir causas simultâneas ou sucessivas que, certamente, tendem a dificultar a problemática.
Nesse diapasão, imprescindível apontar as três principais teorias que explicam o nexo de causalidade, conforme preleciona Carlos Roberto Gonçalves:
teoria da equivalência das condições; teria da causalidade adequada; e, por fim, a teoria que exige que o dano seja conseqüência imediata do fato que o produziu107.
Pela primeira, a denominada teoria da equivalência das condições ou da condição “sine qua non”, toda circunstância que direta ou indiretamente tenha contribuído para a produção do dano, passa a ser tida como causa. Na hipótese de ser suprimida uma delas, o dano não ocorreria.
Já, para a segunda teoria, denominada de causalidade adequada, somente se considera como ensejadora do dano a condição apta a produzi-lo por si só, ou seja, se o fato era suficiente para dar causa.
Por último, a teoria denominada de danos diretos e imediatos, uma espécie de mitigação entre as duas anteriores e adotada pelo legislador pátrio no art.
403, do Código Civil, abaixo transcrito, prima pela responsabilidade limitada aos
106 Art. 475-C. Far-se-á a liquidação por arbitramento quando:
II – o exigir a natureza do objeto da liquidação.
107 GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade civil: doutrina, jurisprudência. 7 ed. atual. e ampl. de acordo com o novo Código Civil. – São Paulo: Saraiva, 2002. p. 4-9.
danos diretos e imediatos, ou seja, afasta qualquer pretensão ligada aos danos indiretos ou remotos:
“Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual”.
Resta evidente, portanto, que o nosso legislador, para efeitos de responsabilidade civil, afasta os danos remotos ou oriundos de novas causas, preocupando-se, tão somente, com aqueles relacionados direta e imediatamente ao fato causador.
Por outro lado, em se tratando de concausa, que é a outra causa que, unida à principal, concorre para as conseqüências (dano), mas que não possuem o condão de afastar o nexo causal decorrente da conduta principal, o Código Civil versou apenas de concausa simultânea, conforme se extrai da redação do art. 942, mais especificamente do seu parágrafo único, abaixo transcrito:
“Art. 942. Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado; e, se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação.
Parágrafo único. São solidariamente responsáveis com os autores os co-autores e as pessoas designadas no art. 932”.
Na hipótese acima, conforme pode ser observado, o dano ocasionado por mais de um causa, poderá ser imputado a duas ou mais pessoas. No entanto, em se tratando de concausas antecedentes ou sucessivas, o nosso legislador permaneceu silente, o que leva a entender que por estar desprendida do nexo causal principal, em nada favorece ou prejudica o agente.
Na Justiça do trabalho, esse nexo de causalidade seria a relação entre a doença ocupacional e o ato culposo do empregador, caracterizado pelo descumprimento de normas de segurança e saúde do trabalho. Porém, quando se trata de responsabilidade civil objetiva, esse nexo causal se caracterizaria pela relação etiológica entre o dano da vítima e a atividade empresarial perigosa ou de risco108.
As concausas também estão previstas no caso de doença ocupacional, porém a atividade deve estar diretamente ligada à patologia.
108 DALLEGRAVE NETO, J. A. op. cit., p. 216
Somente com o Decreto-Lei n. 7.036/1944 foram admitidas as concausas no âmbito trabalhista, sendo que as leis anteriores somente admitiam doenças do trabalho ou profissionais originadas por causa única109.
Atualmente, Dallegrave Neto frisa que mesmo que as condições de trabalho não tenham sido a causa única para adquirir a doença, se estas condições concorreram diretamente para o mal, ainda assim serão equiparadas a acidente de trabalho110. Este entendimento pauta-se no art. 21, I, da Lei n. 8.213/91111.
Citando José de Oliveira112, explicita que a concausalidade é uma causa que não está ligada a atividade laboral, mas que é concorrente. Segundo este autor, ela pode ser preexistente, concomitante ou superveniente.
“Ensina Cavalieri Filho que a concausa é outra causa que, juntando-se à principal, concorre para o resultado. Ela não inicia nem interrompe o processo causal, apenas o reforça, tal como um rio menor que deságua em outro maior, aumentando-lhe o caudal”113.
A concausa somente se configurará se a circunstância em exame constituir, em conjunto com o fator trabalho, o motivo determinante da doença ocupacional114.
Tupinambá Nascimento assevera que “a causa laboral tem sempre vis attractiva sobre a causa não laboral”115. Ela deve ter contribuído diretamente para a patologia.
109 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenização por acidente de trabalho, ou doença ocupacional. 4. ed. ver., ampl. São Paulo: LTr, 2008, p. 51.
110 DALLEGRAVE NETO, J. A. op. cit., p. 219.
111 “Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos dessa lei:
I – o acidente ligado ao trabalho que, embora não tenha sido a causa única, haja contribuído diretamente para a morte do segurado, para redução ou perda de sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesão que exija atenção médica para a sua recuperação;”
112 DALLEGRAVE NETO, J. A. op. cit., p. 219.
113 OLIVEIRA, S. G. op. cit., p. 51.
114 DALLEGRAVE NETO, J. A. op. cit., p. 219.
115 NASCIMENTO, Tupinambá Miguel Castro do. Comentários à Lei de Acidentes do Trabalho. 5.
ed. Rio de Janeir: Aide, 1984, p. 34.
Assim, mesmo não sendo causa única da patologia, a atividade laboral, se contribuído diretamente para o mal, será considerada causa da doença, sendo equiparada a acidente de trabalho e suscetível de reparação.