Construído, em 1994, pela Companhia de Gás de Osaka, o projeto experimental do edifício multifamiliar NEXT-21, concebido e dirigido pelo professor e arquiteto, Yositika Utida, oferece um alto grau de flexibilidade para 18 unidades residenciais em Osaka, no Japão, antecipando o cenário urbano do século XXI. Durante os primeiros cinco anos de ocupação, 16 famílias da Companhia acompanharam o processo de experimentações ininterruptas. A filosofia do projeto concilia a abordagem social e técnica da arquitetura: de um lado, a flexibilidade para a adaptação das unidades individuais às necessidades dos usuários, a consideração do estilo de vida, da personalidade e das preferências dos moradores; de outro, a incorporação de sistemas construtivos flexíveis, associados à economia de recursos hídricos e energéticos, à durabilidade e à sustentabilidade.
Os princípios para o desenvolvimento do projeto têm raízes, no conceito do “Open Building”, desenvolvido inicialmente por John Habraken através do grupo SAR (Stichting Architecten Research) ainda, na década de 60, no intuito de buscar uma solução para a moradia em massa em confronto com a uniformidade e a monotonia dos espaços residenciais. As investigações de Habraken culminaram em publicações consecutivas que difundiram os conceitos fundamentais de sua investigação: "separar o imóvel e coletivo que existe em todo o edifício residencial - estruturas, instalações, diretrizes e aberturas - daquilo que pode ser flexível, como as divisões interiores" (MONTANER, 2007, p. 131). A estratégia representa a valorização da vida útil do edifício, a partir de conceitos estruturantes do projeto que estabelecem uma completa independência entre o suporte ou estrutura, a única parte permanentemente fixa do edifício, das unidades residenciais independentes. Essas últimas devem possuir uma natureza física variável, em decorrência das necessidades das famílias, com decisões individuais sobre as divisões e o posicionamento dos cômodos. Segundo Heijne, Leupen e Zwol (2005, p. 176), o Open Building representa a separação da construção base da edificação (base building) da finalização, ou recheio (fit-out). As unidades individuais
podem ser facilmente manipuladas e adaptadas sem causar prejuízos à estrutura partilhada do edifício.
Fig. 80 - Distinção entre a construção base (base building) e o recheio/ finalização (fit-out level) (Kendall).
Fonte: KENDALL, Stephen. An open building industry. Make agile buildings that achieve performance for clients. In: The organization and management of construction. vol. 01. Cincinnati: CRC Press, 2002. p. 270.
Para o desenvolvimento do projeto do edifício Next 21, o desenho do exterior e do interior de cada unidade foi livremente concebido a partir de um sistema de coordenadas, capaz de posicionar os vários elementos da edificação. A estrutura do edifício (o suporte rígido) é robusta e completamente independente das vedações, capaz de receber cargas diferentes a partir de inúmeras soluções de planta; o revestimento exterior, os acabamentos interiores, e os sistemas mecânicos foram projetados como subsistemas independentes, apropriados aos ciclos diferentes de manutenção, de atualização e de substituição. Esses constituem o preenchimento organizado de maneiras diferentes, através de processos de montagem industrializada, para compor unidades residenciais de curta duração.
A NEXT21 foi construída como um todo, mas projetada de tal maneira que os vários subsistemas possam ser ajustados com autonomia aprimorada. Para verificar esse objetivo, uma unidade do quarto andar tem sido substancialmente renovada. Todo o trabalho foi realizado a partir do interior da unidade, através do sistema de andaimes, minimizando assim as perturbações aos moradores vizinhos. Um montante substancial dos materiais retirados - especialmente da fachada - foi redistribuído com êxito para a realização de uma nova fachada. O projeto continua a explorar novos métodos para a construção da habitação urbana, sistemas de preenchimento experimentais e meios de acomodar variados estilos de vida com redução do consumo de energia (KENDALL, 2002, p. 275, tradução nossa).
Fig. 81 - NEXT21, Osaka, Japão, 1994. Esquemas do partido construtivo e dos sistemas adotados que favorecem a alteração posterior dos componentes. A estrutura global do
edifício é destinada a ser preenchida com unidades individuais particularizadas, com vantagens oferecidas pela independência completa dos subsistemas construtivos, que podem ser facilmente montados, substituídos ou transferidos.
Fonte: Disponível em <http://www.osakagas.co.jp/rd/next21/htme/reforme.htm>. Acesso em agosto de 2008.
Fig. 82 - NEXT21, Osaka, Japão, 1994. Yositika Utida e Shu-Ko-Sha. Vista do exterior e soluções diferenciadas de fachada. Utilização preferencial de materiais industrializados e,
apesar da diversidade compositiva, do ritmo e das aberturas, o mesmo vocabulário construtivo proporciona uma integração ao conteúdo final da obra.
Fonte: Disponível em <http://www.arch.hku.hk/~cmhui/japan/next21/next21-index.html>. Acesso em agosto de 2008.
Fig. 83 e Fig. 84 - NEXT21, Osaka, Japão, 1994. Yositika Utida e Shu-Ko-Sha. Pisos flutuantes e esquemas de instalações flexíveis, com novas tecnologias que permitem a alteração das tubulações e consequentemente das áreas molhadas.
Fonte: Disponível em: <http://www.arch.hku.hk/~cmhui/japan/next21/next21.jpg>; <http://www.arch.hku.hk/~cmhui/japan/next21/next21-se3.jpg>. Acesso em outubro de 2011.
Para criar residências que satisfaçam às necessidades individuais e aos estilos de vida diversificados dos moradores, o projeto e a construção foram concebidos em etapas distintas, a partir de um sistema que separa os elementos construtivos conforme a durabilidade desses: as partes estruturais principais, de longa duração - como pilares, vigas e pisos - e os interiores, elementos de curta duração - que precisam satisfazer às necessidades e aos gostos dos moradores. A base construtiva oferece não apenas espaços vazios para habitação, mas também um pé-direito elevado com todas as instalações e dutos de gás, água e eletricidade em pisos elevados ou tetos falsos, com fácil acesso para manutenção, modificação e reparos.
Fig. 85 - NEXT 21 - NEXT21, Osaka, Japão, 1994. Yositika Utida e Shu-Ko-Sha. Malha de coordenação modular da edificação.
Fonte: KENDALL, Stephen; TEICER, Jonathan. Residencial Open Building. Taylor & Francis, London and New York, 2000. p. 129.
Fig. 86 - NEXT21, Osaka, Japão, 1994. Yositika Utida e Shu-Ko-Sha. Propostas de intervenção da unidade 405, para abrigar grupos familiares com necessidades distintas.
Nas três propostas, o sanitário se mantém sem distinção, entretanto, cozinha e áreas habitáveis são livremente modificadas, sem obstáculos estruturais no interior da planta.
Fonte: Disponível em <http://www.osakagas.co.jp/rd/next21/htme/ferz2e.htm>. Acesso em agosto de 2008.
Fig. 87 - NEXT 21 - NEXT21, Osaka, Japão, 1994. Yositika Utida e Shu-Ko-Sha. Remodelação de uma única unidade residencial em duas unidades menores, para atender às famílias recém-formadas ou menos numerosas.
Fonte: Disponível em <http://www.osakagas.co.jp/rd/next21/htme/ferz2e.htm>. Acesso em agosto de 2008.