CAPÍTULO 5: CLÍNICA E BEATITUDE
5.3 Nietzsche, Bataille, beatitude
Em Nietzsche a beatitude parece estar associada a três conceitos: vontade de potência, eterno retorno e amor fati. Vontade de potência enquanto afirmação da diferença, criação, seleção, devir e multiplicidade, elevação à última potência. Eterno retorno enquanto expressão da vontade de potência, eterno retorno do caos intempestivo que separa, eterno retorno da diferença. Amor fati como amor à vida, afirmação, amor que diz sim.
Bataille (1989, pp.211-213) associa a beatitude em Nietzsche à experiência. A maneira mística de pressentir significa a maneira mística de sentir, no sentido da experiência e não da filosofia mística. Não há uma referência explícita à beatitude, mas à experiência interior e à experiência mística. A experiência interior de Nietzsche, de acordo com Bataille, diz respeito a uma espécie de êxtase, ou ainda, à existência de instantes situados fora do tempo. Bataille refere-se a duas passagens da Vontade de Poder (Potência): ver submergir as naturezas trágicas e poder rir disto, em que pese a profunda compreensão, a emoção e a simpatia que se experimenta, é algo divino (Nietzsche, 1882-1884; citado em Vontade de Poder, II; in: Bataille, 1989, p.212; tradução livre) e ainda, o novo sentimento de poder: o estado místico; e o racionalismo mais claro e mais audaz servindo de caminho para se chegar a ele. A filosofia, como expressão de um estado de alma extraordinariamente elevado (Idem, 1989, p.212). Mas é uma terceira passagem daquilo que Bataille extrai de Nietzsche que parece alterar o sentido do que está em jogo, ou seja, a vontade de potência – definição de místico: quem tem suficiente e demasiado com sua própria felicidade, porque gostaria de poder dá-la (Idem, 1989, p.213). Se por um lado, o estado místico está associado à vontade de potência, nesta passagem encontra-se próximo do desejo de dar, prover, conceder, produzir, soltar alguma coisa, desprendendo-se dela, liberando intensidades. Deleuze igualmente observa que a vontade de potência é o princípio doador, ou a virtude que doa:
Aí está a resposta à pergunta pelo princípio da afirmação múltipla. A vontade de potência, diz Deleuze na conclusão, é esse princípio, “o princípio doador ou a virtude que doa” (Deleuze, 1976). Pois bem, afirmar ou negar são
“qualidades” da vontade de potência, porque esta, segundo ele, opera no próprio vínculo das forças, diferenciando seus tipos ativo e reativo, tipos afirmados e/ou negados. (Orlandi, 2004, p.21)
Reproduzo abaixo a passagem que Nietzsche designa como estados de ânimo elevados:
- A mim me parece que a maioria dos homens não crê em estados de ânimo elevados, a não ser por instantes ou, no máximo, quartos de hora – excetuando os poucos que conhecem por experiência uma duração maior do sentimento elevado. Mas ser pessoa de um elevado sentimento, a encarnação de um único grande estado de alma – até agora isto foi apenas um sonho e uma encantadora possibilidade: disso a história ainda não nos deu exemplo seguro. No entanto, ela pode vir a gerar pessoas assim – uma vez que tenham sido criadas e estabelecidas muitas condições favoráveis, que hoje nem os mais felizes lances do acaso conseguem juntar. Talvez seja habitual, para essas almas futuras, precisamente o estado que até agora entrou de vez em quando em nossas almas, como uma exceção que faz tremer: um contínuo movimento entre o alto e o baixo, e o sentimento de alto e baixo, um constante subir-degraus e, ao mesmo tempo, descansar-nas-nuvens. (A Gaia Ciência, 288, Nietzsche, 2001, p.194)
Nietzsche refere o constante movimento entre o alto e o baixo, estado de ânimo oscilante, independente da vontade, mas dependente de condições favoráveis, experiência de subir-degraus e descansar-nas-nuvens. Tudo isso é muito fragmentário, mas ainda sim, configura um pensamento da beatitude em Nietzsche e em Bataille. De certo modo configura-se como um conjunto de pistas para algo que carrega boa dose de estranhamento, tanto em Nietzsche, quanto em Bataille.
A idéia de um pensamento da beatitude na filosofia ocidental desloca-se de Espinosa, passa por Nietzsche, e chega a Foucault e Deleuze (Agamben, 2000, pp.187-192). Sabemos que ele aparece em outros autores. Trata-se aqui de perguntar em quê a beatitude, tomada no eixo Espinosa-Nietzsche-Deleuze, permite pensar sua conexão clínica, isto é, quais experiências da clínica podem ser designadas como beatas. A vida para Deleuze é o campo de imanência variável do desejo (Idem, p.187). O plano de composição dessas variações permite a aproximação vida e beatitude.
O problema da escrita de uma beatitude clínica é que não dispomos de modos que permitam comunicar o inefável da experiência. Comunicar no sentido de dar passagem, permitir fluxos, derivas e aproximações, e não no sentido da comunicação enquanto portadora de representações cristalizadas, processos de mensagens, códigos e signos. A escrita de uma beatitude é necessariamente insuficiente. Daí algumas dificuldades para pensarmos a conectividade literatura e beatitude.
Bataille associa o êxtase e o transe à questão da mística, mas o que é experimentado como êxtase não é uma instância transcendente e sim a existência sensível. A matéria do êxtase é a própria existência, assim como as variações do desejo, os fluxos, as intensidades.
A descrição de Bataille para o transe místico, ou para uma idéia de pura felicidade (Bataille, 2008, pp.388-404), é definida pela ausência de linguagem. A experiência despojada de linguagem que permite o transe místico pressupõe a dissipação de representações e percepções prévias. Assim o instante do êxtase aproxima-se da morte, experiência de absoluta inutilidade da linguagem.
Em Bataille, a literatura beata seria aquela que traduz de diversas maneiras o movimento entre pura felicidade e desgraça, o mais absoluto cotidiano e a experiência mais salutar, a dança da vida e da morte em paisagens desoladas, e que ainda produz sensações de insipidez poética.