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Foto da autora, setembro 2004. Por outro lado, as “novas

territorialidades” marcam a retomada do processo de desterritorialização das terras que foram individualizadas como unidades- padrão do Núcleo JK para a formação das lavouras dos pequenos produtores. Ressurgem desse processo, outras funções ou novas ocupações, como, por exemplo, o aparecimento dos sítios de lazer residenciais, temporários, um dos quais retratado na Foto 54. Por uma outra forma

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sendo preservadas para outra função ou para acrescentar ganhos à especulação imobiliária, devido a proximidade do Núcleo JK com Salvador. Segundo Corrêa (1989, p. 18), isso é denotativo de um “processo de esterilização da terra”, ou seja, marca o ponto de decolagem de uma função agrícola para uma função propriamente urbana, significando que “a terra deixa de ter o valor de uso pra ter o valor de troca apenas”, tornando-se terras da “periferia de amenidades”, destinadas aos mais abastados.

5.5 O ESPAÇO DE INTERAÇÃO NÚCLEO JK - LITORAL NORTE

Nesta seção o objetivo é estudar quais os reflexos da atual política econômica regional sobre a organização socioespacial da comunidade do Núcleo JK, sabendo-se que as atenções do Estado e de muitos empresários voltam-se para o turismo na Bahia e, mais particularmente, para a Região do Litoral Norte.

Lembramos aqui que o Núcleo JK é parte dos territórios municipais de Camaçari e Mata de São João e este integra a Área de Proteção Ambiental Litoral Norte (APA-LRN).

A idéia de contextualização em relação à política econômica de abrangência superior é de fundamental importância para a compreensão do processo de interação socioespacial e econômica do Núcleo JK no tocante à totalidade socioeconômica. Referindo- se à dinâmica socioeconômica do Litoral Norte da Bahia em estudo recente, Mattedi (2001) fez reflexões sobre as relações espaço-sociedade para a área legal de conservação ambiental do Litoral Norte. Segundo a autora, as mudanças sócio-estruturais do litoral norte, nos últimos trinta anos, encontram-se ainda em processo e, no seu ponto de vista, representam uma redefinição do espaço, com estabelecimento de condições cada vez mais desfavoráveis às pequenas sociedades tradicionais locais, em que as mudanças ocorridas integram o Nordeste e fazem parte de um processo maior de mudanças que se verifica no litoral do Nordeste e Norte do Brasil, desde a década de 1970, cada vez mais associado ao contexto da globalização. Este processo diz respeito à produção induzida do espaço, através de políticas públicas associadas a empreendimentos privados (MATTEDI 2001, p.104).

Sobrinho (1998, p. 37) retratou em seus estudos o turismo, a gestão do território e a atual política de apropriação do espaço no Litoral Norte da Bahia. Buscando entender a organização atual do referido espaço, salientou a estratégia de gestão e apropriação do território por parte dos agentes sociais locais, alegando corporativismo pela parceira entre si, no que tange ao controle do espaço e seus recursos naturais. Segundo a autora trata-se de “[...] um modelo de gestão empresarial, materializado na produção e organização do espaço, de forma estreitamente articulada com os agentes estatais e empresariais locais”, ou seja, trata-se

de um “[...] modelo hegemônico, fundado no discurso ideológico da preservação e conservação dos recursos naturais [...]” (SOBRINHO, 1998, P. 37). Tal arranjo leva a autora a concluir ser esse o principal responsável pelos vários impactos sociais negativos que atingem as pequenas comunidades locais.

Distante 56 km desse complexo turístico, os produtores do Núcleo JK vêm se esforçando para se impor nos mercados de Sauípe e Praia do Forte, mas poucos são os que comercializam seus produtos agrícolas na “zona da Orla Marítima”, o que se realiza através de alguns dos seus mais significativos produtores. Do levantamento dos dados deste trabalho, tornou-se possível avaliar os reflexos da economia do litoral norte baiano na produção agrária dos proprietários do Núcleo JK.

Segundo os proprietários locais, quando perguntados sobre a interferência ou implicações da política vigente nas áreas turísticas sobre sua produção, houve quase unanimidade na afirmação da falta de interesse do governo em implementar medidas políticas de estímulo ao pequeno produtor da zona rural. Destacaram ainda o fato dos recursos governamentais existentes serem sempre canalizados para outras regiões agrícolas do Estado, a exemplo do Vale do Rio São Francisco, ou para atividades econômicas voltadas para o turismo no litoral baiano.

Quando perguntados se a política econômica do governo atual, em nível nacional ou estadual, melhorava a vida do trabalhador-produtor rural, as respostas obtidas revelaram que 60% dos entrevistados não entendem as ações do governo como mitigadoras das dificuldades encontradas para a produção agropecuária, cujos resultados estão expressos na Tabela 20 e correspondem ao Gráfico 27.

Os proprietários entrevistados ainda manifestaram opiniões relativas aos reflexos dos programas de governo sobre a vida e as atividades que desenvolvem no campo dentro do

Tabela 20- NJK - Resultados da política

econômica atual na vida do homem do campo atual melhora a vida do homem no campo? Gráfico 27- NJK - A política econômica

Respostas

Brasileiros Japoneses Totais

Sim

12

1

13

Não

26

10

36

Não sabe

0

2

2

Não respondeu

6

4

10

Totais

44

17

61

Não sabe 3% Não respondeu 16% 21%Sim Não 60%

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Núcleo JK. Tais respostas, referentes à realidade vivida63, encontram-se transcritas na forma expressada pelos próprios sitiantes:

— Quando o governo financia não existe garantia, principalmente para os pequenos agricultores. Não é seguro. Só faço se tiver segurança.

— Só atrapalha. Só propaganda enganosa. O governo usa o meio de comunicação para fazer política.

— Única parceria que dá força aqui é a EBDA.

— A inflação leva a diferença no preço do que se planta e do que se vende.

— Não ajuda porque não existe ajuda nenhuma. Empréstimos sempre negados. Quem não tem recurso não faz nada.

— Não se pode pagar empréstimos. Os juros são muito altos. Acho que o governo deveria incentivar mais os produtores de gado leiteiro.

— Recebe “Bolsa-Escolar” . Não está muito bom porque o dinheiro está difícil. — Está melhor agora. Pela facilidade de acesso a técnicas e informação. Controle

sanitário e acesso a crédito. — Acho que melhorou.

— Acho que piorou e empréstimos com juros muito altos. — O Presidente deu chances de aposentadoria para os velhos.

— Lula melhorou com o Programa Bolsa-Escola. Recebo uma por mês. — O governo tem poder para isso, mas não quer fazer nada.

— Esse novo governo tem que ver a questão da exportação agrícola, senão o Brasil nunca vai melhorar. Nos anos 1970/1980/1990 o governo se esforçou muito na indústria. Se reforçar no produto agrícola este país cresce.

— Vendeu terras para pagar dívidas.

— A desvalorização da moeda possibilitou investimentos na terra. — Falta incentivo e financiamento para o homem do campo.

— Até 1982/1983 houve uma boa produção aqui no NJK, mas com a limitação do crédito, tudo ficou mais difícil.

— Não há interesse direto do governo para beneficiar o pequeno agricultor. O governo teria que estabelecer novas políticas que garantissem o pequeno agricultor.

— O custo dos implementos é lançado ao preço do dólar, enquanto nossos produtos, vendidos na base do real.

— Precisamos abertura em outros estados. Falta melhoria e manutenção das estradas. Hoje os produtos são muito afetados pelas pragas e a topografia do NJK limita a produção.

Quando perguntados se o turismo no Litoral Norte da Bahia interfere de alguma forma na produção ou na propriedade, as respostas obtidas se expressam conforme a Tabela 21 e o Gráfico 28.

Tabela 21 - O turismo do Litoral Norte interfere de alguma forma na propriedade do NJK?

Respostas Brasileiros Japoneses Totais

Sim 10 2 12

Não 27 8 35

Não sabe 1 1 2

Não respondeu 6 6 12

Totais 44 17 61

Fonte: Pesquisa direta da autora, julho-setembro de 2004. (Gráfico 28)

Dos produtores visitados 57% acham que o turismo no Litoral Norte não tem

interferência alguma na sua produção. Alguns sitiantes se expressaram dizendo que o turismo não trouxe nenhum benefício palpável. Outros argumentaram, no caso da produção do Núcleo JK, que apenas com o Pólo Petroquímico de Camaçari os tempos foram melhores e a propriedade se valorizou. Verificou-se também que 20% dos entrevistados não responderam e apenas 3% não souberam informar.

Gráfico 28 - O turismo do Litoral Norte interfere de alguma forma na

propriedade NJK? Não 57% Não sabe 3% Não respon deu 20% Sim 20%

Fonte: Pesquisa direta da autora, julho-setembro de 2004 (Tabela 21).

Dos que obtém alguma vantagem porque produzem e vendem para os complexos turísticos do Litoral Norte, apenas 20% responderam que sim. Dentre esses, há agricultores, entre os quais, o senhor Marcos Osanias que alega melhoras nas vendas, inclusive as semanais que realiza para o Complexo de Sauípe, para o qual vende 30kg de rúcula, enquanto outros vendem laranjas, ovos e folhagens diversas.

Nos casos que negaram a interação com os espaços do turismo, alguns reconheceram um aumento de clientes para os produtos do Núcleo JK. Já outros, a exemplo do senhor José da Anunciação Nascimento, alegaram que houve um efeito de acomodação nos mercados de abastecimento (ou feiras) das vizinhanças em favor dos pequenos produtores. Para os agricultores que produzem menores quantidades, as vagas foram liberadas pelos produtores que garantem uma colocação mais significativa nos mercados de modo geral, incluindo aqueles que comercializam com a Costa do Sauípe, no Litoral Norte.

Entre os “grandes produtores” do Núcleo existe a argumentação de que as hortaliças, verduras e frutas produzidas são insuficientes para atendimento da demanda. Precisam, portanto, de complementação para comercializar o que lá se produz, junto aos revendedores. Assim, os maiores produtores locais necessitam dos pequenos para a manutenção do fluxo de comercialização. Por outro lado, a falta de uma política de incentivo aos pequenos produtores rurais, tem sido uma das causas da decadência da produção que se torna cada dia mais significativa. Segundo informações, os implementos agrícolas atingiram altos preços — cotado ao custo do dólar norte-americano — e, assim, diminuindo a capacidade produtiva, pela dificuldade na obtenção de recursos para investir na produção. Um

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outro problema também afeta a economia local e se relaciona à capacidade de compra do trabalhador brasileiro, que se encontra cada vez mais decadente. Dessa forma e em tais condições, atender uma demanda que garanta o consumo, torna-se um problema vivenciado a cada safra, em razão das várias barreiras que limitam a produção no campo.

Sobre essa situação, alguns dos entrevistados alegam a ausência de programas e ações políticas que defendam os interesses locais. Segundo eles mesmos, os políticos não se interessam pela região do interior do município de Mata de São João e só se voltam para as necessidades da zona turística do litoral, lugar para onde os recursos sempre são canalizados. Por outro lado, outros sitiantes argumentam que o crescimento do Litoral Norte trouxe, para o Núcleo JK, a valorização das terras, dizendo que a medida padrão de um hectare — equivalente a 2,5 tarefas — passou de dois mil para quatro mil reais, enquanto que outros atribuem essa valorização à energia elétrica que chegou até as suas terras. Há, ainda, quem julgue que o preenchimento da barragem de Santa Helena foi o que acrescentou valor às terras, melhorando ainda mais o cenário formado após o surgimento do espelho d´água, (Fotos 55 e 56).

Outras observações se associam às interações socioespaciais com o Litoral Norte, especificamente relacionadas à criação de novos empregos. Nesse aspecto, apenas três dos sitiantes informaram ter familiares trabalhando nos estabelecimentos de serviços ou comércio, ocupando cargos de nível fundamental e médio, mas nenhum de nível superior.

As informações obtidas da literatura dedicada aos estudos dos reflexos e impactos gerados pela economia do Litoral Norte sobre as comunidades que lhes são vizinhas, se juntam ao levantamento dos dados obtidos em trabalhos de campo e fundamentam a conclusão sobre um baixo nível de interação com os agricultores do espaço JK, entre os quais,

Foto 55 – Do Núcleo JK, “região” do Quebra