4 A FORMA(AÇÃO) DE/EM REDES NO CIBERESPAÇO
4.2 NOÇÃO DE REDE COMO HÍBRIDO
O título desta pesquisa já reforça a importância desse conceito na investigação, REDE_EM_REDE, faz referência a rede férrea e a rede no ciberespaço, e a imbricação das duas nesse trabalho. Em virtude desse coengendramento, Bruno Latour (2012) centra suas pesquisas sobre a rede como uma entidade, entendendo sua complexidade e sua condição heterogênea. Entender essa complexidade de rede é ultrapassar as noções de social e individual, percebendo que ambos não são separações, são linhas que modificam, retornam, se sobrepõem, associam-se, como comentamos anteriormente.
Um dos pontos mais relevantes dos estudos de Bruno Latour (2012) está no movimento de renunciar a separação estabelecida entre humanos e não-humanos, que os dois estão em mesmo grau de importância no enredamento das redes. Reforça-se aqui que tal noção é essencial para entendermos a interação, e dessa forma as produções e movimentos realizados pelos atores envolvidos na rede. O humano realiza conexões na interação com outros humanos e com coisas, objetos, textos, imagens, e é a respeito dessas entidades que Bruno Latour, e outros autores como Michel Callon e John Law (1997) reforçam a importância de entender as heterogeneidades da rede.
Para Latour (1993), a Teoria Ator-Rede é uma ontologia de rizomas, deixando explícita sua homenagem aos autores Gilles Deleuze e Felix Guattari, e ao conceito de rizoma. Dessa maneira, essa ontologia não se definirá pela busca de um ser uno, estático e idêntico a si, e sim, um ser plural, movente, aquele que transita constantemente. Nas suas colocações a respeito de rede, Bruno Latour (1993) menciona o conceito de coletivo, ao qual nos aproximaremos em breve, sendo assim ele entende a ciência e a técnica como qualquer outra entidade, como emergentes
de um coletivo heterogêneo, híbrido de humanos e não-humanos. Entende-se aqui que “toda entidade é efeito de um processo de composições e associações, cuja totalização é somente aparente ou transitória” (ESCÓSSIA; KASTRUP, 2005, p. 302).
Esse estado transitório das entidades híbridas estabelece uma geografia variável dessas redes, uma vez que elas não são fixadas e podem se modificar. Identificamos um cenário que se modificou na cidade de São Gabriel, o antigo prédio da estação foi cedido para a instalação do Museu da FEB25 no ano de 1992. Em algumas visitas a cidade detectamos não existir uma comunidade ferroviária, visto que tal cenário ocorre na cidade de Santa Maria, por existir um bairro, e também por ser a cidade que sediou a administração da rede ferroviária.
O prédio em Santa Maria esteve por um grande período em 2016 fechado para reforma, não sendo possível o acesso ao seu interior. O antigo prédio da estação de São Gabriel (Figura 65) é reconhecido como um espaço militar, devido às instalações do museu serem ali e pelo pátio ser utilizado para formaturas militares. Então ali existiu uma rede de conexões, na qual o trem era o principal elemento que movimentava as conexões. Com a extinção desse transporte e a inserção de outros elementos materiais, como a exposição de materiais bélicos utilizados pelo Exército Brasileiro, a identidade ferroviária deu lugar a uma identidade militar. O espaço é destinado a manter uma memória da Força Expedicionária Brasileira, fazer homenagens aos pracinhas brasileiros, e a visitação pública ao acervo do museu, percebe-se nesse cenário uma estabilidade, com fluxos estagnados, sem ligação entre a existência de uma estação férrea, anteriormente, e o museu militar na atualidade.
Figura 65 – Registro fotográfico do Museu da FEB São Gabriel/RS
Fonte: Elaborado pelo Autor (2016).
O que ocorreu em São Gabriel é umas das características das redes coletivas, híbridas e mutantes “é a sua capacidade de relançar constantemente sua própria ação” (ESCÓSSIA; KASTRUP, 2005, p. 302). Com a extinção do transporte de passageiros pela linha férrea que passava pela cidade, em decorrência de uma materialidade, o espaço foi modificado, assim como as ações que ali ocorriam. Podemos destacar as instabilidades do aplicativo CODATA, que nesta pesquisa nos impulsionaram a investigar outros mecanismos para o estabelecimento da rede comunicacional. Dessa forma, nos fica mais claro as colocações de Bruno Latour quanto aos agenciamentos coletivos entre humanos e não-humanos, a matéria se comporta a sua maneira, nos forçando a realizar outros movimentos, novas conexões.
As ações coletivas de uma rede são definidas permanentemente e localmente, a partir de um jogo de associações e composições marcadas pela reciprocidade, as quais envolvem todos os elementos da rede. [...] na invenção técnica a matéria não é passiva. Ela informa a partir de suas propriedades, suas potencialidades de utilização e transformação. Assim, mesmo a invenção técnica mais elementar é efeito de uma rede na qual participam, no mínimo, o homem e a matéria (ESCÓSSIA; KASTRUP, 2005, p. 302).
Ao entender de que todos os elementos coexistem dentro das redes e que tais entidades são heterogêneas, fica claro sua geografia variável, porém não podemos negar que existam a presença de pontos, que a partir de uma visão rizomática, não são centros, mas “nós”, que se estabelecem nos “entre” espaços. Aqui podemos associar tal colocação, ao conceito de molar, molecular e linhas de fuga, no qual não se separam, mas se prolongam e coexistem, rede e pontos são entendidos como coletivo, e não como coisas separadas.
Toda entidade pode ser apreendida em sua dupla face: está contida em um ponto, ao mesmo tempo em que está distribuída em toda a gama de materiais que ela associa e que a compõem. Ponto e rede: essa dupla natureza do ser nos permite apreender toda entidade em seu aspecto individualizado, estável ou pontual, por um lado, e em seu aspecto coletivo e distribuído por outro (ESCÓSSIA; KASTRUP, 2005, p. 302).
Por mais que precisemos de expressões em pares para explicar o conceito de rede, precisamos entender que não podemos opô-los, pois eles pertencem a um mesmo plano de conexões, e esse plano é o que constitui o coletivo. Bruno Latour (2012) finaliza o livro “Reagregando o social”, pontuando que o social é identificado pelos movimentos e associações, e são tais movimentações entre os atores que constituem o que ele vai chamar de coletivo.