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2 LEITURA DA ESCRITA: ditos que auxiliam a dizer

2.1 Fundamentos para a Análise do Discurso em Michel Pêcheux

2.1.3 No acontecimento, o sujeito e o(s) discurso(s)

O discurso, por ser parte constitutiva deste trabalho, é mencionado desde a introdução, afinal propomo-nos a realizar, por meio desta pesquisa, uma análise discursiva do processo formativo do professor em dissertações do ProfLetras. Assim, no capítulo 1, apresentamos, brevemente, a concepção de discurso, por compreender que o sujeito se constitui por meio da interpelação ideológica que, por sua vez, materializa-se por meio do discurso (PÊCHEUX, 2009). Assim, quando tratamos de discurso, filiamo-nos a concepção de discurso apresentada por Pêcheux (2009, 2014, 2015). Nesta subseção, retomamos esse tema, com o objetivo de ampliar a fundamentação, colocando o discurso em relação a dois outros importantes conceitos formulados na teoria não subjetiva da linguagem: acontecimento discursivo e sujeito.

Em AAD69, Pêcheux (2014, p. 109) define discurso como “uma sequência linguística limitada por dois brancos semânticos e que corresponde a condições de produção discursivas definidas”. Nessa definição, o discurso, como uma sequência linguística, coloca em evidência a relação entre língua e discurso. Relação sempre presente na teoria pecheutiana. Em AAD69, por exemplo, ele afirma ser o discurso que torna a língua possível, uma vez que a língua não é apenas estrutura significante, é também, e principalmente, significado. É por meio da atribuição do significado que os “dois brancos semânticos” são preenchidos. Atribuição que requer inserir o linguístico no tecido da história.

A construção do significado está atrelada aos processos discursivos e estes às condições de produção, definidas por Pêcheux (2014, p.74) como “pano de fundo específico dos discursos, que torna possível sua formulação e sua compreensão”. Em outra passagem, Pêcheux (2014, p. 87) acrescenta ser “impossível definir uma origem das condições de produção, pois esta origem,

a rigor impensável, suporia uma recorrência infinita. Por outro lado, é possível interrogar sobre as transformações das condições de produção a partir de um estado dado dessas condições” (PÊCHEUX, 2014, p. 87). As condições de produção, nessa perspectiva, envolvem o sujeito em sua constituição sócio-histórica, bem como os elementos que dão a ele subsídios para o dizer: o interdiscurso e seus elementos (pré-construído e articulação) e o intradiscurso. Em relação a esses elementos, o discurso é o elemento que irrompe no enunciado, trazendo para a superfície marcas da constituição do sujeito.

Em nossa pesquisa, há um sujeito que assume uma posição enunciativa na escrita da DP, e que pode ser identificado a priori, é o professor da educação básica. A posição social ocupada por esse sujeito é um elemento que intervém na constituição do que ele diz, seja no plano linguístico, relação com o intradiscurso, seja no plano discursivo, relação com o interdiscurso. A origem do discurso presente na escrita desse sujeito, todavia, não pode ser identificada, pois isso implicaria um regresso contínuo à história da constituição desse sujeito em relação às condições de produção.

Nessa conjuntura, Pêcheux (2014) defende que o discurso é determinado pela ideologia, constitui-se em meio às relações sociais e é, por isso, definido por um exterior. As condições de produção do discurso apresentam-se, dessa forma, como caminho para interpretar o que está posto na materialidade linguística, a fim de se chegar aos efeitos de sentido(s) construídos no e pelo discurso.

Em Semântica e discurso, a concepção de condições de produção cede espaço para a de formações discursivas (FD), conceito que, de certa forma, engloba o de condições de produção. Quando Pêcheux (2009, p.147) define FD – “chamaremos formação discursiva aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado de luta de classes, determina o que pode e deve ser dito” – ele realiza um retorno sobre o já-dito e, por meio do termo ‘isto é’, encadeia o conceito de condições de produção ao de FD.

Por meio da noção de FD, a concepção acerca da constituição do discurso é modificada, passou-se a compreender que, numa mesma formação ideológica, há diferentes formações discursivas. Essa existência quebra a perspectiva de emergência do discurso como algo esperado, em função do lugar ocupado pelo sujeito e confere ao discurso o estatuto da heterogeneidade. Sendo o discurso heterogêneo, a FD passa a também possuir essa característica. A posição ocupada pelo sujeito passa a ser compreendida apenas como um referente, ponto sobre o qual se pode partir ao realizar uma análise.

Como exemplo, diremos que, ao ler as dissertações do ProfLetras, temos como referente o sujeito professor da educação básica como aquele que ocupa uma posição enunciativa e diz eu, o que não nos certifica de que esse sujeito se manterá nessa posição durante todo o trajeto da escrita, uma vez que ele é constituído em meio à heterogeneidade discursiva.

A concepção de FD provocou também modificações em relação à concepção de sujeito, pois os efeitos causados pelo interdiscurso (por meio de seus elementos, o pré-construído e a articulação) e pelo discurso transverso, mostram o sujeito em processo, um sujeito que, pela ação do interdiscurso, se mobiliza entre as FD. Os lugares por ele ocupados já não provêm apenas do exterior, das relações estabelecidas entre as lutas de classe. O sujeito age de uma certa forma sobre a articulação do dizer. Para Pêcheux (2009), essa ação é realizada por um “sujeito-responsável”, aquele que é colocado na posição de autor, é interpelado pelo efeito- sujeito como o responsável pelo que diz, como se o dizer proviesse, exclusivamente, dele.

Esses movimentos realizados nos constructos teóricos da AD fizeram emergir o conceito de acontecimento discursivo, o “ponto de encontro entre uma atualidade e uma memória” (PÊCHEUX, 2015, p. 16), colocando a FD em um segundo plano. Pêcheux (2015, p. 55) explica o porquê desse movimento na teoria, na seguinte passagem:

[...] diremos que o gesto que consiste em inscrever tal discurso dado em tal série, a incorporá-lo a um ‘corpus’, corre sempre o risco de absorver o acontecimento desse discurso na estrutura da série na medida em que tende a funcionar como transcendental histórico, grade de leitura ou memória antecipadora do discurso em questão. A noção de ‘formação discursiva’ emprestada a Foucault pela análise do discurso derivou muitas vezes para a ideia de uma estrutura semiótica interna e por isso mesmo voltada à repetição: no limite, esta concepção estrutural da discursividade desembocaria em um apagamento do acontecimento, através de sua absorção em uma sobreinterpretação antecipadora.

Não se trata aqui que todo discurso seria um aerólito miraculoso, independente das redes de memória e dos trajetos sociais nos quais ele irrompe, mas de sublinhar que, só por sua existência, todo discurso marca a possibilidade de uma desestruturação-reestruturação dessas redes de trajetos.

Por meio do conceito de acontecimento, Pêcheux (2015) argumenta que o discurso é anterior ao ato de linguagem propriamente dito. O que implica compreender que antes de um fato se consolidar nas ações sociais, ele já foi construído discursivamente. Implica compreender ainda que às condições de produção também já não são tão pertinentes, pois elas cedem espaço ao acontecimento. Guilhaumou, Maldidier (2016, p. 118) explicam que o acontecimento “é apreendido na consistência dos enunciados que formam uma rede em um momento dado”.

A pré-análise que temos empreendido de nosso corpus de pesquisa, por exemplo, tem nos mostrado que há indícios da existência de um consenso acerca do objeto e do método de ensino de língua portuguesa nas DP. Temos percebido que as justificativas para a escolha desse objeto e método respaldam-se em discursos advindos das instâncias de controle técnico – o Estado e a Universidade. Nessa perspectiva, podemos sinalizar que esse acontecimento se consolida na escrita das dissertações do ProfLetras. Trata-se de um discurso que vem sendo disseminado nos meios sociais em que o sujeito transita, o que nele está posto passa a ter caráter de verdade e isso provoca a adesão do sujeito. Compreendemos, com base nessa dinâmica, a escrita como acontecimento discursivo, sendo o discurso, em sua heterogeneidade, considerado como

o índice potencial de uma agitação nas filiações sócio-históricas de identificação, na medida em que ele constitui ao mesmo tempo um efeito dessas filiações e um trabalho (mais ou menos consciente, deliberado, construído ou não, mas de todo modo atravessado pelas determinações inconscientes) de deslocamento de seu espaço (PÊCHEUX, 2015, p. 56).

Com base nessas proposições, Pêcheux (2015) explicita a presença do discurso-outro em todos os atos de fala/escrita, em sua materialidade, como lei do espaço da história na língua. Acerca do efeito de identificação, esclarece que não há identificação plenamente bem sucedida, uma vez que o sujeito é, multiplamente, sempre afetado por discursos em dispersão. Por ser heterogêneo, afetado por vários discursos, é, nas tomadas de posição, nas articulações feitas, que o acontecimento irrompe, em forma de um fato novo.

A análise do discurso consiste, segundo Pêcheux (2015), num trabalho de leitura, no qual o analista descreve as materialidades discursivas, nos dois espaços em que o sentido transita, no das manipulações de significações estabilizadas e no das transformações de sentido (trabalho do sentido sobre o sentido). O trabalho do analista deve, assim, ater-se a observação dos pontos de deriva, lugar da interpretação.

Com base nesses princípios, encontra-se a defesa de uma semântica discursiva (PÊCHEUX, 2009), teoria que propõe o estudo do significado não centrado nas palavras, enquanto unidades lexicais autônomas, mas dessas unidades inseridas em processos de construção, em sequências discursivas, ou seja, a análise do significado articula a questão do sujeito e a do sentido, no tecido da história.

O sujeito, nessa etapa da obra de Pêcheux, age, realizando “um trabalho (mais ou menos consciente, deliberado, construído ou não, mas de todo modo atravessado pelas determinações inconscientes) de deslocamento de seu espaço” (PÊCHEUX, 2015, p. 56). Essa forma de ação

ocorre pelo discurso, enquanto efeito das filiações sócio-históricas e resulta na produção de sentido.

Feita essa abordagem acerca da concepção de sujeito, de sentido e de acontecimento discursivo, ressaltamos ser essa a concepção de sujeito e de sentido que nos balizou ao longo de todo o processo de leitura e análise do corpus.