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3.1 A RENDA E SUA TRIBUTAÇAO COMO FONTES DE EQUIDADE

3.1.2 No Brasil

Aponta Cristóvão Barcelos da Nóbrega que a primeira aparição de um Imposto com caráter semelhante ao IR ocorreu no Brasil Imperial, precisamente durante o reinado de D. Pedro II. Encabeçado pela edição da Lei nº 317/1843, comportava-se como um imposto progressivo diante dos vencimentos oriundos do tesouro nacional, tendo certa semelhança com o procedimento do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) pelo modus operandi praticado. Tal norma não teve uma vida longa, tendo seu apoio exaurido rapidamente. Fadada ao esquecimento, outrossim, seria a primeira aparição do instituto nas terras tupiniquins.

No universo de um país escravista e de extensão continental, aponta Cristóvão, não se dispunha de uma sistemática favorável para a implementação de um imposto envolvendo a renda. Seu retorno se deu em sintonia com as experiências além mar. Foi somente na forma de angariar recursos para a

92 BALEEIRO, 2015, p. 411.

93 “O Congresso terá o poder para impor e arrecadar impostos sobre as rendas, seja qual for sua providência, sem distribuí-los entre os diversos Estados os levar em conta qualquer recenseamento ou enumeração”

Guerra do Paraguai (1864-1870) que foi implementada reforma tributária restaurando o Imposto pessoal – ainda que este estivesse levemente alterado de sua primeira aparição-. Esta forma de tributação viria a reaparecer até o findar do século, sendo, por fim finalmente excluída na década de 191095. Seria

somente em 1869 que, encabeçado pelo Visconde de Ouro Preto, o primeiro projeto de instituição de um Imposto sobre a Renda seria apresentado à Câmara dos Deputados – o que, conforme aponta Baleeiro96, em muito traduz a

importância das instituições britânicas e sua influência no Brasil Imperial –. Mesmo diante do apoio positivo de parte maior dos altos funcionários ao tempo, o projeto não logrou êxito. Em 1891, Rui Barbosa97, atual primeiro Ministro da

Fazenda, dispôs de longa defesa à implementação do Imposto sobre a Renda no país98. Deste anteprojeto, destaca-se forte influência de uma justiça

distributiva, tendo como basilar para Rui Barbosa que o imposto não recaísse sobre o mínimo necessário para a subsistência das classes menos favorecidas, ponto destacado nos estudos de Noé Winkler99, conforme aponta Cristóvão

Barcelos de Nóbrega. Não obstante, giza-se que este projeto ainda trazia um germe da figura do lançamento por homologação do IR. Tal hipótese, conforme leciona Leandro Paulsen100, ocorre quando o tributo a ser recolhido é apurado

pelo próprio contribuinte, cabendo ao Fisco homologar – tácita ou expressamente – os valores arbitrados. Confrontando-se a difícil questão geográfica ao dispor ao Fisco o dever de somente verificar os valores declarados pelo contribuinte. Entretanto, não seria nesta data que o IR encontraria sua aceitação.

Destaca Baleeiro101 que, com a negativa da Constituição de 1891 em

implementar o IR no Brasil, ainda foram empregadas outras tentativas de introduzir o tributo no cerne brasileiros; entretanto, todas obtiveram retorno

95 NÓBREGA, 2014, p. 25. 96 BALEEIRO, 2015, pp. 417-418. 97 BARBOSA, 1891, pp. 209 e ss.

98 Segundo Cristóvão Barcelos de Nóbrega, a proposta de Rui Barbosa observava três grandes pontos, sendo eles: 1. A incidência do tributo nos bens imóveis, títulos e fundos públicos, ações de companhias, juros e dívidas hipotecárias, assim como o exercício de qualquer profissão ou ofício; 2. Isentando-se as rendas inferiores ao mínimo determinado; 3. Dispondo sobre a declaração, caberia ao fisco buscar confirma-la, ou aceitar seus parâmetros.

99 WINKLER, Noé. Síntese da evolução do imposto de renda no Brasil, Brasília: Imprenta, 2002, p.9

100 PAULSEN, 2017, p.242. 101 BALEEIRO,2015, p. 418.

negativo quando defronte à barreira argumentativa levantada pelos proeminentes capitalistas do período, sendo elas: a complexidade do tributo e o custo procedimental da medida. Entretanto, diante da crise fiscal que assolava o país, por outras oportunidades o imposto sobre a renda seria pauta de discussões, inclusive com a aplicação de soluções semelhantes102 sobre parciais

elementos da renda com efeito paliativo. A crise internacional encontraria seu apogeu com a decorrência da Primeira Guerra Mundial (1914/1918), fomentando a edição do artigo (art) 2º, inciso VII da Lei nº 2.919/1914103, autorizando o chefe

do poder executivo a decretar impostos104.

Somente em 31 de dezembro de 1922 o Imposto de Renda seria instituído plenamente no ordenamento brasileiro. Por iniciativa do deputado Antônio Carlos, seria editado o art.º 3º da Lei nº 4.625/1922, dispondo sobre o Imposto Geral sobre a Renda, devido em todo pelas pessoas físicas e jurídicas residentes no Brasil. Esta Lei, ainda encontraria adendos pelas Leis nº 4.738/1923 e nº 4.984/1925 e sofreria a influência de outros aproximados quatrocentos textos legais até alcançar o modelo atualmente adotado pelo país105.

O IR brasileiro, consoante às experiências norte-americana e europeias, viria a ter suas primeiras alíquotas em um patamar irrisório. Lecionam Gobetti e Orair, do patamar máximo inicial quantificado em 8%, o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) sofreria a influência da Segunda Guerra Mundial (1939- 1945) tendo maximizada sua alíquota máxima para o percentual de 50% em 1948.106 Este valor, seria ainda ampliado por Jânio Quadros para 60% durante

seu governo, e, posteriormente, pelo então presidente João Goulart, para o teto máximo histórico de 65%. Posteriormente rebaixado para 50% com o advento do regime militar, a contar de 1964. Destacam ainda Gobetti e Orair o apelo à progressividade do imposto de renda durante os períodos citados, possuindo doze faixas de tributação e incidindo tanto em valores referentes aos labor

102 Caso da Lei nº 2.919/1914, estabelecendo imposto sobre os vencimentos com alíquotas diferenciadas e bruscamente elevadas para o presidente e membros das casas legislativas. 103 “Art 2º. É o Presidente da República autorizado:[...]

VII. A decretar, enquanto durar a atual crise financeira, o imposto de 5% sobre os salários, jornais, diárias, vencimentos ou quaisquer vantagens pecuniárias percebidas pelos operários, jornaleiros, diaristas e trabalhadores da União.”

104 NÓBREGA, 2014, p. 29. 105 BALEEIRO, 2015, p. 418. 106 GOBETTI; ORAIR, 2016, p. 10.

quanto pela influência direta da capitalização da renda, fato que se manteve até o governo Sarney, já na reabertura política brasileira.

Durante o biênio 1988-1989, em uma série de medidas econômicas baseadas no movimento conhecido como “Reaganomics107108 O governo

Sarney promoveu alterações abruptas no modelo do Imposto de Renda. Gobetti e Orair destacam a redução da alíquota máxima, dos anteriores 50% para meros 25%, além da redução das 12 alíquotas para apenas 3.

O novo modelo de mundo, instrumentalizado pela onda neoliberal de governo que marcou as décadas de 1980-90, teve seu apogeu no governo do norte-americano Ronald Reagan. Governando durante o fim da era polarizada pela Guerra Fria, Reagan enfrentou a estagnação da economia norte-americana com uma série de medidas desregulatórias109, com o objetivo de diminuir o gasto

público, ficando célebre por sua frase “Apenas reduzindo o crescimento do governo podemos aumentar o crescimento da economia” (tradução livre)110. Tal

conjectura se solidificou com a edição da Tax Reform Act (Public Law 99-514) pelo congresso, medida que trouxe a redução mais significativa do imposto de renda norte-americano na história (a redução foi tão abrupta que além da citada queda da alíquota de renda, houve violente redução da alíquota corporativa, de 50% para 35%). Conforme desenvolve Carvalho111 os reflexos da guinada norte-

americana operaram na sistemática brasileira, dando gênese à atual conjuntura. Das medidas que fizeram parte de seu bojo, interessa ao tema sua atuação direta na redução do Imposto de Renda e sobre os ganhos de Capital, como forma de atrair investimentos privados. Está última, teve seu reflexo no que Gobetti e Orair afirmam ser:

“O ciclo de ampliação dos benefícios tributários aos rendimentos do capital e aos mais ricos se completou na década de 1990, com a isenção de dividendos e com a consolidação de uma estrutura de

107 «Paul Harvey, pioneiro da radialismo americano, morre aos 90 anos». acessível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2009/03/510996-paul-harvey-pioneiro-da-radialismo- americano-morre-aos-90-anos.shtml . Folha de S.Paulo. Consultado em 29 de Setembro de 2017

108 Lindsey, Lawrence B. The Growth Experiment: How the New Tax Policy Is Transforming the U.S. Economy. 1990.

109 NISKANEN, William Arthur. Reaganomics. 1988. Acessível em:

http://www.econlib.org/library/Enc1/Reaganomics.html. Consultado em 29 de Set. de 2017 110 "Only by reducing the growth of government can we increase the growth of the economy." 111CARVALHO, Cristiano Viveiros de, et. al; Silva, Jules Michelet Pereira Queiroz e (Coord.). Tributação de lucros e dividendos no Brasil: uma perspectiva comparada. Câmara dos

tributação com baixo grau de progressividade, além de inúmeras assimetrias” 112

Conforme se seguiu na edição da Lei 9.249/1995, corroborando à lógica tomada pelo governo Sarney. Lei que obstaria os lucros e dividendos da tributação de renda no país.

3.2 A TRIBUTAÇÃO DE LUCROS E DIVIDENDOS: PERSPECTIVA HISTÓRICA