• Nenhum resultado encontrado

A Hermenêutica de Profundidade (HP), que Thompson (2009) identifica como uma metodologia de interpretação, permite analisar o objeto como uma construção simbólica a partir de suas significações social e histórica. Assim, é importante que o objeto seja tomado para investigação a partir de construções propostas por outros autores, o que evidencia uma interpretação de algo já pré-interpretado, ou seja, uma reinterpretação. De acordo com o autor:

Este referencial coloca em evidência o fato de que o objeto de análise é uma

construção simbólica significativa, que exige uma interpretação. Por isso,

devemos conceder um papel central ao processo de interpretação, pois somente desse modo poderemos fazer justiça ao caráter distintivo do campo-objeto (THOMPSON, 2009, p. 355) [grifos nossos].

Em consonância com o estudioso, o objeto precisa ser compreendido a partir de sua construção simbólica, ou seja, ele deve ser observado e analisado através de suas significações sociais e históricas. Dessa forma, é imprescindível que o campo seja interpretado como objeto afetado por outros sujeitos que o interpretaram. Esse exercício atual de interpretação é uma reinterpretação já pensada e complexificada anteriormente por diferentes sujeitos, assim como afetada pela ação deles. Além disso, Thompson (2009) assevera que, ao analisarmos o objeto, mesmo que já interpretado, evidenciamos o “novo”. Neste sentido, afirmamos que o objeto possui um contexto histórico que nos faz enxergar outras perspectivas, além das já existentes.

A HP é composta por três fases principais. Anterior a elas, temos ainda a Interpretação da Doxa. Nessa etapa, é possível conhecer estudos prévios acerca do objeto para compreendê- lo como algo já pré-interpretado por outros sujeitos. O desenvolvimento da HP propriamente dita compreende, como primeira fase, a Análise sócio-histórica, que abrange a análise das Situações espaço-temporais, dos Campos de interação, das Instituições sociais, da Estrutura social e dos Meios técnicos de transmissão. O segundo momento da HP é composto pela fase da Análise formal ou discursiva, que, nesta pesquisa, é contemplada pela Análise de Conteúdo (BARDIN, 1977). A última fase da metodologia consiste na Interpretação/Re-interpretação. Explicamos cada fase ao longo das seções deste capítulo. Apontamos essas fases metodológicas no quadro 7 (sete):

Quadro 7 – Fases da Hermenêutica de Profundidade Interpretação da Doxa Hermenêutica de Profundidade 1. Analise sócio- histórica 1. Situações espaço- temporais 2. Campos de interação 3. Instituições sociais 4. Estrutura social 5 Meios técnicos de construção de mensagens e de transmissão 2. Análise formal ou discursiva Análise de conteúdo (BARDIN, 1997) 3. Interpretação/re- interpretação Fonte: Thompson (2009).

Para a compilação do material necessário à análise, congregamos as seguintes técnicas de coleta de dados: pesquisa documental (LAKATOS; MARCONI, 2002), observação encoberta não-participativa em espaços on-line (JOHNSON, 2010) e entrevista não- estruturada (LAKATOS; MARCONI, 2002). A pesquisa documental foi desenvolvida por meio do acesso a publicações institucionais e outros documentos da ANDI. Já a observação encoberta não-participativa (JOHNSON, 2010) ocorreu por meio do acesso ao site institucional da organização. De acordo com Johnson (2010, p. 63), essa forma de coleta “representa a situação e, que a função do pesquisador é apenas observar, mas os sujeitos sob observação não sabem que estão sendo estudados”. As entrevistas não-estruturadas foram realizadas com membros da organização em estudo, com um integrante do Intervozes e com servidores do Estado: um membro da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão e representantes da Coordenação de Classificação Indicativa – Ministério da Justiça.

4.2 INTERPRETAÇÃO DA DOXA

Partindo do contexto da importância do entendimento das formas simbólicas, Thompson (2009) elenca a primeira parte da metodologia da HP, como a Interpretação da Doxa. Esse exercício antecede as três fases da HP: Análise sócio-histórica, Análise formal ou discursiva e interpretação/re-interpretação. Assim, fundamentada no olhar de outros pesquisadores, inicia-se essa análise a fim de compreender o que já foi investigado acerca do objeto. Thompson (2009) acredita que essa imersão no estudo do objeto permite ao pesquisador entendê-lo como algo já interpretado e modificado por outros sujeitos. Entretanto, o autor alerta para que a pesquisa não seja somente entendida sob esse aspecto de contextualização.

Nessa etapa, a proposta é a leitura de trabalhos que já fizeram análises sobre a ANDI para que o objeto de estudo seja compreendido por meio das diferentes perspectivas investigadas. O objetivo é pontuar as premissas conhecidas acerca da organização e propor novos olhares e questionamentos sobre ela. Como afirma Thompson (2009), é preciso ver o “novo” sobre o objeto. Assim, a Interpretação da Doxa auxilia a entender o contexto estudado e verificar novas proposições em relação ao objeto empírico.

Com o propósito de verificar como a ANDI já foi compreendida por outros sujeitos, fizemos uma pesquisa em diferentes sites. A busca foi delimitada no recorte temporal de 2011 a 2017. Para realizá-la, utilizamos as palavras-chave “ANDI”, “ANDI – Comunicação e Direitos” e “Agência de Notícias dos Direitos da Infância”. Optamos por elas, pois, embora a sigla ANDI seja recorrente, em diversos casos, o sistema de busca do site correspondente identificava palavras diferentes em que a sigla aparecia em meio ao termo, como

merchandising. Além disso, a organização recentemente modificou o seu nome e adicionou a

definição “Comunicação e Direitos”. Sendo assim, fizemos a procura pelo seu antigo nome, Agência de Notícias dos Direitos da Infância, que deu origem à sigla adotada até hoje, ANDI. Os sites onde realizamos a pesquisa foram: Google Acadêmico96, Portal de Periódicos

da Capes97, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações98, Banco de Teses da

Capes99, Scientific Eletronic Library Online (SciELO)100 e Domínio Público101. Destes,

96 Disponível em: <https://scholar.google.com.br/>. Acesso em: 08 mai. 2018. 97 Disponível em: <http://www.periodicos.capes.gov.br/>. Acesso em: 08 mai. 2018. 98 Disponível em: <http://bdtd.ibict.br/vufind/>. Acesso em: 08 mai. 2018.

99 Disponível em: <http://bancodeteses.capes.gov.br/banco-teses/#/>. Acesso em: 08 mai. 2018. 100 Disponível em: <http://www.scielo.org/php/index.php>. Acesso em: 08 mai. 2018.

101 Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp>. Acesso em: 08 mai.

encontramos trabalhos referentes à organização nos seguintes sites: Google Acadêmico102 (3)

e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (1).

A ANDI é uma fonte bastante citada nos estudos sobre direitos de crianças e adolescentes, pela sua trajetória de mais de 20 anos de envolvimento com a temática. A organização possui muitas publicações sobre seus escopos de debate, especialmente pesquisas quantitativas e qualitativas, com base na análise de conteúdo da mídia. Neste sentido, os seus estudos, disponíveis, na sua maioria, para download em seu site institucional, fornecem diversos subsídios para pesquisas nas áreas da comunicação, jornalismo, cidadania, direitos humanos, políticas públicas, entre outras. Como exemplo, destacamos dois trabalhos que empregam os estudos da ANDI referentes ao tema dos direitos humanos das crianças e dos adolescentes na mídia e as estratégias de monitoramento, conforme o quadro 8 (oito):

Quadro 8 – Exemplos de trabalhos que utilizam os estudos da ANDI para desenvolver análises

Tipo de Pesquisa

Dissertação Artigo em periódico

Título

Jornalismo e cidadania: uma análise comparativa de cobertura de violações de direitos do adolescente

Crime, Castigo e Recuperação: como adolescentes são representados e uma série de reportagens de uma TV brasileira

Autor Aline Maria Fusisaki Leão Marcus Antônio Assis Lima e Flávia

Moreira Mota e Mota Instituição Universidade Estadual Paulista Júlio

Mesquita Filho

Revista Brasileira de Ciências da Comunicação (Revista Intercom)

Ano 2011 2015

Resumo

A pesquisa faz referência ao trabalho da organização para a consolidação dos direitos das crianças e adolescentes na mídia e trata da estratégia de

monitoramento da ANDI principalmente sobre o tema da violência. Na análise, compara a edição de dois jornais com base nos preceitos recomendados pela ANDI no que tange à prática jornalística.

Os autores utilizam as categorias de análise

contidas na cartilha, de autoria da

organização, “Adolescentes em conflito com a lei: guia de referência para cobertura jornalística”, para investigar reportagens da série Crime, Castigo e Recuperação da TV Brasil a fim de identificar como as crianças e adolescentes são representados.

Fonte: elaborado pela autora.

De acordo com o quadro 8 (oito), podemos perceber que, embora a ANDI seja citada como referência, a sua maior contribuição fica circunscrita ao processo analítico. Neste

102 Na busca no Google Acadêmico, foi encontrado um artigo escrito pela autora desta tese. O trabalho intitulado

“As interfaces entre o terceiro setor e o campo midiático: as estratégias comunicativas desenvolvidas pela ANDI” foi apresentado no XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, no Rio de Janeiro, em 2015. Todavia, optamos por não inclui-lo na Interpretação da Doxa, já que ele apresenta os primeiros passos que resultaram na presente pesquisa. Disponível em: <http://portalintercom.org.br/anais/nacional2015/resumos/R10- 0878-1.pdf>. Acesso em: 08 mai. 2018.

sentido, a ANDI aparece num plano secundário, não como objeto de pesquisa. Assim sendo, para a Interpretação da Doxa, tomamos o cuidado de procurar trabalhos que fizessem alusão à ANDI como objeto de estudo. Com base no foco escolhido e nos demais recortes propostos, reunimos quatro (4) trabalhos, conforme seguem em ordem cronológica atualizada (quadros 9, 10, 11 e 12):

Quadro 9 – Interpretação da Doxa – trabalho 1

Tipo de Pesquisa Artigo em evento

Local de busca Google Acadêmico

Link <http://portalintercom.org.br/anais/sul2015/resumos/R45-0567-1.pdf>

Título Quem critica a mídia: um levantamento dos observatórios de imprensa no

Brasil

Autores Carolina Baggio Emerenciano, Giovanna Menezes Faria, Giovanna Tortato,

Thayná Peres e Rodolfo Stancki

Instituição Centro Universitário Autônomo do Brasil – Unibrasil

Ano 2015

Resumo

Os autores identificam os observatórios de mídia no Brasil que tenham como propósito o monitoramento e/ou crítica da mídia. Para encontrá-los, fizeram buscas no Google pelos sites ou blogs destes. Foi empregado o conceito de resposta social, de Braga (2006), na construção do trabalho.

Fonte: elaborado pela autora.

Quadro 10 – Interpretação da Doxa – trabalho 2

Tipo de Pesquisa Dissertação

Local de busca Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações Link <http://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/29996>.

Título Observatório de mídia: contribuições para a proteção dos direitos humanos

nos meios de comunicação

Autor Douglas Silva Moreira

Instituição Universidade Federal do Paraná

Ano 2013

Resumo

O autor classifica a ANDI como um observatório de mídia que discute a função desta para a promoção dos direitos humanos. No trabalho, há um levantamento dos diferentes observatórios de mídia que existem no Brasil, sendo que, para a pesquisa empírica, o autor elenca quatro (4), dentre eles, a ANDI. Na análise, o autor aborda o histórico dos observatórios escolhidos e discute a importância social dos meios de comunicação.

Quadro 11 – Interpretação da Doxa – trabalho 3

Tipo de Pesquisa Artigo em periódico

Local de busca Google Acadêmico

Link http://www.usp.br/alterjor/ojs/index.php/alterjor/article/viewArticle/aj4-a9

Título

A institucionalização da pauta da infância e adolescência no Brasil: 20 anos de ECA e contribuição da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI)

Autor Robson Dias

Instituição Revista Alterjor (ECA/USP)

Ano 2011ª

Resumo

No trabalho, o autor reconhece a atuação da ANDI através de suas ações e estratégias, dentre elas, as premiações, as atividades nas redações

jornalísticas, a fim de promover o jornalismo como função social. Na análise, o autor compara as ações da ANDI ao Plano de enfretamento, proposta por Silva (2007), em um movimento de contra-agendamento.

Fonte: elaborado pela autora.

Quadro 12 – Interpretação da Doxa – trabalho 4

Tipo de Pesquisa Artigo em periódico

Local de busca Google Acadêmico

Link <http://177.101.17.124/index.php/sociais/article/view/3080>.

Título Direitos da criança: jornalismo, ONGs e o agenciamento da cidadania103

Autor Robson Dias

Instituição Revista Publicatio UEPG Ciências Sociais Aplicadas (Universidade Estadual

de Ponta Grossa)

Ano 2011b

Resumo

Ao fazer referência ao trabalho da ANDI, o autor trata do prêmio Jornalista Amigo da Criança como estratégia de mobilização dos jornalistas em prol da discussão de temas do universo infanto-juvenil.

Fonte: elaborado pela autora.

Identificamos que a ANDI é uma recorrente fonte de referência a diversos trabalhos, em diferentes temas de estudo no que tange aos direitos humanos e à mídia. Entretanto, não como objeto de análise. Apesar de não termos encontrado muitas pesquisas sobre a organização no espaço temporal escolhido e com o foco proposto, podemos fazer algumas interpretações acerca do objeto a partir delas. Dentre os quatro (4) trabalhos apontados, a discussão acerca da cidadania e do papel da mídia é evidente. O trabalho da ANDI, bem como as suas pesquisas, denota relevância para a discussão do fazer midiático, sobretudo, na prática jornalística, como atividade de cunho social. Neste sentido, a atuação da organização, como base nos estudos anteriormente mencionados, é relatada de uma forma positiva na sua

103 No artigo, o autor faz referência à dissertação (Mestrado em História) “Agência de Notícias dos Direitos da

Infância ANDI: um estudo preliminar de uma organização do terceiro setor”, de Mônica Rebechi (2002). O trabalho mencionado não compôs a Interpretação da Doxa em função do espaço temporal delimitado para esta pesquisa.

condição de instituição social, que desenvolve um trabalho importante sobre os direitos humanos, especialmente no espaço midiático.

Nos artigos de Robson Dias (2011b, 2011a), há uma referência às ações da ANDI, como a sua estratégia de mobilização dos jornalistas, para discussão de temas referentes a crianças e adolescentes e o contra-agendamento promovido pela organização. No artigo de Carolina Baggio Emerenciano et al. (2015), a ANDI é caracterizada como um observatório de mídia e comparada a outros que existem no Brasil. Nesse trabalho, há o emprego do conceito de resposta social (BRAGA, 2006) que igualmente é utilizado nesta tese.

Destacamos também a dissertação de autoria de Douglas Silva Moreira (2013), que tem semelhanças e diferenças com esta pesquisa. O trabalho que caracteriza a ANDI como um observatório de mídia aproxima-se da atual pesquisa porque possui um caminho teórico- metodológico muito similar. Em ambos os casos, a organização é utilizada como objeto para discussão do papel da mídia em relação à promoção dos direitos humanos, cidadania e interesse público. Ademais, nos dois trabalhos, a metodologia utilizada é a HP, de John Thompson. Outro ponto de intersecção entre esta pesquisa e a de Moreira (2013) é o uso da teoria de Braga (2006) acerca do conceito de resposta social, assim como no artigo de Emerenciano et al. (2015).

Nos estudos de Moreira (2013) e de Emerenciano et al. (2015), a ANDI, como observatório de mídia, é identificada como um sistema de interação social que age sobre o sistema de produção. Nesse mesmo ponto, as diferenças entre os estudos manifestam-se, pois utilizamos a teoria de Braga (2006) para embasar o que denominamos de estratégias de responsabilização político-social. Inferimos que a atuação da ANDI transpõe a função de monitorar o conteúdo da mídia, ao discutir a promoção de políticas públicas de comunicação (PPC). Dessa forma, ela envolve o campo político em uma função que é de sua natureza, garantir que os cidadãos tenham direito à liberdade de expressão e à informação de interesse público, através da mídia. Assim posto, compreendemos que a ANDI, para além de uma organização que monitora a mídia, institui formas de problematizar a comunicação além dos seus meios técnicos, quando, por exemplo, defende a regulação da mídia junto ao poder público e discute diversos temas relacionados à importância da mídia no contexto da garantia dos direitos humanos, como a publicidade infantil, a responsabilidade social das empresas de mídia, entre outras temáticas. Para tanto, a ANDI desenvolve diversas ações a fim de pressionar os poderes públicos a deliberarem acerca desse tema.

Como define Thompson (2009), a Interpretação da Doxa é importante para que o investigador defina de que forma o seu objeto de estudo foi apropriado por outros

pesquisadores. Dessa maneira, identificamos as diferentes abordagens pelas quais o objeto foi pesquisado para que, assim, possamos apreendê-las como premissas dadas e pontuar as especificidades do estudo em desenvolvimento para observações além do que está posto.

Assim sendo, podemos afirmar que o nosso trabalho tem como premissa a relevância da ANDI na construção de suas ações, pautadas em suas estratégias de mobilização, monitoramento, qualificação e reaplicabilidade. De acordo com o material analisado, podemos perceber ainda que a organização é retratada pelo seu trabalho profissional no âmbito das pesquisas sobre as suas áreas de atuação e de observação da mídia. Em contrapartida, apontamos como reinterpretação do nosso objeto de análise as estratégias de responsabilização político-social para a deliberação de políticas públicas de comunicação (PPC) a fim de garantir legalmente que a mídia desempenhe a sua função social através de mudanças de seus paradigmas institucionais. Reiteramos que nenhum trabalho, nem mesmo em nível de doutorado, com este foco, foi encontrado nas pesquisas realizadas.

4.3 ANÁLISE SÓCIO-HISTÓRICA

Depois da etapa de aproximação a partir do olhar de outros estudiosos, é importante que o próprio pesquisador lance a sua visão analítica e crítica sobre o mesmo objeto a fim de compreendê-lo e problematizá-lo. Para tanto, partimos para a Análise sócio-histórica. Nessa primeira fase da HP, é relevante entender as formas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas (THOMPSON, 2009). Dessa maneira, é preciso mapear as situações espaço-temporais; os campos de interação; as instituições sociais, as suas regras, recursos e relações; as estruturas sociais e os meios técnicos de construção de mensagens e de transmissão. De acordo com Thompson (2009), a Análise sócio-histórica é essencial para compreender o contexto social e histórico em que as formas simbólicas são produzidas e apropriadas. Essa contextualização é importante para o entendimento do objeto que se deseja pesquisar.

A Análise sócio-histórica foi composta pelas informações obtidas através da coleta de dados, conforme as técnicas especificadas anteriormente: a pesquisa documental (LAKATOS; MARCONI, 2002), a observação encoberta não-participativa (JOHNSON, 2010) e as entrevistas não-estruturadas (LAKATOS; MARCONI, 2002). Explicitaremos a Análise sócio- histórica ao longo de cada item que segue.

4.3.1 Situações espaço-temporais

De acordo com Thompson (2009), as situações espaço-temporais de produção e recepção caracterizam de que maneira as formas simbólicas são produzidas e recebidas. Conforme o material analisado, podemos inferir que a ANDI constitui a sua produção através do seu próprio site, do blog “Direitos, Infância e Agenda Pública”104 e das redes sociais, como

Facebook105 e Twitter106. Nessas mídias institucionais, a organização divulga as suas áreas de

atuação, as suas ações, entre outros dados, além de suas publicações, também compreendidas como espaço de produção simbólica, acerca dos temas com os quais trabalha. A circulação das publicações dá-se por meio impresso ou digital, neste caso, é possível fazer o seu

download no site da ANDI. As publicações da organização são estudos teórico-metodológicos

que servem como referências a diversas organizações e a pesquisas acadêmicas, como já mencionado na Interpretação da Doxa.

Entendemos ainda que o desenvolvimento das estratégias da organização incentiva a produção e a circulação de seu conteúdo. Por exemplo, ao organizar uma agenda de eventos, ao construir pauta para os jornalistas e ao premiá-los, por meio da estratégia de mobilização, a ANDI cria espaços de produção e circulação do seu trabalho. Já a disponibilização de um glossário que explica o significado de determinados termos e as dicas para cobertura jornalística, na estratégia de qualificação, denotam a produção e a circulação do material institucional da organização. Além delas, as ações em parceria com outras instituições da mesma forma auxiliam na produção simbólica da sua expertise em torno das áreas de atuação e indicam a sua representatividade e legitimidade como instituição da sociedade civil que é convocada a participar dos debates acerca dos direitos humanos na mídia.

Podemos afirmar que as Redes ANDI Brasil e ANDI América Latina igualmente são formas de produção e circulação, já que, nestes dois casos, a organização potencializa a atuação de outras organizações por meio da aplicação de sua tecnologia social. A ANDI replica as suas formas de produção a outras instituições com o objetivo de dar continuidade aos debates propostos.

As referências feitas à ANDI em pesquisas acadêmicas, como demonstrado na Interpretação da Doxa, ou como fonte de informação especializada no que tange aos direitos