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1.3 Novo Padrão de Acumulação e as Novas Exigências de Formação

1.3.1 No Centro do Debate: a categoria “competência”

Ao desenvolver um estudo que enfoca o momento da passagem das teses sobre a polarização das qualificações para o modelo de competências, Hirata (1994) destaca que:

O debate aberto por Braverman (1974) no início dos anos setenta em torno da desqualificação inelutável, gradual, progressiva como conseqüência do aprofundamento da divisão do trabalho no capitalismo teve como uma de suas variantes consagradas durante um período relativamente longo a tese da polarização das qualificações. Segundo esta tese, a modernização tecnológica estaria criando, de um lado, uma massa de trabalhadores desqualificados e, de outro, um punhado de trabalhadores superqualificados (Freyssenet, 1977;

H. Kern e M. Schumann, 1980; A Sorgeet alii, 1983 etc). (p. 131).

Com a adoção de novas condições de produção, a tese da requalificação dos operadores vai conduzir a uma superação do paradigma da polarização das qualificações, dominante desde o fim dos anos setenta, e à emergência do modelo de competências. De acordo com Hirata:

A competência é uma noção oriunda do discurso empresarial nos últimos dez anos e retomada em seguida por economistas e sociólogos na França (cf.Dadoy, 199)). Noção ainda bastante imprecisa, se comparada ao conceito de qualificação, um dos conceitos-chaves da sociologia do trabalho francesa desde os seus primórdios (cf. Naville, 1956); noção marcada política e ideologicamente por sua origem, e da qual está totalmente ausente a idéia de relação social, que define o conceito de qualificação para alguns autores (cf. Kergoat, 1982, 1984; M.

Freyssenet, 1977, 1992). (HIRATA, 1994, p. 132).

A autora nos mostra como esse conceito foi sendo ressignificado de modo a atender às demandas de mercado, ou seja, o modelo de competências encontra-se associado ao modelo de requalificação da força de trabalho, em substituição ao modelo de qualificação.

Paiva (1990), a partir de revisão empreendida na bibliografia internacional sobre a relação entre a automação avançada e qualificação, apresenta quatro grandes teses sobre as tendências da qualificação média da força de trabalho no capitalismo contemporâneo:

1. A tese da desqualificação: o capitalismo de nossos dias não estaria conduzindo a terceira etapa do esquema trifásico22. Ao contrário ele se reproduziria mantendo as características da transição do artesanato à manufatura, provocando uma desqualificação progressiva em termos absolutos e relativos.

2. A tese da requalificação: a automação, o consumo de massa, etc. estariam a exigir a elevação da qualificação média da força de trabalho.

3. A tese da polarização das qualificações: aparece combinada com qualquer das outras e afirma que o capitalismo moderno necessitaria de um pequeno número de trabalhadores qualificados, enquanto a grande massa se veria frente a um processo de desqualificação.

4. A tese da qualificação absoluta e da desqualificação relativa – o capitalismo contemporâneo necessitaria de trabalhadores mais qualificados em termos absolutos (a qualificação média se elevaria), mas a qualificação relativa, considerando-se o nível de conhecimentos socialmente disponíveis, se reduziria em comparação com épocas pretéritas (PAIVA, 1990, p. 99-100).

Machado (1994a) acena para um contraditório cenário que reforça o quadro da polarização das qualificações, em que o novo perfil de qualificação se confirma apenas para um pequeno grupo que constitui uma espécie de “aristocracia técnica” ligada aos processos de

22 O esquema trifásico (artesanato-qualificação; mecanizações-desqualificação; nova fase de racionalização-requalificação e polivalência), segundo Paiva, foi apontado por Marx há cem anos (1990, p. 98).

trabalho flexíveis, restando no outro pólo um enorme contingente de trabalhadores desqualificados, ou seja, “o proletariado tradicional”. Em outro texto, a autora salienta que:

Verifica-se um movimento complexo, heterogêneo, não coetâneo e difuso de qualificação e desqualificação da força de trabalho, com os deslocamentos, substituições e absorções de segmentos laborais, a partir de critérios emergentes e pouco explícitos de inclusão e exclusão, ditadas pelas inovações tecnológicos e organizacionais. (...) as contradições que surgem neste movimento de qualificação e desqualificação da força de trabalho são amplas e profundas porque as substituições e ajustes nem sempre se revelam possíveis. Existem limites estruturais dados pela impossibilidade inerente ao capitalismo de compatibilizar transformações na base técnica da produção com a criação de condições sociais adequadas à formação do trabalhador, apesar das necessidades objetivas do sistema produtivo (MACHADO, 1994b, p. 177-178).

Da mesma forma, Antunes (2000) em seus estudos evidenciou paralelamente uma tendência para a qualificação do trabalho e um processo de desqualificação dos trabalhadores, configurando-se, segundo ele, num processo contraditório que superqualifica em vários ramos produtivos e desqualifica em outros. O autor adverte23

que não há uma tendência generalizante e uníssona, quando se pensa no mundo do trabalho, há sim, uma processualidade contraditória e multiforme. Ele constata que as tendências em curso, de um lado apontam para um efetivo processo de intelectualização do trabalho manual ou um incremento do trabalho qualificado, de outro, e em sentido radicalmente inverso, uma desqualificação e mesmo subproletarização intensificadas, que estão presentes no trabalho precário, informal, temporário, parcial, subcontratado, etc (ANTUNES, 2000, p.62).

Libâneo (2004) afirma que, de fato, as novas realidades do mundo do trabalho hoje requerem trabalhadores com mais conhecimento, cultura, preparo técnico, que demandam, por sua vez, uma relação mais explicita entre conhecimentos e capacidades e sua aplicação. O autor defende que “a competência está ligada, portanto, a um modo adequado e correto de pôr em ação conhecimentos, instrumentos materiais, supondo-se o domínio desses conhecimentos, capacidades, habilidades, instrumentos” (p.84). No entanto, explicita que

23 Essas conclusões, apontadas como teses no trabalho de ANTUNES (2000), estão embasadas no pressuposto do autor de que não há perda da centralidade da categoria trabalho na sociedade contemporânea. Suas análises incorporam a dupla dimensão desta categoria: trabalho abstrato e trabalho concreto. Defende que, na sociedade capitalista, o trabalho concreto (valor de uso) está subsumido pelo trabalho abstrato (valor de troca).

existe uma forma de apropriação do termocompetências, vinculada a uma visão economicista e empresarial do trabalho, que atribui um caráter instrumental a esse termo, “em que o desenvolvimento de competências visaria a instrumentalização do trabalhador para novas exigências da produção capitalista, incluindo a modelação de sua consciência para uma nova ideologia do capital” (MARKET, 2002 apudLIBÂNEO, 2004, p. 84).

O referido autor adota a abordagem de Market (2002) para analisar o conceito de competência, ou seja, um conceito integral e crítico de competências, baseado numa visão dialética de formação humana, relacionando as categorias de trabalho e comunicação, “com a visão da formação do sujeito em estruturas de trabalho que permitem a intervenção participativa de homens autônomos” (MARKET, 2002, p. 191apudLIBÂNEO, 2004, p. 84).