2 OS SENTIDOS DAS ESCOLAS, OS CLICHÊS E OS CURRÍCULOS
2.1 No: com quantos clichês se combate um golpe?
O filme se passa no Chile, de 1988, mostrando o momento em que o ditador Augusto Pinochet, pressionado pela comunidade internacional, realiza um plebiscito nacional para definir sua continuidade ou não no governo. Depois de quinze anos de ditadura militar no Chile, o povo é chamado para votar, decidindo se o general continuaria ou não no poder. René Saavedra (interpretado por Gael García Bernal), publicitário profissional, recém-formado nos EUA, é chamado por opositores do governo para produzir material para ocupar os quinze minutos de televisão previstos e autorizados pelo regime29, durante o mês que duraria a campanha, bem como outros materiais de propaganda.
Mesmo com poucos recursos e sob a constante vigilância dos agentes da ditadura, para quem também presta serviços – dentro de uma companhia que já prestara outros serviços ao governo - René Saavedra consegue criar uma campanha consistente e recheada de clichês positivos, ao invés de apenas denunciar as atrocidades cometidas pela ditadura. E, ao contrário do que muitos pensam, a campanha criada pelo “não” opta por discutir não a repressão da ditadura chilena, mas a ideia de que “a alegria viria se a ditadura acabasse”.
Um dos impasses entre aqueles que estavam envolvidos na campanha do ‘não’, era a intensa produção de clichês nas propagandas, que podem ser percebidos quando em uma passagem do filme René propõe um vídeo com imagens parecidas com comerciais de refrigerantes30 e que provocou um debate violento entre os participantes da conversa no filme, todos participantes do campo do ‘não’. Entretanto, a perspectiva de René Saavedra vinga e a campanha do ‘não’ aponta as alegrias da vida, nas projeções publicitárias para o futuro do Chile, com a possibilidade de viverem juntos apesar das diferenças existentes e dos sofrimentos pelos quais tantos passaram, com torturas, exílios, desaparecimentos, mortes etc.
É preciso lembrar ainda que naquele momento, a euforia inicial pelo governo ditatorial já havia passado, inclusive pela existência de profunda crise econômica e por enorme pressão internacional contra o que acontecia politicamente no país.
Trago para tecer essa “conversa” a passagem do filme em que ocorre o impasse entre os referidos personagens. Após a primeira exibição do piloto da propaganda do “Não” para o plebiscito, permeada das cenas das opressões de militares contra civis, dados sobre
29 As normas da campanha previam 15 minutos para os favoráveis ao sim e o mesmo para os favoráveis ao não.
30 Pode ser visualizado em: https://www.youtube.com/watch?v=8_9Y21PFHQU.
desaparecidos, mortos, exilados, trilha sonora tensa etc., a conversa entre os personagens
R: – Algo mais... Algo... Algo um pouco mais ligeiro, mais simpático.
Mulher (M): – Companheiro, pensa que o que acontece no Chile é simpático?
R: – Nada disso. Não... Isso me sobressalta da mesma forma que a vocês. Eu... Creio que isso... Isto não se vende.
– Nós já temos... Tratemos, ambas as partes, de dar opiniões mais construtivas.
R: – O quê? Mas... Eu também?
– Todos em geral... A opinião de todos.
R: – Eu gostaria de saber se alguém acha que, com esta campanha, se pode ganhar o plebiscito?
F: – Eu penso que o principal objetivo é abrir os olhos daqueles que não querem votar. E esse é o objetivo da nossa campanha. O principal, digo.
– A ditadura destruiu esse país, e continuará destruindo... com seu sucesso econômico baseado em 40% de pessoas abaixo da linha da pobreza.
– Perdão, creio que o problema principal aqui é que queremos ganhar o plebiscito, muitos querem apenas ganhar e não transformar profundamente o Chile. Nós queremos outro tipo de vitória.
M: – Aqui o companheiro publicitário fez outra pergunta. O companheiro perguntou se vocês acham que vamos ganhar. A resposta é não! Não cremos. Não, por favor!
Este plebiscito está perdido desde que a direita fascista o convocou.
R: – Então para que essa campanha?
M: – Para criar consciência, para ocupar os espaços que a ditadura se viu obrigada a abrir, e que nós ganhamos.
– Então façamos algo.
– Exatamente!
– Uma coisa é que nos permitam ganhar, e outra coisa é que aceitem isso.
– Bem, se estamos derrotados, não façamos nada.
– Por favor, esse plebiscito é uma fraude31.
Após uma série de desdobramentos, René desenvolve e apresenta uma proposta diferente de propaganda para o ‘não’, criando uma ideia diferente para a campanha, para o Chile, através de cenas clichês. Com todos esses clichês, René cria seu próprio clichê, ao falar antes da exibição do vídeo, o seguinte... criado para a campanha acompanha as cenas e dizem:
Podem dizer o que for Eu sou livre pra pensar Porque penso que é a hora
31Alguns trechos desse diálogo não contém personagem definido porque no filme não lhes são atribuídos nomes, mas representam diferentes forças que se aliaram com a ditadura.
De ganhar a liberdade
Então a conversa sobre as imagens e os sons ‘clichês’ são retomadas:
– Escuta, isso é tudo o que tem? Porque...
R: – Isto é tudo o que temos de, digamos, um protótipo. Bem, essa é a campanha!
– Para mim, isto parece um comercial de Coca-cola.
José Tomás (JT): – E é mais do que isso! atraente. Otimista. Mas armando um conceito político por trás.
JT: – Ricardo...
Ricardo: – Veja José Tomás, entendo perfeitamente que há uma semiologia própria da publicidade. Isto é uma campanha. Entendo que devemos ter uma atitude pragmática. Quer mais pragmatismo do que estarmos envolvidos nesse plebiscito armado pela ditadura? Corremos grande risco. Não sabemos o que vai acontecer. Eu entendo. E também entendo que há limites éticos. Perdão, como se chama?
R: – René Saavedra.
Ricardo: – René, conheço muito bem o seu pai. René talvez você, em sua sala de edição, fazendo seus comerciais para grandes corporações tenha perdido um pouco a perspectiva. Nós vivemos na pele a violência dessa ditadura. Eu tenho um irmão desaparecido e meus melhores amigos foram degolados. E isso é uma campanha ao silêncio.
JT: – Todos entendemos que, obviamente, se está presente a sua dor, deva estar presente a de todos os demais envolvidos. Mas acho que entende o fundamental.
Ricardo: – Entendo, não sou idiota José Tomás. Entendo perfeitamente do que se trata. Isto é um engodo. Isto é uma campanha para silenciar o que realmente aconteceu. Vejamos, para mim me estranha, Fernando, desculpe, companheiro e amigo, que você se preste a essa merda! Não, o que vejo aí é o que vocês são realmente. Essas imagens são o que vocês são!
JT: – Ricardo, entendo seu ponto. Por favor entenda...
Ricardo: – Mas entendo perfeitamente. Mas não serei cúmplice de algo que a história mais tarde nos culpará. Assim, você pode ir diretamente à puta que te pariu!
Vai se foder! Com licença.
Ricardo se retira no recinto transtornado. Mesmo com o mal estar criado, a conversa sobre elementos imagéticos da campanha continua.
O filme ‘No’ traz imagens originais dos noticiários da época e muitos personagens que testemunharam de fato o processo desse plebiscito e da ditadura chilena. E é marcado pela problemática da publicidade em campanhas e de ideias sobre política, em um campo repleto de produção de clichês.
Imagem 6 - cena da gravação de coral para propaganda do
“não”, com muitos artistas chilenos engajados
Fonte: NO, propaganda e luta política no Chile de Pinochet. Blog da Revista Espaço Acadêmico. Disponível em: <https://espacoacademico.wordpress.com/ 2013/06/19/no-propaganda-e-luta-politica-no-chile-de-pinochet/>. Acesso em: 21 nov. 2015.
A projeção do filme “No” nos fez pensar que o “consumo” (CERTEAU, 1998) dos
‘clichês’ pelos ‘praticantespensantes’ aparece ao lado de “usos” (Ibid.) que os mesmos criam nas tantas redes educativas que formam e nas quais se formam.
Após o golpe ao governo de Salvador Allende, em 1973, consultando em especial o Google, pudemos perceber que ocorreram outros dois plebiscitos durante a ditadura de Pinochet: o primeiro em 1978 e o segundo em 1980. Em ambos os casos a opção pela continuidade de Pinochet no governo venceu. Tais processos foram realizados para dar caráter de legalidade ao governo, mas foram considerados ilegítimos, uma vez que houve fraudes, ausência de livre pensamento e mídia no processo de concretização desses plebiscitos, além de não haver registros eleitorais no caso do plebiscito de 1980.
Imagem 7 - cédula de votação do plebiscito de 1978 no Chile.
Fonte: BBC Brasil. Pergunta do plebiscito da Grécia parece... grego. 4 jul. 2015.
Disponível em: <http://economia.ig.com.br/2015-07-04/pergunta-do-plebiscito-da-grecia-parece-grego.html>. Acesso em: 20 nov. 2015.
Se é que podemos afirmar que existe uma “ordenação imagética”, precisamos problematizar acerca da diagramação da cédula de votação de 1978, que continha uma frase extensa, além de a opção “sim” conter a imagem da bandeira chilena. Como o eleitor não optaria pela opção “sim”? Como o eleitor não optaria pela bandeira de seu país? Respondendo à pergunta presente na cédula de votação, seria algum chileno contra “a dignidade do Chile”?
Por essa razão, provavelmente, aqueles que se empenhavam na campanha do “não” julgaram o plebiscito de 1988 – retratado no filme – como já perdido desde o início, quando fora convocado.
Somente em 1988, quando o terceiro plebiscito ocorre com o intuito de fazer cumprir aquilo que previa a constituição chilena, mas, mais uma vez, apenas para fins de legitimação do governo, o resultado surpreende Pinochet e parte dos militares que ainda o apoiavam. É preciso destacar não somente as campanhas publicitárias do “não” para influenciar no resultado deste plebiscito e os protestos populares contra a ditadura, mas também os próprios interesses entre outros grupos de militares pelo fim do governo de Pinochet. Nas palavras de Verdugo (2001)
nas Forças Armadas, conforme relata um dos militares entrevistados nesse livro, apenas 11% dos militares eram hostis ao governo. Uma maioria um pouco maior, 15%, apoiava as autoridades constituídas, e a grande maioria, três quartos do total, era formada de militares profissionais, sem opinião política. (orelha do livro).
Diferente da ditadura civil-militar brasileira na qual os generais do exército se revezavam no poder, no Chile houve a continuidade de um só ‘presidente’ – Pinochet – e os militares chilenos que aceitaram este fato no início do regime, começavam a não simpatizar com a ideia de uma mesma pessoa permanecer na presidência tantos anos, sem a alternância entre os próprios militares. Nas palavras da mesma autora eis a explicação para esse “golpe”:
após o anúncio oficial a respeito de que a presidência da Junta de Governo seria rotativa, alternando-se no poder todos os comandantes-em-chefe das forças armadas (setembro de 1973), o general Pinochet converteu-se no “Chefe Supremo da Nação”
(decreto-lei 527, junho de 1974). Ao que parece, isso não bastou, e seis meses mais tarde, se transformou em “Presidente da República do Chile” (decreto-lei 807, dezembro de 1974). (VERDUGO, 2001, p. 230).
As organizações internacionais já sinalizavam, no momento do terceiro plebiscito, contra o governo de Pinochet, que massacrava seus opositores, como foi o caso da “Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos”. Outras iniciativas contra o general foram perpetradas, mas pouco significaram em termos de condenação por seus atos contra humanidade. Verdugo (2001) traz o que foi considerado como um dossiê para o processo de acusação contra Pinochet, com inúmeros depoimentos sobre as atrocidades cometidas no
período de seu governo. Diante desses crimes contra os direitos humanos existem muitos impasses quanto ao julgamento desse tipo de casos.
Imagem 8 - cédula de votação de plebiscito de 1988 no Chile.
Fonte: Chilean national plebiscite, 1988.
Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/
Chilean_national_plebiscite,_1988>. Acesso em:
21 nov. 2015.
Segundo Verdugo (2001), o juiz Garcia Castellón, do processo chileno, solicitou autorização à Inglaterra para interrogar o general, quando se encontrava na Inglaterra para tratamento de saúde, em 1998. Já o juiz Baltasar Garzón, do caso argentino, solicitou a extradição de Pinochet à Espanha. O ditador permaneceu 503 dias preso em Londres e quando retornou ao Chile perdeu seu título de senador vitalício e mais tarde, em 2000, sua imunidade, tendo sido um período de centenas de queixas contra o ditador. Mais tarde, se somaram às denúncias de violação de direitos humanos, acusações de lavagem de dinheiro e de corrupção, sendo seus familiares e ex-colaboradores militares presos. Em 2006, Pinochet faleceu em prisão domiciliar à espera de julgamento por crimes de enriquecimento ilícito e violação de direitos humanos.
É interessante destacar que o início da ditadura chilena era intrínseco ao da chamada
“Guerra Fria”. Portanto, derrubar o governo de Salvador Allende significava combater as políticas socialistas, iniciativas populares e os governos de esquerda que os Estados Unidos diziam ser alinhados à União Soviética. Nesse contexto, opositores de Allende, de iniciativa neoliberal-burguesa, obtiveram financiamento da Central Intelligence Agency (CIA) para perpetrar campanhas publicitárias contra o governo de Allende através das mídias – que eram livres e, em sua maioria (cerca de 70%), faziam oposição ao seu governo. Uma greve geral dos empresários de caminhões pôs em xeque o escoamento da produção das indústrias que foram estatizadas em seu governo. A proposta de estatização desagradava às iniciativas
neoliberais em torno do planeta. A greve citada culminou numa crise político-econômica, uma vez que afetou o abastecimento de itens essenciais à população (VERDUGO, 2001).
No entanto, a situação econômica não melhoraria com o governo de Pinochet, tendo causado a forte queda do Produto Interno Bruto (PIB) chileno, de 30% em 1981, elevadas taxas de desemprego etc.:
Em 1973, 20% da população do Chile vivia na pobreza, em 1990, o ano em que Pinochet deixou o cargo, o número de indigentes dobrou para 40%. Em 1973, o ano em que general Pinochet tomou o governo, a taxa de desemprego no Chile foi de 4,3%. Em 1983, depois de dez anos, o desemprego atingiu 22%; mas em 1989 foi de 5%. Os salários reais diminuíram 40% durante a ditadura militar (WIKIPÉDIA, 2016a).
O filme mostra em algumas campanhas do “não”, por exemplo, que os mais pobres não tinham dinheiro suficiente para comprar pães – fazendo referência ao falso aspecto de sucesso econômico do governo Pinochet, que investia em campanhas publicitárias nesse sentido. Por isso, é interessante lembrar que essa campanha foi possível dentro de uma conjuntura, na qual a “grande depressão de 1982” detonou uma série de protestos pacíficos contra o governo, mas que foram duramente reprimidos pelo governo de Pinochet, senão vejamos:
As sucessivas tentativas e erros de dosagem nas medidas recomendadas pelo modelo liberal custaram ao Chile uma queda 30% do seu PIB, a balança de pagamentos alcançou um déficit de 20% em 1981 e os preços do cobre caíram rapidamente. Os investidores estrangeiros deixaram de investir, enquanto o governo dizia que tudo isso era parte da recessão mundial. Os investidores nacionais e as empresas chilenas haviam aproveitado durante esse período para pedir diversos empréstimos, com base na promessa de um câmbio fixo de um dólar a 39 pesos chilenos.
A situação não pôde se sustentar e, em junho de 1982, o peso foi desvalorizado e a política de câmbio fixo se encerrou. Diante disso, os empréstimos alcançaram taxas exorbitantes e muitos bancos e empresas quebraram. O desemprego se elevou a 25%
e o governo não encontrava fórmula capaz de manejar a situação. A inflação alcançou 20% e o PIB caiu em 15% (WIKIPÉDIA, 2016b)32.
As questões que o filme “No” disparam têm muito significado para o que vivenciamos na América Latina e muitas semelhanças com o que vivemos na atualidade, especialmente aos processos de ditaduras e posteriormente abertura política. Nesse sentido senti a necessidade de buscar outros dados além do que o filme nos traz para ampliar as ‘conversas’ tecidas – mais fios para tecer ‘conhecimentossignificações’, como o livro “Caravana da morte”, de Patrícia Verdugo (2001), informações na internet, críticas ao filme, Wikipédia, mas sempre confirmando tais informações tanto na leitura com Verdugo, quanto no próprio filme.
32 WIKIPÉDIA. História do Chile. Net, modificado em 7 Set. 2016. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Chile#A_Troca_de_D.C3.A9cada>. Acesso em: 5 Dez.
2016b.