Capítulo 1 – Tratamento textual: intervenções possíveis
1.2 Os profissionais de texto
1.2.1 No contexto do jornalismo
Nas últimas décadas, a presença dos revisores de textos tem sido cada vez menos frequente nas redações de jornais. Essa tendência foi fortalecida por três razões principais: 1) a introdução dos computadores nas redações; 2) os prazos cada vez menores para o fechamento das edições19 e 3) a reestruturação das empresas jornalísticas, que resultou no enxugamento do quadro de funcionários e na extinção de alguns profissionais (Dejavite; Martins, 2006).
No Brasil, o processo de modernização das redações iniciou na década de 1980, com a chegada dos computadores. As transformações fizeram-se notar na redução do número de funcionários em vários jornais, na sobrecarga de trabalho, no enquadramento de profissionais em outras categorias que não as suas, como forma de burlar as leis trabalhistas e o piso salarial vigente (Baldessar, 2005). Os resultados das inovações foram sentidos pelos profissionais que trabalhavam na mídia impressa, em especial pelos revisores cujos cargos, em alguns casos, foram extintos das redações dos jornais, tendo sua função sido substituída por corretores ortográficos automáticos.
Atualmente, há jornais que mantêm profissionais responsáveis por ler cada edição após sua impressão no intuito de apontar os erros publicados, o que Dejavite e Martins (2006: 22) denominam “revisão tardia”. As autoras ressaltam que esse procedimento acaba por prejudicar os leitores, que não apenas identificam erros que poderiam ter sido evitados como também podem tomá-los como certos.
A quantidade crescente de erros encontrados nos textos jornalísticos demonstra certa falta de cuidado e de atenção à qualidade dos textos produzidos nas redações. O leitor, por sua vez, sente-se incomodado por detectar equívocos, por vezes grosseiros, como relata Faheina (2009), em coluna intitulada “Agreção”, “ameassa” e outros erros:
19 A etapa de fechamento encerra o processo de edição de um jornal, de uma revista ou de outro
tipo de publicação. Após essa etapa, não é mais possível fazer alterações no texto ou na diagramação, exceto em casos de extrema necessidade, como quando se percebe a troca de imagens ou erros de português em um título. O próximo passo é enviar o material para a gráfica a fim de que seja impresso (Erbolato, 1985).
23 As duas palavras do título foram publicadas assim mesmo no O POVO,
na edição do último dia 18. E são palavras escritas com frequência em matérias do dia a dia, por isso não se justifica o erro grosseiro. Entre as reclamações que recebi, cito a do leitor Máriton Miroslav Queiroz Maia que disse observar erros diários no jornal. Ele se indignou com as grafias erradas de AGRESSÃO e AMEAÇA no infográfico [...]
A diminuição do número de profissionais nos jornais, em geral, e a quase extinção dos revisores nas redações fizeram o repórter ficar incumbido de revisar as matérias, além de redigi-las. O problema, como aponta Maboub (1999, p. 35), é que, não raramente, o repórter não possui o conhecimento e nem o treinamento necessários para detectar erros. Noblat (2002) compartilha desse ponto de vista ressaltando que há profissionais nas redações que não têm o domínio da escrita.
Na década de 1960, a equipe de copidesques do Jornal do Brasil, por exemplo, era composta por professores de português, escritores e jornalistas renomados que cuidavam da correção gramatical e da coesão textual; além disso, adequavam as matérias ao padrão editorial da empresa, davam-lhes título e colocavam-nas no espaço correto da página (Chaparro, 2004). Era comum esses profissionais reescreverem os textos elaborados pelos repórteres.
Ribeiro (1999) afirma que havia distinção entre copidesque e revisor: o primeiro era, em geral, o jornalista bastante experiente; o segundo, o jornalista iniciante que aspirava progredir na profissão. Fazer revisão, de acordo com o autor, era, desse modo, uma escola de jornalismo.
No contexto norte-americano, as redações de jornais empregam profissionais de texto que equivalem aos copidesques, os denominados copy editors, os quais também têm sido dispensados em número cada vez maior. Como explica Howell (2008), muitos jornais norte-americanos, pressionados pela diminuição de suas receitas, pelos prazos exíguos para confecção das matérias e pela urgência da internet, estão dispensando o trabalho do copidesque.
O jornal The Post, por exemplo, em 2005, tinha em seu quadro de funcionários 75 copidesques trabalhando em tempo integral. No entanto, ao longo dos anos, houve um corte de 40% desses profissionais, e a tendência é que o número
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diminua ainda mais. Em última instância, como ressalta a autora, essa mudança resulta em perda de credibilidade do órgão de imprensa, em virtude da crescente quantidade de erros relacionados à escrita (de erros ortográficos a má estruturação textual), bem como de equívocos relacionados a dados e ao sentido pretendido pelo autor.
Como destacam Dejavite e Martins (2006), o escrever de forma correta é uma questão ética, tratada pelo Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros em seu artigo 12, inciso VIII, de acordo com o qual o jornalista deve “preservar a língua e a cultura do Brasil”, sob pena, se não o fizer, de advertência pública e impedimento temporário ou definitivo de ingressar no quadro sindical20. Considerando que o leitor paga para ter acesso às notícias, têm o direito de ler textos de boa qualidade, claros, sem erros ou imprecisões, tanto em relação a aspectos linguísticos quanto em relação ao conteúdo das matérias.
Howell (2008) relata que nos jornais diários norte-americanos era comum o profissional de texto trabalhar à noite e aos finais de semana e feriados. Antes da informatização das redações, ele ficava em sua mesa em formato de ferradura e costumava usar viseira para proteger os olhos da luz, um estereótipo que ainda caracteriza o profissional naquele contexto. A mesa na qual eram dispostas as matérias que os repórteres traziam da rua proporcionava visão panorâmica dos textos a publicar. O copy editor, considerando tamanho, importância da matéria, espaço disponível na página e até ideologia da empresa, selecionava o que iria a público; era dele a decisão do que iria compor a edição do jornal. Em um processo linguístico de metonímia, a mesa de texto (copydesk) usada pelo profissional acabou por denominar, em português, quem faz esse trabalho, o setor do jornal e a própria ação de fazer, como em “fazer copidesque” de um texto. A partir da década de 1940, o jornalismo norte-americano passou a exercer expressiva influência na mídia impressa do Brasil. Os jornais produzidos nos
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FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS. Código de ética dos Jornalistas Brasileiros. Disponível em: <http://www.fenaj.org.br/federacao/cometica/codigo_de_etica_dos_ jornalistas_ brasileiros.pdf>. Acesso em: 7 jul 2010.
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Estados Unidos tornaram-se modelos para o jornalismo brasileiro no que se referia à elaboração de textos, distribuição das matérias no jornal e paginação, bem como à administração das empresas e à publicidade (Ribeiro, 2007).
Nessa mesma década, o copidesque foi introduzido no Brasil por Pompeu de Sousa, editor-chefe do jornal Diário Carioca, que o trouxe dos Estados Unidos, assim como a técnica do lead21, no intuito de iniciar uma nova era do jornalismo brasileiro. Essa reforma, que começou no Diário Carioca, resultou em uma nova formatação do jornal no que diz respeito à aparência gráfica e ao conteúdo editorial.
Na redação do Diário Carioca, foi implantada a primeira equipe de copidesques, constituída pelos melhores redatores, que reescreviam as matérias. Com base no texto denominado Regras de Redação do Diário Carioca, o primeiro manual de redação da imprensa brasileira, as matérias eram alinhadas conforme as normas técnicas, os padrões e o estilo editorial do jornal. Esse manual, idealizado por Pompeu de Sousa, inspirado em modelos norte-americanos, tornou-se o marco das transformações nas redações dos jornais brasileiros (Ribeiro, 2007).
A nova concepção de fazer jornalismo separou a notícia da opinião e priorizou a linguagem objetiva, clara, informativa e dinâmica. Deixava-se de lado a influência europeia de fazer jornalismo de combate, de doutrina e opinativo, reminiscência do final do século XIX (Mendez, 2005) e adotava-se, gradualmente, o modelo norte-americano de administrar uma empresa jornalística e fazer jornal. Essas mudanças fizeram parte de um movimento de modernização do jornalismo, de sua industrialização; passava-se da pequena imprensa à imprensa de massa, reflexo do que experimentava a sociedade brasileira no que diz respeito a aspectos socioeconômicos.
Na década de 1950, a copidescagem tornou-se o coração da redação de alguns jornais. Lage (s/d), em artigo intitulado À frente, o passado, relata – ele mesmo
21 Lead designa um texto introdutório de uma matéria jornalística. Apresentado de forma resumida,
deve informar os dados essenciais da notícia: o quê, quem, onde, quando, por quê, como. Foi introduzido no jornalismo brasileiro em 1950 e até hoje é uma técnica utilizada na composição das notícias (Mendez, 2005).
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exerceu a profissão de copidesque no Diário Carioca – que a nova técnica de trabalho com o texto representou uma revolução na maneira de redigir as matérias jornalísticas. O autor afirma que mesmo os repórteres com anos de experiência “não apenas não dominavam a técnica jornalística que estava sendo introduzida como jamais a dominariam: simplesmente não sabiam escrever. Textos chegavam com erros de regência, concordância, ortografia, às vezes contraditórios ou ininteligíveis”. Ribeiro (2007) afirma que copidescagem tornou-se uma profissão atraente para os repórteres que tinham habilidade para escrever bons textos, pois os salários pagos eram maiores.
Não obstante, os jornais de maior destaque do Rio de Janeiro e de São Paulo, exceto o Jornal do Brasil, que havia adotado as normas da redação do Diário Carioca, eram aversos aos copidesques em virtude de esses profissionais terem participado de uma greve inédita que paralisou os jornais cariocas no início da década de 1960. A paralisação tinha como objetivo reivindicar a incorporação dos ganhos extras ao baixo salário que constava na Carteira Profissional, com vistas a garantir 13º salário, férias e aposentadoria que correspondessem ao ganho real. Piquetes organizados por jovens jornalistas e copidesques bloquearam a entrada dos jornais O Globo, Correio da Manhã, Diário de Notícias, entre outros. Desse movimento, originou-se a campanha encabeçada por Nelson Rodrigues contra os copidesques, denominados por ele de “idiotas da objetividade”22.
Como podemos observar, a presença dos profissionais de texto no contexto do jornalismo foi se tornando menos frequente ao longo do tempo, em especial, em razão de aspectos como redução de custos, que levou os jornalistas a revisarem seus próprios textos, e prazo cada vez mais curto para produzir as matérias, resultado da informatização das redações dos jornais.
Não obstante a redução do número de profissionais das redações dos jornais, a revisão é uma “função” jornalística regulamentada pela Lei nº 972/69, complementada pelo Decreto-lei nº 83.284/79, que vigora até hoje. Esse decreto,
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Nelson Rodrigues foi veementemente contra a uniformização dos textos jornalísticos, pois isso lhes tirava a riqueza estética. Para o autor, a supressão de elementos supérfluos, como um ponto de exclamação, conduzia à “castração emocional do fato”; o copidesque, por que tinha foco em tornar o texto objetivo, era o principal alvo de críticas (Ribeiro, 2007).
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em seu artigo 11, determina as funções que os jornalistas estão aptos a desempenhar. Entre as funções está a de revisor de textos. Quando de sua regulamentação, em 1969, a profissão de jornalista abarcou a função denominada revisão de textos,
Art. 11 - As funções desempenhadas pelos jornalistas, como empregados, serão assim classificadas: [...]
VII – Revisor: aquele que tem o encargo de rever as provas tipográficas de matéria jornalística; [...] (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo)23.
De acordo com a legislação, a revisão de material jornalístico, como textos de jornais e de revistas, seria uma atividade jornalística reservada aos jornalistas. No entanto, após a sentença proferida pelo Supremo Tribunal Federal, em 17 de junho de 2009, que aboliu a necessidade do diploma para a atividade jornalística, não há mais essa reserva.
Em razão das transformações econômicas e tecnológicas pelas quais passou a mídia impressa, muitos setores dos jornais foram extintos, e o de revisão foi um deles. Assim, os textos passaram a ser revisados pelos próprios jornalistas, que, com sobrecarga de trabalho e prazos reduzidos para produzir as matérias, nem sempre conseguem manter a qualidade textual adequada (Dejavite; Martins, 2006).
Para fins de contextualização, esclarecemos que a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), elaborada e atualizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), é um documento que “reconhece, nomeia e codifica os títulos e descreve as características das ocupações do mercado de trabalho brasileiro”24; traz a
descrição das ocupações profissionais organizadas e descritas por famílias. Cada família representa um conjunto de ocupações similares que corresponde a um domínio de trabalho mais abrangente que o da ocupação. Nela, o revisor de
23 BRASIL. Decreto nº 83.284, de 13 de março de 1.979. Disponível em: <
http://www.sjsp.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=422&Itemid=120>. Acesso em: 10 jun. 2010.
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MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Classificação Brasileira de Ocupações Profissionais do Jornalismo. Disponível em: <http://www.mtecbo.gov.br>. Acesso em: 15 jun. 2010.
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textos está classificado como uma ocupação que pertence à área de Jornalismo. A revisão de textos é uma entre as várias tarefas que os profissionais de jornalismo estão aptos a executar, entre elas, assessor de imprensa, redator e repórter.
Já no contexto das editoras, chama-nos a atenção a variedade de designações dadas ao profissional de texto, o que dificulta o estabelecimento de limites entre as atuações dos profissionais de texto e resulta no acúmulo de funções relacionadas a diferentes etapas da edição, como passamos a discutir a seguir.