* VALOR DO PROCESSO
I. RELATÓRIO
4. No dia 10 de março de 2017, a Requerida, devidamente notificada para o efeito,
apresentou a sua Resposta na qual impugnou, especificadamente, os argumentos aduzidos pela Requerente, tendo concluído pela improcedência da presente ação.
4.1. No essencial e também de forma breve, importa respigar os argumentos mais
relevantes em que a Requerida alicerçou a sua Resposta:
A Requerida começa por alegar que a invocação, pela Requerente, dos vícios de fundamentação e de violação do direito de participação, consubstancia uma ampliação da causa de pedir na medida em que a Requerente não assacou em sede de reclamação graciosa qualquer vício procedimental ao ato de liquidação e ao fazê-lo no âmbito do pedido de pronúncia arbitral, tal consubstancia uma ampliação da causa de pedir, motivo pelo qual deverão os mesmos ser considerados não escritos.
A Requerida, seguidamente, quanto à alegada insuficiência de fundamentação dos atos de liquidação, começa por dizer que a Requerente quer por via do pedido de pronúncia arbitral, quer em sede de reclamação graciosa, demonstra claramente ter pleno conhecimento do quadro fático e legal em que assentou a decisão da AT, uma vez que rebate, ponto por ponto, toda a sua atuação.
Além disso, afirma a Requerida que é através do procedimento inspetivo que se procede à confirmação, correção e apuramento da matéria coletável, que será objeto da liquidação. Por isso, separar os dois momentos e isolá-los destacando, por um lado, o procedimento do apuramento da matéria coletável e, por outro, o procedimento de liquidação, é um vício de análise que ignora a conexão existente entre ambos, sabendo-se que o procedimento tributário compreende toda a sucessão de atos.
No concernente à invocada preterição de formalidade essencial, a Requerida diz que a Requerente foi notificada para o exercício do direito de audição no âmbito do procedimento inspetivo, nos termos do disposto no artigo 60.º, n.º 1, alínea e), da LGT, não o tendo exercido; logo, a Requerida ficou dispensada de conceder novo direito, nos termos do artigo 60.º, n.º 3, da LGT.
Posteriormente, a Requerida contesta os argumentos materiais apontados pela Requerente, como justificativos da sua discordância quanto à atuação da AT e dissonância face aos atos tributários controvertidos.
Nesse conspecto, a Requerida sustenta a similitude entre as prestações suplementares e as partes de capital, qualificando mesmo esse tipo de prestações como partes de capital para efeitos de aplicação do disposto no artigo 23.º, n.ºs 3 a 5, do Código do IRC, o qual é utilizado com o mesmo sentido no n.º 2 do artigo 32.º do EBF, ficando assim precludidas de concorrer para a formação do lucro tributável as mais e menos-valias geradas com a sua alienação, assim como os encargos financeiros incorridos com a sua obtenção, bem como quaisquer outros gastos conexos com a sua transmissão que cumpram os pressupostos constantes dos n.ºs 3 a 5 do artigo 23.º do Código do IRC.
No sentido de fundamentar este seu entendimento, a Requerida alega que as prestações suplementares, exemplo paradigmático de financiamento por capitais próprios, consistem em entregas efetuadas pelos sócios, para reforço daqueles, em determinado momento da vida de uma empresa, assumindo a forma de capital adicional; nessa medida, ainda que as prestações suplementares apresentem distinções face ao capital social, não deixam de ter com este, para o que aqui releva, uma natureza similar. É certo que não integram o capital social, mas constituem elementos do capital próprio da entidade beneficiária e devem ser qualificados como partes de capital para efeitos fiscais.
Desta forma, a Requerida preconiza que, para efeitos do disposto no n.º 2 do artigo 32.º do EBF, os encargos suportados com a obtenção dos meios necessários à realização de prestações acessórias sob o regime das prestações suplementares devem ser desconsiderados como custos do exercício, ou seja, os encargos financeiros suportados com o seu financiamento não concorrem para o apuramento do lucro tributável.
Relativamente à questão da indispensabilidade dos gastos de financiamento para a manutenção da fonte produtora, a Requerida sustenta que os encargos financeiros suportados com o financiamento das prestações suplementares em causa nos autos não são dedutíveis fiscalmente, atento o disposto no artigo 23.º, n.º 1, do Código do IRC, uma vez que constituem custos incorridos na obtenção de fundos destinados ao financiamento, a título gratuito, de entidades participadas. Nessa medida, tais encargos não contribuem para a realização de proveitos ou ganhos ou para a manutenção da fonte produtora da Requerente, não estando diretamente relacionados com a atividade da Requerente, mas sim com a atividade e interesse das empresas participadas a quem foi concedido financiamento gratuito.
No tocante ao apuramento mensal dos encargos financeiros não dedutíveis, a Requerida afirma que a Requerente não indica de que forma é que o critério seguido pela AT conflitua com o disposto no artigo 32.º, n.º 2, do EBF, nem refere de que forma é que esse mesmo critério colide ou colidiu com os cálculos por si efetuados e também não identifica qualquer erro ou razão que infirme os valores apurados por via desse critério.
Noutra parametria, a Requerida alega que a interpretação promovida pela Requerente da dedutibilidade fiscal dos encargos financeiros suportados, à luz do disposto no artigo 23.º do Código do IRC, apresenta-se como frontalmente violadora dos princípios da igualdade, da tributação pelo lucro real e da capacidade contributiva.
A Requerida pronuncia-se, ainda, no sentido da legalidade da liquidação de juros compensatórios, a qual resulta da violação de normas estabelecidas no Código do IRC, sustentando que inexistem quaisquer vícios que afetem esse ato tributário e determinem a sua anulação, resultando da factualidade dos autos que existiu um retardamento, causado pela Requerente, da liquidação de imposto.
Por fim, a Requerida contesta o invocado direito a indemnização por prestação indevida de garantia, dizendo que este pedido deve improceder por força da improcedência do pedido principal e, ademais, a Requerente não indica ou, muito menos, prova se prestou efetivamente garantia, quando é que a prestou, qual o seu valor e qual o montante de encargos suportados ou a suportar.
A Requerida remata assim o seu articulado:
- ser julgado procedente a ampliação da causa de pedir na medida em que a Requerente suscita vícios procedimentais que não foram arguidos em sede de reclamação graciosa não tendo a Requerida se pronunciado sobre essa matéria:
- deve o presente pedido de pronúncia arbitral ser julgado improcedente por não provado.»
4.2. Posteriormente, a Requerida juntou aos autos o respetivo processo administrativo
(doravante, abreviadamente designado PA).