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NO INÍCIO: UMA DIVISÃO BALANCEADA DE TAREFAS E

3 UMA HISTÓRIA DAS MASCULINIDADES

3.2 A CONSTRUÇÃO DOS VALORES MASCULINOS

3.2.1 NO INÍCIO: UMA DIVISÃO BALANCEADA DE TAREFAS E

De início, mencionaremos dois fatos hoje aceitos por praticamente todos os estudiosos e pesquisadores, no que diz respeito aos sexos: primeiro é que

sempre se percebeu uma diferenciação entre eles, tendo como base as

diferenças físicas, não existindo ao longo da história, evidências de uma cultura que não os diferenciasse ou diferencie; e segundo, que, além disso, entre os seres humanos, sempre ocorreu a divisão das tarefas baseada na elaboração dessa diferença sexual, o que acaba por ser uma diferença importante e uma especialização da espécie humana com relação às demais.

E essa forma exclusiva de relações dos grupos humanos se deve principalmente ao seu regime alimentar, que acaba por implicar nessa divisão das tarefas e dos recursos, onde cabe ao homem a tarefa da caça e à mulher cabe a colheita.

Mas se existe um consenso hoje, sobre a existência da divisão sexual das tarefas, o sentido que se dá a ela é causa das mais divergentes opiniões. E tais opiniões, mais do que baseadas em argumentos e descobertas “científicas”

parecem se constituir como um revisionismo ideológico, onde as opiniões pessoais e preconceitos dos pesquisadores a respeito do tema acabam por determinar muito de sua teoria. Por muito tempo se considerou a caça como o principal vetor de desenvolvimento intelectual e social do homem. Badinter (1986) explica o que propõe E. Morin nesse sentido.

...a caça na savana desenvolveu o sentido e a inteligência no homem, ensinando-o a interpretar os estímulos sensoriais, confrontando-o com os animais mais astutos e estimulando suas aptidões estratégicas: atenção, tenacidade, combatividade, audácia, engodo, astúcia, armadilha, espreita. É indiscutível que ela foi um fator poderoso de socialização, já que, caçando, os homens aprenderam a cooperação, a transação e as regras de distribuição (p.36).

Já a atividade das mulheres, a coleta, ainda segundo E. Morin, por ser considerada mais fácil e tranqüila, as levava a um marasmo, pouco estimulante, e devido a isso foram descritas por ele como mais lentas e fracas, menos coordenadas, caindo numa espécie de subcultura, e se desenvolvendo de maneira bastante tardia com relação aos homens, se é que, de acordo com Morin, um dia chegaram ao nível deles.

Badinter (1986), no entanto, mostra que apesar de a caça provavelmente ter realmente proporcionado ao homem esse desenvolvimento de que fala E.Morin, a antropóloga Adriene Zilhman se contrapõe a esse argumento ideológico, explicando que menos não se deveu à coleta, com relação às mulheres, pois

...se tratava de uma atividade perigosa, que exigia muito mais inteligência e energia por parte das mulheres pois elas não tinham as aptidões físicas de seus companheiros. Elas tiveram que praticar a arte de coletar rápida e eficazmente plantas nutritivas, aprender a utilizar instrumentos e aguçar a percepção do perigo. Além de tudo, as mulheres ainda tinham que de ser capazes de manter uma atenção constante, de modo a satisfazer as necessidades de seus filhos: protegê-los alimentá-los, distraí-los, prepará-los para a vida (p.37).

Percebemos claramente como elementos presentes no modelo de masculinidade contemporâneo como a razão e a presença do caráter ativo no que se considera masculino, em contraposição à passividade do feminino,

contribuem para a elaboração de teorias que servem simplesmente para dar estatuto de verdade a esses elementos. Também é interessante destacar como um contra-argumento pode facilmente se opor a ele, mesmo que baseado em evidências provavelmente tão válidas quanto as que sustentam o argumento “ideológico”, e que também está vinculado à posição política (e no caso, feminista) do pesquisador. De qualquer forma, verdade ou não, o importante aqui é perceber esses elementos (razão e atividade) já se articulando em um determinado modelo masculino (e também a luta para desconstruí-lo).

Avançando mais um pouco, entramos na questão mais polêmica, e também mais importante para nós, neste trabalho, da evolução da relação entre os sexos: o poder, ou melhor dizendo, a distribuição dos poderes.

Badinter (1986) mostra com detalhes vários tipos de relação de poder que, poderiam ter existido no paleolítco e teorias que baseadas nesses tipos, conferem a um ou a outro sexo maior predominância e importância. Nosso interesse refere-se somente aos tipos de poder predominantemente simbólicos e por isso nos ateremos somente a eles.

Existem dois posicionamentos contrários no que diz respeito ao jogo de poder entre os sexos no paleolítico. O primeiro informa que todo o poder era exercido pelo homem e que à mulher ficava reservado apenas um lugar de submissão. E. Morin ilustra esse posicionamento descrevendo uma silhueta onde encontra-se a imagem de um caçador, ereto, com a arma em riste, enfrentando um animal, à qual se opõe uma mulher curvada, submissa, cuidando de uma criança ou apanhando um vegetal.

E de fato, mais do que ao dimorfismo sexual propriamente dito, que confere aos homens maior massa corporal, qualquer tipo de poder conferido ao homem se devia ao valor simbólico que era conferido ao caçador, que enfrentava riscos, perigos enormes, e a própria morte o tempo todo para conseguir alimento, e defender a caverna contra outros animais. É interessante como até os dias atuais é conferido, tanto por homens, quanto por mulheres, um alto valor simbólico à questão do risco e do perigo. Kimmel [s/d (b)] explica como atualmente, os filmes e a mídia em geral valorizam de sobremaneira certos

aspectos da masculinidade que fazem com que garotos jovens exagerem os estereótipos tradicionais que englobam a força, o falso controle e a coragem de se arriscar. O autor também expõe como a valorização masculina do risco dificulta a conscientização dos homens no que diz respeito, por exemplo, ao uso de preservativos nas relações sexuais. Copes e Hochstetler (2003) que se utilizam do método da análise situacional, que se constitui em levantar o máximo de informações sobre as situações imediatamente anteriores ao cometimento de um crime, focalizando essa análise nos perpetradores, buscam elementos de masculinidade nessas situações. Elementos que podem estar influenciando na escolha pelo cometimento desses crimes. Os autores descobrem que o enfrentamento de riscos é fator determinante na decisão de criminosos jovens para cometimento do crime, sendo sua recompensa o reconhecimento de sua masculinidade por parte de seus colegas, ao mesmo tempo que uma hesitação nesse sentido não ocorre sem a desqualificação do hesitante por seus companheiros.

O segundo posicionamento, defendido em sua maioria por militantes radicais feministas defende que os poderes eram totalmente compartilhados, onde todas as decisões seriam tomadas em conjunto e as mulheres possuíam algum tipo de poder político e esse poder seria advindo principalmente do que se chama direito materno, que se sustenta no fato de que a filiação mãe/filho é incontestável, enquanto a paternidade pode ser contestada. Isso seria então a base da família, que seria matrilinear.

Badinter (1986) no, entanto, propõe uma outra hipótese, na qual os poderes seriam em certa medida balanceados, como propõem as teorias mais feministas, mas esse balanceamento não implica numa igualdade de poderes. Os poderes seriam, portanto, diferentes. Ao poder dos caçadores, opõe-se, portanto, um outro, exercido pelas mulheres: o da procriação. Nesse sentido, portanto, enquanto os homens possuíam o poder de tirar a vida, as mulheres eram as únicas capazes de criá-la, mesmo porque admite-se que no paleolítico, ainda não se havia estabelecido a relação entre o ato sexual e a fecundidade. O papel do homem na procriação, portanto, era desconhecido.

As silhueta descrita por Morin, sob outro ponto de vista, portanto, não indica uma submissão da mulher, mas, como enfatiza Badinter (1986), serenidade e poder.

Ao poder sócio-político conferido ao homem, devido ao prestígio simbólico do caçador, equipara-se o poder místico e cósmico das mulheres, a elas conferidos por serem as únicas capazes de “criar” a vida.

... podemos supor que a sociedade era dividida em duas esferas sexualmente separadas, porém articuladas. Que, em sua respectiva esfera, cada um controlava diferentes tipos de recursos e, por essa razão, exercia sobre o outro, sob diversos modos e em diferentes graus, um poder específico (p.54).

E esse poder, como veremos, logo é estendido à agricultura, onde a mulher, de maneira mágica e sobrenatural, era responsável por uma boa colheita.

Esse fato é importante porque mostra como, na medida em que o paradigma racional, técnico-científico vai se tornando predominante, atingindo seu auge na modernidade, ao ponto em que tudo o que é considerado como místico vai sendo totalmente desqualificado, a isso corresponde, em parte, a ascensão da dominação masculina, visto estar o homem sempre vinculado à razão e à ciência, e a mulher, ao místico, ao descontrolado e às emoções. Connel (1995) argumenta que:

Ciência e tecnologia, vistas pela ideologia dominante como motores do progresso, são culturalmente definidas como pertencentes ao reino masculino. A masculinidade hegemônica estabelece sua hegemonia parcialmente por incorporar o poder da razão, assim representando os interesses de toda a sociedade; é um erro identificar a masculinidade hegemônica puramente com agressão física8 (p.164).

Antes disso, no entanto, existiu um período em que o misticismo e o poder sobre a vida, agora vinculado também à agricultura, predominou,

8 Science and technology, seen by by the dominant ideology as the motors of progress, are

culturally defined as a masculine realm. Hegemonic masculinity estabilishes its hegemony partly by its claim to embody the power of reason, and thus represent the interests of the whole society; it is a mistake to identify hegemonic masculinity purely with physical aggression.

concedendo às mulheres um prestígio que não pode ser verificado em nenhuma outra época: é o culto à Deusa-mãe.

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