No ponto anterior, percorremos alguns passos trilhados por Caminha.
Agora, observaremos que essa caminhada não foi unidirecional, específica para as
novas terras do novo mundo a serem colonizadas, mas, essas terras estavam no meio
do caminho. Sim, havia uma terra no meio do caminho, terras essas que foram
achadas por Caminha, pois teve o encontro com o conhecido e desconhecido.
Conhecido por se saber da existência das terras e desconhecido, por não se ter a
dimensão exata da terra e nem o que nela, especificamente, seria encontrado.
Portugal tem em seu espaço territorial, uma ampla visão do oceano e,
pensando nesses termos, é o país europeu que ocupa um local mais privilegiado com
relação ao Atlântico. O escrivão, cujo texto tomamos para análise, parte de um
caminho também privilegiado e para um caminho que vinha sendo construído por
várias décadas pelas empreitas ultramarinas dos portugueses. O desbravar alguns
caminhos insólitos, como o transpor o Cabo das Tormentas/Boa Esperança em 1488,
serve de referência a provar que as “grandes navegações” não foram somente
àquelas que aportaram na América.
A navegação na qual Caminha estava foi mais uma, dentre tantas outras já
realizadas pelos portugueses, pois outras “conquistas” portuguesas já haviam sido
realizadas e relatadas. Também não foi a última empreendida por Portugal apesar dos
problemas que a frota de Cabral enfrentou. Penha (2011, p.26-27) nos lembra que
desde 1419 novas expedições portuguesas procuraram alcançar lugares até então
não dominados pelas navegações anteriores, e como exemplo, cita o fato de
para ultrapassar o Cabo bojador, ao sul do Marrocos, tido como obstáculo mitológico incontornável, necessitou-se de 15 anos (1419-1434); de Bojador até Gâmbia (1.500km) a expedição levou dez anos (1435-1445); levou-se mais 15 anos para percorrer 2.000km até o Golfo da Guiné; e partindo da embocadura do Rio Congo precisou de mais outros seis anos para atingir o Cabo da Boa Esperança (2.500km), alcançada por Bartolomeu Dias em 1488. Dez anos depois, (1498) Vasco da Gama atinge enfim a Índia. Em suma, foram necessários três quartos de século para que os portugueses alcançassem seu objetivo principal que era o de assegurar o domínio da rota Atlântico-Índico, a partir do funcionamento entre Lisboa e Goa da Carreira da Índia.
Esses, entre outros exemplos, nos mostram a “vocação” marítima dos
portugueses e o desbravar por mares nunca dantes navegados antes que Caminha
participasse e assim o noticiasse ao rei sobre a navegação em que esteve em 1500.
Caminha não teve como objetivo último chegar as terras do novo mundo e
nelas permanecer ou ainda retornar diretamente para Portugal. A chegada até as
novas terras, as terras de vossa alteza como escreve, foi uma das etapas da viagem
na qual Caminha estava presente sendo que seu destino era Calicute, na Índia, e não
a permanência nas terras do novo mundo.
Essas terras do meio do caminho, que foram avistadas em uma
quarta-feira, 22 de abril de 1500, foram terras descobertas/encontradas como por obra do
acaso ou foram achadas mediante informações anteriores? Em resposta a esse
questionamento, podemos afirmar que sim e não, como veremos em seguida.
Pelos portugueses, foram terras descobertas, pois não tinham
conhecimento preciso da extensão dessas terras, apenas o conhecimento da
existência das mesmas. Não foram terras “descobertas” se tomarmos a expressão
como algo que primeiro ocorreu, pois, a terra já era habitada, portanto outros
“descobridores” primeiro chegaram. Tomaremos então a expressão que Caminha
utiliza, a saber, o achamento das novas terras.
Caminha (2015, p.13) escreveu, nas primeiras linhas de sua Carta,
informando sobre “a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta
navegação se achou”. Na Carta, não conseguimos encontrar nenhuma informação
que aponta para o fato da esquadra ter-se perdido ou mesmo chegado ao novo mundo
por obra do acaso, como um acidente no percurso pois, apesar de pouca informação
sobre a perda do navio de Vasco de Ataíde, não existem informações na carta sobre
outros problemas que fizeram com que a esquadra cabralina tivesse rumado a outra
direção não planejada, quer por um erro de manobra de Cabral, quer por outras
circunstâncias que conduziram as embarcações acidentalmente as novas terras, ao
contrário, a sequência do relato, nos mostra uma viagem dentro dos padrões da
época, sem maiores complicações.
Segundo Costa (1988, p.43) versões sobre o “descobrimento” acidental das
novas terras foram escritas por cronistas mais de meio século depois do ocorrido e as
informações na Carta desmentem tais colocações, pois algumas questões básicas
não são respondidas, entre elas, como uma calmaria ou mesmo tempestade teria
direcionado a frota de Cabral para as novas terras e, no entanto, a frota chegou com
apenas um navio a menos, mas esse fato é tomado por Caminha e descrito em sua
Carta, embora
não se entende então que esse mesmo homem relate a perda de uma nau e dos seus tripulantes sem uma palavra de tristeza, de lamento ou de entrega a Deus dessas vidas. E quase chega a ser revoltante a simples frase que dedica às buscas empreendidas pelo Comandante para encontrar o navio desaparecido(...)
Essa indagação é explicada pelo mesmo Costa (1988) como uma forma
consciente de manter sigilo sobre a navegação realizada pelos portugueses, em um
contexto onde informações precisas sobre as navegações e principalmente sobre
terras encontradas no além-mar eram de extremo valor.
Como não encontramos então na Carta nenhuma indicação da dispersão
da frota ou mesmo outra indicação que nos provam problemas além dos corriqueiros
na navegação
19, pelos indícios da Carta, podemos afirmar que a viagem fora
intencional, com os rumos já conhecidos, faltando apenas os detalhes das novas
terras, detalhes esses que Caminha irá procurar “tudo vos dizer” ao rei.
Ainda, como uma questão presente na Carta, temos dois degredados que
foram deixados na terra. Segundo Ferreira (1948) ainda não existia a ordem de
degredo para as Índias, destino final da frota cabralina, nem tampouco Cabral podia
desobedecer uma ordem ou simplesmente deixar os degredados em outro local que
não tivesse anteriormente determinação real. Para servirem de tradutores para a
Índia, não teriam os degredados tal função, pois tinham tradutores presentes na
esquadra cabralina bem como em razão de contatos anteriores, se ter o conhecimento
das línguas, restando portanto a indicação do fato dos degredados à bordo terem
como destino certo as terras do novo mundo, somando mais um fator para a
intencionalidade da viagem às “terras de vossa alteza”.
Quando tomamos outros dois documentos contemporâneos, como a
Relação do Piloto Anônimo e a Carta do Mestre João Farás, somadas ao relato de
Caminha, fica evidente que as terras não foram descobertas ou encontradas
casualmente, sem intencionalidade, mas sim que o fato de chegarem às terras do
novo mundo fora algo planejado e intencional. Caminha escreve com uma fluidez na
qual transparece o fato de estar presente na expedição justamente para narrar os
detalhes da terra da qual Portugal viria posteriormente a ocupar.
Exterior a expedição de Cabral, podemos tomar como testemunha para as
afirmações acima, o Tratado de Tordesilhas
20, assinado entre Portugal e Espanha em
1494. De acordo com Garcia (1994, p.15), esse tratado estabelece que para “Portugal
19 Podemos lembrar da alimentação que geralmente era insuficiente e a perca de alimentos era frequente. Pe. Jerônimo Lobo descreve em seu Itinerário (1621) que os alimentos são ruins e estragados, as carnes por vezes podre e ardida. Apesar de mais de um século depois da viagem na qual estava Caminha, podemos imaginar as dificuldades de uma viagem naquele contexto.
20 Tratado que tem sua origem na Bula Intercoetera de 3 de maio de 1493 mas o Tratado de Tordesilhas em comparação com a Bula tem o deslocamento da linha meridional a 370 léguas a oeste dos Açores e das Ilhas de Cabo Verde, sendo o Tratado assinado em 7 de junho de 1494. A Bula estabelecia que todas as terras ou ilhas que fossem encontradas a partir dos Açores e Cabo Verde pertenceriam à Espanha, e no Tratado, temos as localidades que distam mais de 370 léguas e não todas as localidades a oeste.
ficava reservada a parte oriental, na qual se viria a incluir o Brasil, o litoral africano e
vastas zonas da Ásia”. Temos portanto, seis anos antes de Caminha e os demais
terem avistado terra, esse referido tratado que justamente delimitava os territórios que
pertenceriam à Espanha e a Portugal, portanto na soma das informações presentes
na Carta, como a ausência de temporais ou outras questões que gerassem um grande
desvio da rota, a vinda de degredados que foram deixados na terra para entendimento
da língua dos nativos, e externa à Carta, temos o Tratado de Tordesilhas como
principal documento, onde então, podemos afirmar que a esquadra de Cabral e seu
escrivão oficial, Pero Vaz de Caminha, sabiam exatamente para onde estavam
navegando apesar de não saberem como exatamente era a terra, principalmente na
descrição detalhada da extensão e relevo da mesma. A terra do meio do caminho foi
achada, mas não por obra do acaso ou um erro na navegação que fizesse com que a
esquadra tivesse mudado radicalmente a direção inicial, mas sim um encontro
intencional. A terra foi “achada” intencionalmente.
A grandiosidade dos feitos portugueses, dos quais Caminha participa de
um deles, mas extremamente significativo, é descrita por Pedro Nunes, citado por
Barreto (1988, p.22) como
(...) as maiores, mais maravilhosas, de mais altas e mais discretas conjecturas, que as de nenhuma outra gente do mundo. Os Portugueses ousaram cometer o grande mar oceano. Entraram por ele sem nenhum receio. Descobriram novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos, e que mais é, novo céu e novas estrelas (...) ora manifesto é que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram indo a acertar, mas partiam os nosso mareantes muito ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria.
Caminha auxilia na compreensão que havia uma terra no meio do caminho,
na realidade, mais uma dentre outras terras no caminho de Portugal através do mar,
e que nessa terra existiam povos, como em outras terras descobertas mas com suas
peculiaridades, onde a constante descrição da nudez dos nativos assim nos permite
afirmar. Sobre essa terra específica que estava no meio do caminho e os povos que
habitavam essas terras, temos o discurso do colonizador português sobre eles. Terras
não descobertas por obra do acaso como já mencionamos anteriormente, mas sim
como fruto de longos anos, até mesmo séculos de avanços na navegação, sendo
portanto, terras e povos a serem somados às conquistas e descobrimentos anteriores
por parte do reino lusitano.
Cortesão (1922, p.201), ao se referir aos feitos da esquadra capitaneada
por Cabral em relação à descoberta das novas terras, assim informa:
Iniciou Pedro Alvares Cabral os dois actos políticos mais grandiosos de toda nossa história, - o império económico do Oriente e a colonização do Brasil. Como hoje do primeiro quási que só restam, padrões da vasta rota, as nossas colónias africanas, os historiadores contemporâneos ligam-lhe o nome, por via de regra, apenas ao segundo desses feitos. Não obstante, o alcance da viagem de Pedro Alvares, dentro de sua época, provém de que êle revelou à Europa, em toda a grandeza magnífica, o plano nacional dos descobrimentos, tão longa e ocultamente conduzido e realizado.
Cabe-nos, analisarmos o discurso realizado sobre essa nova terra e sobre
os povos nela encontrados, o discurso que segundo Cortesão (acima citado) retrata o
evento de maior grandiosidade para a história de Portugal e dos portugueses.
Verifiquemos na Carta como se faz presente o discurso de Caminha sobre os povos
e sobre a terra descobertos.
3 O DISCURSO PRESENTE NA CARTA DE CAMINHA
Após termos apresentado os fundamentos sobre os quais estamos
apoiados para realizar a análise da Carta de Caminha no primeiro capítulo e no
segundo capítulo termos contextualizado a Carta através dos apontamentos históricos
sobre a Carta e sobre Caminha, neste terceiro capítulo apresentamos nossa análise.
Cientes de que estamos analisando um texto e que essa análise é marcada
pelas condições de quem a realiza, pois o sujeito que analisa a Carta de Caminha
também é assujeitado pelos discursos que nele perpassam e também direcionam
seus olhares, assim como Caminha enxergou o que queria enxergar e disse não
apenas o que foi dito, mas disse o que queria e como lhe era possível dizer, tendo em
conta seu enunciatário, nossa análise também será marcada por esses limites pois
iremos enxergar o que queremos enxergar na Carta, diremos o que queremos dizer e
como nos é possível dizer, pois nossa formação ideológica e formação discursiva
assim também nos condiciona.
O “enxergar” o outro por parte de Caminha, é realizado, como nos lembra
Limberti (2012, p.17), como o ver os sujeitos
como espelhos, com graus de efeitos óticos diversos. Se pertencem à mesma comunidade, os efeitos tendem a refletir imagens de identidade; se pertencem a comunidades diferentes (aqui incluídas culturas e civilizações diferentes), os efeitos tendem a refletir imagens de contraditoriedade, contrariedade, oposição e incongruência.