Ao longo da história do jornalismo e do humorismo no Brasil, O Pasquim foi, sem dúvida, uma referência obrigatória. As primeiras colaborações de Campos de Carvalho vieram em uma seção
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Tratavam-se, como já indiquei, de suspeitas que não se confirmaram.
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A Lua Vem da Ásia: 1977 (3ª edição) e 1984 (4ª edição) pela Editora Codecri, do Pasquim; Vaca de Nariz Sutil: 2ª edição pela Civilização Brasileira, em 1971 e 3ª edição pela Codecri, em 1978; A Chuva Imóvel: XX
intitulada “As Cartas do Campos de Carvalho”, a partir de janeiro de 1974. Pela pauta, o escritor fazia as vezes de viajante-correspondente, dando notícias de suas andanças pela Europa. Nas onze Cartas que publicou temos a dicção do turista-aprendiz-galhofeiro, que, a partir de sua condição de forasteiro que se aventura sem eira nem beira por terras estrangeiras, recolhe do mundo que lhe é estranho um sentido momentâneo para sua vida. Os temas dominantes são previsíveis: a dificuldade de adaptação ao lugar, o clima, os costumes, os traços culturais, os idiomas que não se entendem, a comida, as comparações, as saudades — literatura de viagem, enfim. Claro que para tornar tudo isso adequado ao paladar do Pasquim era necessário o tempero da pena de um escritor de peculiar talento nas searas do humor e da irreverência. É o que nos aponta uma das “Cartas”, publicada em fevereiro de 1974.
“Londres, novembro de 1972.
“Meu caro.
“Se Lisboa logo à primeira vista parece tipícamente lisboeta, Londres então é você vê-la e exclamar: “Isto sim é que é uma cidade londrina”!
“Tive sorte em enxergá-la logo no segundo dia, pois tenho um amigo que ficou aqui três semanas e só conseguiu ver neblina: acabou indo ao oculista pensando que estava com catarata. Aliás, diga-se a meu favor que tenho carregado o SOL comigo por tudo quanto é lugar por onde passe: dos 70 dias que fiquei em Paris, Paris me ficou devendo exatamente 65 dias de sol: recorde absoluto. Um frio de rachar — mas sol.
“Na véspera de vir para Londres comprei um livrinho desses de bolso cujo titulo me pareceu sugestivo: Comece a Falar Inglês Hoje Mesmo. De fato, já no dia seguinte eu falava o inglês corretamente, só que os ingleses aqui pareciam não entender muito bem, como ainda continuam não entendendo: em compensação diga-se que eu os entendo ainda muito menos. Tenho procurado usar a mímica dos dedos como fazem os mudos, mas o frio é tanto que meus dedos ficam enregelados e só consigo me expressar em poucas palavras — o suficiente para não morrer de fome. (O curioso é que sempre li o inglês, conheci no original Byron, Shakespeare, Wilde, Thoreau, Walter Patter,
Virgínia Woolf, Shaw, Poe e tantos outros — e mesmo aqui compro o ‘Sunday Mirror’ e leio-o de fio a pavio, resolvendo até as palavras cruzadas: na hora de pedir água no restaurante é que são elas — invariavelmente me trazem uma torta de qualquer coisa.)
“Os táxis em Londres têm, todos, cara de popô de mulher velha. Pertencem ao Serviço do Patrimônio Histórico e só saem a rua mais como atração turística — embora você possa entrar neles e ir de um lugar para o outro, pagando naturalmente o preço da viagem. O trânsito, como se sabe, é aqui invertido, vai-se pela esquerda e volta-se pela direita — e o chofer guia junto à porta da direita, que ele não é besta nem nada. Já fui atropelado três vezes. O ônibus tem dois andares mas parece ter vinte, e seu equilíbrio é tão instável quanto a atual situação política argentina: acho que exagero um pouco. Metrô aqui é Underground: acabou-se aquela mamata de Lisboa, Madri, Barcelona, Paris. Por enquanto ainda estou só farejando: isso de underground me lembra literatura underground que nem a minha, o que é sempre perigoso.
“As paredes em Londres realmente falam e gemem à noite, pelo menos as do hotel onde estou. Você está tranqüilamente lendo o seu jornal quando dão três batidinhas ao lado da sua cama, tenha porta ou não tenha porta — e depois das batidinhas vêm uns estalidos que tanto parecem beijos como tampas de esquifes se abrindo, acompanhados de sussurros quase imperceptíveis e vozes que mais parecem vozes de baratas ou de aranhas. Posso garantir que não se trata nem da calefação nem de nenhum casal no quarto ao lado fazendo o amor e, segundo minhas deduções metafísico-agnósticas, deve tratar-se mesmo é de autênticos fantasmas ingleses, do segundo time evidentemente pela modesta categoria do meu hotel. Dizem que nos melhores hotéis os fantasmas cantam até árias de óperas famosas, com dó de peito e tudo, e vestidos a caráter como manda a alta condição dos hóspedes. De qualquer forma a existência do fantasma inglês ficou mais uma vez comprovada, e para isso tive que vir até aqui pessoalmente.
“É evidente que ainda não conheço Londres como a palma da minha mão —embora na verdade conheça muito pouco a palma da minha mão, que trago sempre voltada para baixo. Mas, como bom colegial em férias, já vi o Tâmisa, o Piccadilly Circus, um pedacinho do Hyde Park, a privada londrina que é incomparavelmente melhor do que a parisiense—um inglês de chapéu-coco, cachimbo e guarda-chuva — dois cachorros cheirando a cauda um do outro — a Regent Street, a Edgware Road, a Oxford Street e outras milongas. O Big Bem ainda não vi, graças a Deus.
“Já deu para perceber também que o famoso sense of humour inglês está em vias de extinção, se é que realmente existiu algum dia: a novíssima geração londrina julga-se engraçadíssima (parece que o mal é universal) e morre de rir com tudo o que você faça ou deixe de fazer na rua: ser atropelado e morto, por exemplo. São uns jovens de sexo indefinido, unissex ao que parece, geralmente aos grupos ou magotes (sozinhos fazem o nº2 nas calçadas) — que não fazem outra coisa na vida senão zombar das últimas coisas sérias ainda existentes, e que por morarem em Londres acham que o resto do mundo é uma corja de imbecis, sem eira nem beira. Já comecei a fazer... em cima deles.”
“O abraço do
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Praticando epistolografia (bem moderna) depois de sete anos recolhido, Campos de Carvalho retornava à boa forma por intermédio de uma literatura que não almeja grandes vôos para além da simplicidade e da habilidade modesta em captar o trivial. Embora se tratasse de uma experiência inesperada, os textos se adequaram muito bem ao novo perfil. Faço supor em função disso que a aproximação do escritor com O Pasquim procedeu, mais do que de uma coincidência de propósitos, de uma visceral identificação entre os ingredientes de seu discurso e as fórmulas de discurso sobre as quais o periódico se sustinha. Foi uma feliz coincidência para ambos. O jornal foi para ele mais do que um espaço para a publicação de seus textos e o seu conseqüente retorno à convivência com o público. A permanência se constituiu como uma espécie de terceira vida literária para o autor — a primeira, que ele havia renegado, ficara encerrada em Banda Forra, Tribo e nos poemas que nunca chegou a publicar; e a segunda, representada pelos vendavais A Lua Vem da Ásia, Vaca de Nariz Sutil, A Chuva Imóvel e O Púcaro Búlgaro que provocaram o que toda tormenta provoca: muda tudo de lugar, deixa marcas profundas, destrói algumas coisas que parecem inamovíveis mas também impõe à terra pela qual passou um longo tempo de esterilidade. Essa terceira vida literária estava por se construir como uma
forma de desimpedimento, tanto da sombra de seus principais livros quanto de problemas como a busca obstinada de uma obra perfeita. A prática certamente o ajudava a compreender melhor que a literatura também se faz por intermédio de escritos que não possuem a perenidade como meta. Essa fase foi sobremaneira proveitosa, principalmente porque permitiu a sobrevivência da coleção de Cartas e Crônicas de Campos de Carvalho. Não obstante, ele cumpriu somente o primeiro ato de sua terceira vida de escritor. Depois se retirou, antes de findo o espetáculo.