ESTADOS GOVERNADORES
Amazonas João Valter
Pará Fernando Guilhon
Maranhão Pedro Neiva de Santana
Ceará Cesar Cals
Pernambuco Eraldo Leite Gueiros
Sergipe Paulo Barreto
Espírito Santo Arthur Gerhardt Santa Catarina Colombo Machado Sales
Goiás Leonino Caiado
Acre Wanderlei Dantas
Piauí Alberto Tavares Silva
Rio Grande do Norte Cortês Pereira
Alagoas Afrânio Lages
Bahia Antonio Carlos Magalhães
São Paulo Laudo Natel
Mato Grosso José Fragelli
Rio Grande do Sul Euclides Triches
Minas Gerais Rondon Pacheco
Rio de Janeiro Raimundo Padilha
Paraíba Ernani Sátyro
Guanabara Chagas Freitas45
Fonte: Diário da Borborema, 9 jul. 1970.
Dos vinte e dois governadores escolhidos é possível fazer uma separação baseada entre “políticos” e “técnicos”46, ou seja, foram selecionados para ocupar os cargos de
chefes do executivo estadual, pessoas que já tinham uma vivência política, mas também outras que tinham apenas uma atuação anterior na área técnica de cargos burocráticos. A formação deste quadro político de governadores expressa a perspectiva que era colocada como lema governamental do general-presidente Emílio G. Médici, que era “Segurança e Desenvolvimento” (que analisaremos mais adiante nos capítulos 2 e 3, respectivamente).
Como parte desse panorama mais geral, podemos nos debruçar sobre a passagem política de João Agripino para Ernani Sátyro. A respeito deste ponto, não há um consenso sobre a influência do então governador João Agripino na escolha do nome de Ernani Sátyro. De acordo com a autora Monique Cittadino, no livro Ditadura Militar e Poder Local há uma divergência nos relatos de João Agripino e Ernani Sátyro relacionados a essa transição. A partir do relato de João Agripino, dá-se a entender que o nome de Ernani Sátyro foi escolhido a partir do aval que havia, inclusive da parte dele como governador, para que Sátyro fosse o escolhido por Médici. No entanto, no relato de Ernani Sátyro não há menção desta interferência de João Agripino, pois segundo o político patoense, seu nome havia sido escolhido apenas pelo general-presidente Médici47 (CITTADINO, 2006, p. 344). Por outro lado, é preciso considerar que quando esses relatos foram feitos em 1977
45 O caso de Chagas Freitas foi uma “exceção”, já que ele foi o único governador escolhido que pertencia ao MDB. Isso ocorreu porque a maioria dos deputados estaduais da Assembleia Legislativa do estado da Guanabara eram do MDB. No entanto, essa “exceção” não era um “ponto fora da curva” para os militares, tendo em vista o próprio perfil de Chagas Freitas, que sempre foi um apoiador da ditadura e, ainda assim, posteriormente, a Assembleia Legislativa do estado da Guanabara foi fechada por intervenção dos militares.
46 Esta divisão entre “políticos” e “técnicos” foi lançada pela colunista Graziela Emerenciano, do Diário da
Borborema no dia 11 jul. 1970. No entanto, apesar desta separação servir como um parâmetro de análise, a
combinação entre os “políticos” e os “técnicos” tinha uma proposta de governo baseado na centralização e maximização das ações de coerção (verificado com os “anos de chumbo”) mas também de expansão do capitalismo (através do “milagre econômico”). Portanto, retomaremos com mais ênfase essa combinação nos capítulos seguintes.
47 A autora Monique Cittadino utiliza a entrevista de Ernani Sátyro concedida à Fundação Getúlio Vargas
havia uma disputa entre Sátyro e João Agripino em torno da hegemonia interna da ARENA paraibana. Portanto, tal questão a respeito da possível influência de João Agripino na escolha do nome de Ernani Sátyro fica esmaecida diante da divergência que havia entre os dois políticos que resultou na produção de diferentes narrativas sobre a passagem de governo.
O que não se pode negar de fato, tendo em vista que se trata de uma característica inerente a todo o processo, é que a palavra final era dada pelo general-presidente Médici. Como veremos adiante, o que prevaleceu como um parâmetro geral para a escolha dos governadores foi o histórico político dos sujeitos, suas ações de apoio aos militares e a posição de classe na estrutura social.
A partir destes fatores, Ernani Sátyro foi escolhido para ser governador do estado da Paraíba entre os anos de 1971 e 1975. Pois, como vimos ao longo deste primeiro capítulo, o histórico político de Ernani Sátyro foi de estrita vinculação com as forças conservadoras: era da UDN - partido que no espectro poderia ser colocado como aquele situado mais à direita, se comparado com os outros partidos - participou ativamente do desgaste e da deposição política do presidente Jango, integrou o Bloco Parlamentar Revolucionário, teve sua candidatura salva pela intervenção do general-presidente Castelo Branco, foi líder da ARENA e do governo Costa e Silva na Câmara dos Deputados e foi ministro da mais alta corte militar do país, o Superior Tribunal Militar.
Portanto, quando o general-presidente Médici bateu o martelo na escolha de Ernani Sátyro para o cargo de governador e Clóvis Bezerra para vice-governador e encaminhou os nomes à Assembleia Legislativa para que fossem “votados” pelos deputados estaduais no dia 3 de outubro de 1970, o resultado não poderia ser diferente: 22 votos garantiram a “vitória” de Ernani Sátyro e Clóvis Bezerra. Na ocasião os 12 deputados do MDB compareceram à sessão48, mas se abstiveram do voto, afinal de contas, como já refletimos
anteriormente, qual Casa Legislativa seria capaz de se contrapor aos nomes impostos pelo presidente? Eram eleições com os nomes vencedores já conhecidos.
No momento e nas circunstâncias políticas em que estava o Brasil, os militares já tinham dado provas suficientes de que qualquer medida fora das amarras implementadas, a máquina repressiva era acionada através de vários mecanismos coercitivos como:
48 O Diário da Borborema do dia 3 out. 1970 noticiava: “MDB comparece às indiretas, mas não vota em
cassações, perda de mandatos e direitos políticos, fechamento do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras Municipais.
Assim, sob tais circunstâncias, Ernani Sátyro tornava-se governador do estado da Paraíba: graças a escolha de Médici e pelos votos da bancada arenista na Assembleia Legislativa da Paraíba. O Diário da Borborema lembrou que Ernani Sátyro se juntava à galeria dos governadores da Paraíba que haviam assumido ao cargo indiretamente, isto é, sem o voto direto da população. Galeria composta por políticos como: Venâncio Neiva, Álvaro Machado e Argemiro de Figueiredo. Outro detalhe é que tal enredo representava uma quebra na democracia do estado, pois, se por um lado, desde 1947, os governadores escolhidos até então, tinham sido eleitos pelo voto direto; 34 anos depois, as “eleições” de 1970 significaram mais um dos episódios que expressavam o autoritarismo e a intervenção militar nas esferas sociais e políticas.
Esta situação leva a questionar o seguinte: será que se não fosse pela conjuntura política de alijamento popular das decisões, em que a regra geral era intervenção e repressão sistemática nos campos do poder público e se vigorasse condições democráticas, será que Ernani Sátyro teria sido escolhido como governador através do voto popular? Esta é uma pergunta impossível de responder, tendo em vista que Ernani Sátyro nunca concorreu ao cargo de governador em cenários de ordem democrática49. Todavia, nos leva a refletir a respeito das limitações no apoio popular que Ernani Sátyro e os demais governadores de chumbo tinham nas suas respectivas bases estaduais.
Ainda sobre este aspecto que busca problematizar sobre a legitimidade/popularidade no caso específico de Ernani Sátyro, na mesma edição do Diário da Borborema que detalhou as nuances da votação que representou a “vitória” de Ernani na Assembleia Legislativa, encontramos uma reportagem com a seguinte menção referente ao recém-eleito governador:
“ruim de urna” - o futuro governador Ernani Sátyro nunca perdeu uma votação para deputado, mas nunca teve votação expressiva. Seus assessores explicam, confidencialmente, que é porque ele não morre de amores pelas concentrações populares e porque não é orador de massa no sentido populista do termo” (Diário da Borborema, 3 out. 1970).
Pelo Diário da Borborema, quem assumia ao cargo de governador em 1970, “confidencialmente” era “ruim de urna”, pois “nunca teve votação expressiva” devido ao fato de “não morrer de amores pelas concentrações populares”. No entanto, na lógica
49 O mais próximo que Ernani Sátyro chegou de disputar uma eleição para governador foi em 1965. No
entanto, seu nome não era consenso nas bases da UDN paraibana, que preferiu escolher João Agripino para disputar as eleições contra Ruy Carneiro.
ditatorial não importava estabelecer vínculos sólidos de popularidade ou de legitimidade. O que estava no horizonte dos militares naquela altura era estabelecer mandatos fortes que levassem à frente as políticas de repressão aos movimentos sociais que questionavam ao regime e ao mesmo tempo, firmar governadores que desempenhassem ações para expandir o “milagre econômico”.
Sendo assim, Ernani Sátyro (e os outros 21 governadores) assumiu o mandato no dia 15 de março de 1971. Em seu discurso de posse proferido na Assembleia Legislativa, selava mais uma vez seu apoio aos militares dizendo: “Serei fiel à Revolução de 31 de março de 1964” (SÁTYRO, 1994, p. 26). Suas juras de fidelidade ao governo dos militares seriam a tônica de tantos outros discursos pronunciados entre 1971 e 1975. Quando pensamos na trajetória percorrida por Ernani Sátyro entre 1961 e 1970 podemos perceber como ele foi um parlamentar que ascendeu politicamente a partir das posturas, ações e discursos alinhados aos militares que tomaram o poder. No dia 15 de março de 1971, Ernani subiu ao degrau mais alto que pôde chegar em sua vida política graças ao vínculo orgânico que produziu sistemática e historicamente a partir de diferentes situações com os militares.
Dali em diante, estava aberto oficialmente o mandato de governo de Ernani Sátyro que buscaremos analisar nos capítulos seguintes. Vale relembrar que nos próximos capítulos iremos investigar a atuação política de Ernani Sátyro sob as bases da “segurança e desenvolvimento” que eram as linhas-mestras da política empreendida nos “anos de chumbo” e do “milagre econômico”. Portanto, daremos ênfase, por um lado, à engrenagem política arquitetada pelos militares e governadores como forma de coibir as práticas dos movimentos de oposição que expandiram suas práticas de luta ao decorrer da primeira metade da década de 1970; e como tal política de repressão teve marcas singulares na Paraíba. Por outro lado, analisaremos as condições e os limites atrelados ao chamado “milagre econômico”, tentando encontrar pontos de aproximação e distanciamentos em relação à política econômica que foi desenvolvida durante o governo de Ernani Sátyro.
Capítulo 2