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IV. Sistemas e Modos

2. Nomenclatura de modos e sistemas

Dentre as diversas nomenclaturas dos modos e sistemas em uso durante os séculos XVI e XVII, aquelas descritas por Glareanus (

Dodekachordon

, 1547), Zarlino (

L'Istitutioni Harmoniche

, 1589), Kircher (

Musurgia Universalis

, 1650) e Banchieri (

L'organo suonarino

, 1605) nos indicam possíveis seqüências de utilização dos sistemas e modos, que acabam culminando com o aparecimento de nosso atual sistema tonal.

Os diversos modos eram baseados nas sete espécies de oitavas, classificadas a partir da posição dos dois

semitoni minori

, a saber:

Ilustração 8: Espécies de Oitavas

Os modos eram definidos como qualidades de cada espécie de oitava (

diapason

) e classificados em Autênticos e Plagais, considerados a partir da divisão harmônica ou aritmética da oitava, 42 respectivamente.

Com isso, definiam-se os 12 modos musicais, como expostos por Zarlino:

Ilustração 9: Sistema de Modos de Zarlino.

Essa nomeação dos modos, porém, não era única.

42 Resumidamente, uma oitava dividida harmonicamente resulta numa quinta seguida de uma

A tabela abaixo mostra a correspondência entre as nomenclaturas dos modos nos distintos tratados dos autores citados. A

finalis

de cada modo está grafada por suas letras correspondentes:

Tabela 1: Distintas nomenclatura dos modos musicais.

Tradicional Glareanus Zarlino Banchieri(*) e Morley(!)

Número e finalis do modo Número e finalis do modo Nome do modo Número e finalis do modo Nome do modo Número e finalis do modo

1. D, autêntico 1. Dórico 3. Frígio 1. (*) (!)

2. D, plagal 2. Hipodórico 4. Hipofrígio 8. (*) 43

3. E, autêntico 3. Frígio 5. Lídio 3. (*) (!)

4. E, plagal 4. Hipofrígio 6. Hipolídio 4. (*) (!)

5. F, aut. cantus durus Lídio 7. Mixolídio 5. (!) 6. F, plag. cantus durus Hipolídio 8. Hipomixolíd io 6. (!) 5. F, aut. cantus mollis

11. transposto Jônio 1. transposto Dórico 6. F, plag.

cantus mollis

12. transposto Hipojônio 2. transposto Hipodórico 6. (*); 8. (*) (transp.)

7. G, autêntico 7. Mixolídio 9. Jônio

8. G, plagal 8. Hipomixolí

dio

10. Hipojônio 8. (!)

9. a, autêntico Eólio 11. Eólio 7. (!)

10. a, plagal Hipoeólio 12. Hipoeólio

5. transposto para C 11. c, autêntico Jônio 1. Dórico 5. (*) 6. transposto para c 12. c, plagal Hipojônio 2. c, plagal Hipodórico

2. (*): G plagal, (transp.) cantus mollis, hipodórico 7. (*): D (trasnp.)

cantus mollis

Percebe-se já aqui a possibilidade de um mesmo modo ser apresentado em alturas distintas, no caso, a transposição dos modos baseados na nota C-fa-ut para F-fa-ut, e vice-versa, que se dá pela mutação do hexacorde

natural

para o hexacorde

mollis

e, em decorrência disso, de

cantus durus

para

cantus mollis

. Assim, comum também era o 1. modo, dórico (Glareanus), 44

cantus durus

em D- sol-re, ser grafado em

cantus mollis,

tendo G-sol-re como

finalis.

43 Banchieri em sua Barca di Venezia per Padova apresenta também esta possibilidade para o

oitavo modo, distinta daquela registrada em seu L'organo suonarino.

Exemplo 3: Dórico, cantus durus

Exemplo 4: Dórico (transposto) Cantus Mollis

Voltando agora aos exemplos de solmização retirados do livro de Morley, apresentados na Ilustração 6 e Ilustração 7, podemos notar que o terceiro exemplo, Ilustração 7 na página 31, escrito na clave de F-fa-ut, apresenta já 2 bemóis na clave, B e E, que não corresponde a nenhum dos dois

cantus

conhecidos. Porém, considerando-se a prática da transposição dos modos, e sua

modulatio

para os hexacordes vizinhos, podemos supor a seguinte gênese, para alcançar tal grafia:

O tom primário seria aquele definido por Zarlino como 11. tom, eólio, grafado em

cantus durus

. O exemplo apresenta uma única nota alterada, a sétima nota, grafada com um . As primeiras quatro notas serão solmizadas Re-Fa-Fa-MI. Numa primeira transposição de todo o trecho musical uma quarta superior, para

cantus mollis,

passamos para o segundo hexacorde (

seconda deductio)

, com a solmização das notas Re-Fa-FA-LA. Finalmente, numa terceira transposição de quarta superior (e a subseqüente oitava inferior) chega-se à necessidade de se incluir mais um bemol na clave. Nesse ponto, as primeiras quatro notas serão solmizadas Sol-Fa-Fa-LA. (

Prima, secunda & tertia deductio

, transpostas para a oitava inferior)

Exemplo 5: Diversas transposições de um modo.

De acordo com o proposto por Eric Chafe em seu livro

Monteverdi's

Tonal Language

, os dois sistemas de hexacordes

mollis

e

durus

dão suporte a conjuntos distintos de modos em cada uma das descrições dos teóricos acima.

Duas eram as transformações dos sistemas a partir de transposições dos hexacordes:

Mixtio tonorum

, ou a mudança de um modo em seu parente mais próximo (mesma

finalis

), como por exemplo do I. para o II. ou vice versa. 45 E

Commixtio tonorum,

a transposição para uma

finalis

distinta, ou transposição “

per

b-molle

”, 46 transformando um hexacorde

durus

(C, d, e , F, G, a) em um

mollis

(F, g, a, Bb, C, d). 47 Ou seu inverso, “

per -quadro

” (be quadro).

Uma segunda transposição em ambas as direções nos leva a um universo tonal composto pelos hexacordes (Bb, c, d, Eb, F, g) e (G, a, b, C, d, e). Sendo que as tríades menores, por processos cadenciais internos de cada modo, podem apresentar-se como maiores, seja pela costumeira finalização em acordes maiores nas cadências de tons menores, denominadas 'picardias', seja pelas

45 Isto é: a modulação do modo autentico para seu plagal . 46 MEIER, B. Alte Tonarten. 1992. 3ª parte.

47 Letras maiúsculas e minúsculas são utilizadas aqui para indicar a tipologia das tríades formada

sobre cada um dos graus do hexacorde: maiúsculas para tríades maiores e minúsculas para menores.

alterações melódicas nas sensíveis (música ficta/dominantes), chegamos a um universo de sonoridades onde encontramos dois acordes maiores em extremos opostos de nossa gama: Eb e E, o primeiro no extremo da relação de bemóis (

mollis

) e o segundo no extremo da relação de sustenidos (

durus

).

E, ao fixar-se nas claves os bemóis (ou sustenidos) de cada uma das transposições

per b-molle

e

per b-quadro

, nos aproximaremos de um universo de relações harmônicas já muito assemelhado ao sistema tonal que se estabeleceu na segunda metade do séc. XVII.