• Nenhum resultado encontrado

1.2 Nomenclaturas, definição e objeto do Direito Espacial

1.2.1 Nomenclaturas historicamente atribuídas ao Direito Espacial

As nomenclaturas apresentadas neste tópico têm como principal função a sua exposição, em especial a título de enriquecimento histórico e informativo, ou seja, não serão tecidas críticas sobre as mesmas, mas servirão para contextualização do espírito da época em que foram cunhadas, ou seja, Zeitgeist.

As nomenclaturas atribuídas ao Direito Espacial quando este ainda estava em desenvolvimento como um ramo autônomo do Direito, já não mais visto como um sub-ramo do direito aeronáutico, visaram atribuir carga semântica que trouxesse consigo o sentido do seu objeto, expressando assim sua singularidade.

Dentre as nomenclaturas propostas, destacam-se: Direito Astronáutico

(astronautical law), Direito Eteronáutico (etheronautical law), cuja explicação

baseava-se na navegação ou viagem interplanetária, baseava-segundo livro de traduções técnicas da NASA, de 1970 (NASA, 1970, p. 2).

Além dessas, tem-se: Direito Interplanetário (interplanetary law), Direito Interestelar (interstellar law), Direito Extraterrestre (extraterrestrial law), Direito das Posses Extraterrestres (law of extraterrestrial possessions), Direito Satelital (satellite

law), além de Direito Espacial (space law) e Direito do Espaço Sideral (outer space law) (KHUKOV; KOLOSOV, 2014, p. 14).

Direito Astronáutico ou Astronautical law foi uma das nomenclaturas cuja difusão teve expoentes na França, com Hombourg, em 1958, cuja doutrina era compartilhada por José DaImo Fairbanks Belfort de Mattos (MATTOS, 1958, p. 103). No Uruguai, Alvaro Bauzá Araujo, em 1961, também adotava a nomenclatura supramencionada, e definia o novo ramo como: “o direito que regula a navegação de corpos celestes” (KHUKOV; KOLOSOV, 2014, p. 14).

É válido mencionar que, segundo Mattos (1958, p. 103), a crítica dos juristas que não aderiam a essa nomenclatura decorria da percepção de ausência de um vínculo estreito entre o direito “astronáutico” e o direito “aeronáutico”, citando Meyer,

32 Kroell, Alec Mellor como críticos da nomenclatura defendida por ele e por Alvaro Bauzá Araujo.

Outra crítica quanto à nomenclatura “direito astronáutico” é tecida pelo argentino Aldo Armando Cocca (1957, p. 30) que, além de perceber e associar o Direito Espacial ao relativismo einsteineano, questiona se este ramo não deveria ser percebido como um direito a ser estudado em quatro dimensões, tal como a física.

Ressalta-se que a expressão utilizada por Cocca não criou oposição à teoria tridimensional do direito, criada por Miguel Reale onze anos depois, mas fundamenta-se na perspectiva de transformação trazida pela física de Einstein que provou a existência da quarta dimensão, o tempo.

Cocca (1957, p. 30-247) arguiu que no espaço sideral a “navegação” não seria igual à do mar ou do ar, pois não é contínua. Ademais, explica que os voos espaciais são entre planetas e não entre os astros, portanto o prefixo “astro” de astronáutico é injustificado. Por fim, a nomenclatura utilizada não levaria em conta a necessidade de regulamentação legal do status da Lua e dos planetas do Sistema Solar. Portanto, o autor tinha predileção pelo termo “direito interplanetário”, que cobriria os estudos envolvendo corpos celestiais e viagens espaciais.

Segundo Zhukov e Kolosov (2014, p. 14) a literatura criticava a terminologia utilizada por Cocca, por se referir a regras legais que regem as relações entre habitantes de diferentes planetas, e como isso não ocorreu, não haveriam motivos para utilizar a nomenclatura “direito interplanetário”. Ademais, esse termo excluiria a regulamentação de satélites artificiais da Terra, naves espaciais tripuladas, estações orbitais e muitos outros objetos cujo funcionamento importa à exploração e o uso do espaço sideral.

Por outro lado, o termo "direito extraterrestre" tinha o intuito de dividir o direito em duas partes, sendo a primeira relacionada à Terra e a outra totalmente separada dela. A crítica fundamental a esta nomenclatura está relacionada ao seu prefixo “extra”, que exclui a Terra e suas instituições legais, portanto, não reflete o verdadeiro estado de coisas (ZHUKOV; KOLOSOV, 2014, p. 14).

Já o termo “Direito das Posses Extraterrestres” fundamenta-se na seguinte premissa: a Lua e outros corpos celestes seriam res, ou seja, “coisas” em latim, que poderiam ser apreendidas por Estados individuais, o que conflita não apenas com o Tratado do Espaço de 1967, mas com a própria ideia de cooperação dos Estados como princípio fundamental daquele Tratado (ZHUKOV; KOLOSOV, 2014, p. 15).

33 O termo que se estabeleceu na literatura soviética foi Direito Espacial (space

law), ou Direito Espacial Internacional (international space law). Esta nomenclatura

também era, em regra, usada por autores de países eslavônicos, como Polônia, Checoslováquia, Iugoslávia e Bulgária. Os autores de língua inglesa, francesa, alemã e italiana seguiam a mesma lógica e, também, usam o termo Direito Espacial (space

law) ou, direito do espaço sideral (law of outer space); direito do espaço

extra-atmosférico (droit de I’espace extraatmosphérique em francês), Direito Espacial (Weltraumrecht em alemão) e Direito Espacial (diritto spaziale em italiano) (ZHUKOV;

KOLOSOV, 2014, p. 15).

No Brasil, alguns expoentes merecem menções: Valladão (1958, p. 1-30) e Gomes (1963, p. 242-249) utilizam o termo direito do espaço interplanetário ou direito interplanetário.

É importante mencionar que Valladão (1970, p. 335-338) compreendia o Direito Espacial como dividido em 2 partes: 1) o direito interplanetário, que disciplinaria os problemas jurídicos do espaço interplanetário, representando o momento vivido pela humanidade naquela época; 2) no futuro, haveria o surgimento do direito intergentes planetários, que regularia as possíveis relações de habitantes terráqueos com os habitantes de outros “astros”.

Segundo Gomes (1963, p. 246) “o espaço extra-atmosférico, atualmente em exploração pelo homem, é um espaço inapropriável e livre, constituindo res communis

omnium universi, cousa comum a todos os seres racionais do Universo”. Assim, o termo utilizado pelos autores supramencionados alinhava-se com o princípio da não apropriação do espaço extra-atmosférico, que seria compilado no Tratado do Espaço Sideral em 1967.

Já o termo Direito Internacional Cósmico (derecho internacional cósmico) foi utilizado por Seara Vazquez (1961, p. 1-348) no México, focando nos aspectos internacionais das atividades dos Estados no espaço sideral. Este termo também foi compilado no Brasil por Britto (1976, p. 43-60) que o entende como:

o novo ramo do Direito que deve se ocupar do “espaço extra-atmosférico” ladeando o Direito Aéreo que tem como objeto o “espaço atmosférico”, segundo as expressões utilizadas pela Convenção de Paris de 1919 e a Convenção de Chicago de 1944.

Conforme pode ser observado pelas diversas nomenclaturas cunhadas, não havia um consenso sobre qual delas melhor expressasse a abrangência, o objeto e o

34 conceito de Direito Espacial. Entretanto, a prevalência do termo Direito Espacial ou

space law levou a sua popularização e preferência em detrimento dos demais.