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2. BREVE CARACTERIZAÇÃO DA LÍNGUA APURINÃ

2.2. Aspectos morfossintáticos

2.2.1. Classes de palavras

2.2.1.1. Nomes

O nome em Apurinã, segundo Facundes (2000), pode ser morfologicamente definido como a classe de palavras que consiste de uma base nominal à qual se atrelam morfemas inerentemente nominais (marcas de plural, de gênero e de posse/não posse). Nomes diferenciam-se de outras classes de palavras da língua em diversos aspectos, já que apresentam traços específicos que não são vistos em outras classes. Assim, há uma morfologia inerentemente nominal, isto é, que só ocorre com nomes; há, ainda, certos afixos que, embora possam se ligar a nomes, não fazem parte da morfologia inerentemente nominal, pois podem ocorrer com outras classes de palavras.

Nomes podem ser lexicalmente ou morfologicamente marcados com o gênero feminino ou masculino e essa propriedade gramatical pode não apenas se refletir na forma do nome (quando este admite uma marcação morfológica de gênero), mas também nos padrões de marcação de correferencialidade encontrados em outras palavras da língua e controlados pelo nome com o qual tais palavras concordam. Exemplos disso podem ser vistos em: hare-ru hãtaku-ru (ser.bonito-f jovem-f) „moça bonita‟; hare-ry hãtaku-ry (ser.bonito-m jovem-m)

„moço bonito‟. A única outra palavra que também codifica gênero como parte de seu significado é a forma pronominal independente para a terceira pessoa do singular (ywa

„3sg.m‟ e uwa „3sg.f‟). Então, exceto por essa forma pronominal específica, apenas nomes

apresentam a categoria de gênero (cf.: FACUNDES, 2000). Os exemplos a seguir ilustram alguns nomes na língua Apurinã e suas marcações de gênero.

(1)

a. ãtaku-ru ãtaku-ry gênero morfológico jovem-F jovem-M

„moça‟ „rapaz‟

b. pupỹka-ru pupỹka-ry gênero morfológico Apurinã-F Apurinã-M

„Apurinã (feminino)‟ „Apurinã (masculino)‟

c. sytu kyky gênero lexical „mulher‟ „homem‟

d. putxuwa-ru gênero morfológico

ser.doce-F

„açúcar (feminino)‟

e. xiripi-txi gênero lexical

flecha.de-N.POSSD

„flecha (masculino)‟

f. ãa-tsupa gênero lexical

NC.planta.de-NC.plano, fino.de „folha (masculino)‟

g. mamu-ry gênero morfológico

matrinchã-M

„matrinchã (masculino)‟

Como dito, não há um condicionamento único para a marcação de gênero em Apurinã:

embora haja uma correlação morfológica em que, para algumas palavras, o morfema -ru

marca o feminino e o morfema -ry o masculino, há casos em que não há qualquer estratégia morfológica ou fonológica para identificar se uma palavra é masculina ou feminina. Assim, nesses casos, o gênero é lexicalmente definido (por exemplo, kyky „homem‟ e sytu „mulher‟);

em se tratando de marcação de gênero lexical, o gênero mais frequente é o masculino. Em outros casos, utiliza-se uma estratégia de natureza semântica, isto é, há categorias semânticas que se relacionam com o gênero de certas palavras em Apurinã. Por exemplo, palavras que designam nomes de peixes, em geral, são masculinas.

No caso de concordância com um sujeito ou objeto pós-verbal, é necessário conhecer o gênero dos nomes, o mesmo ocorre nos casos de concordância de um nome com um pronome demonstrativo, tal como nos exemplos abaixo:

(2)

a. I-ie kasyry M-esse lua

„Essa lua‟

b. Areka-ry kyky ser.bondoso-M.O homem „O homem é bondoso‟

c. U-ie kama-ru F-essa arraia-F

„Essa arraia‟

No que se refere à marcação de número, esta pode também ser feita por outros morfemas inerentemente nominais (que são mutuamente excludentes entre si, com exceções, segundo FACUNDES (2000), resultantes de propriedades individuais de uma dada base nominal). Assim, a marcação de número em Apurinã pode ser feita pelo uso dos sufixos -waku (-waku-ry, „plural masculino‟; -waku-ru, „plural feminino‟) e -ny (ny-ry, „plural masculino‟; ny-ru, „plural feminino‟). O primeiro, -waku, ocorre com nomes que apresentam o traço [+ humano]; o outro, -ny, pode ser usado tanto com referentes animados quanto com referentes inanimados, conforme exemplos (FACUNDES, 2000, p.260, 262):

(3)

a. kyky-waku-ry apu-pe homem-PL-M chegar-PFTV

„Os homens já chegaram‟

b. sytu-waku-ru mulher-PL-F

„mulheres‟

c. aiku-ny-ry casa-PL-M

„casas‟

d. sytu-ny-ru mulher-PL-F

„mulheres‟

Uma outra característica inerentemente nominal diz respeito à marcação de posse/não posse. Apenas nomes podem formar construções possessivas por justaposição (por exemplo, ãa-myna ãa-kutsa (nc.planta.de-nc.caule.de nc.planta.de-nc.raiz.de) „raiz da árvore‟) e apenas nomes recebem sufixos que codificam posse (ny-kanawa-te, 1sg-canoa-possd, „minha canoa‟) ou não posse (por exemplo, mãka-txi, roupa.de-n.possd, „roupa‟). Marcas pronominais prefixais ou pronomes livres antepostos a nomes codificam o possuidor, e os nomes sucedidos por eles codificam o item possuído.

Com base em critérios morfossintáticos e semânticos, os nomes, na língua Apurinã, foram divididos em classes por Facundes (1995 e 2000), seguindo o esquema na figura abaixo. Nesse esquema, NC1 corresponde a nomes que ocorrem produtivamente como núcleos de compostos nominais, sendo que NC2 apresenta extensões metafóricas e possibilidade de incorporação no verbo, de maneira semelhante a certos nomes classificatórios em outras línguas.

Figura 4: Classificação dos nomes em Apurinã, segundo Facundes (2000).

Fonte: Facundes (2000, p. 150, tradução nossa)

Na classe de nomes simples, o autor inclui apenas os nomes não derivados de outras classes, que podem consistir minimamente de uma raiz intrinsecamente nominal, dado que nomes derivados apresentam comportamentos distintos. Dentro dessa categoria, inscrevem-se nomes inalienáveis (classificatórios e não classificatórios) e nomes alienáveis (que, na forma possuída, recebem os sufixos -te, -ne, -re1 ou -re2). Nomes inalienáveis são obrigatoriamente possuídos, enquanto os alienáveis não. Facundes (2000, p.151-152, tradução nossa) afirma que “A distinção inalienável versus alienável se reflete nos padrões de marcação morfológica”

dos nomes. Os exemplos a seguir ilustram essas diferenças entre nomes alienáveis e inalienáveis na língua:

(4) Nomes simples inalienáveis

a. ãa-myna-tsuta Classificatório NC.planta.de- NC.tronco.de- NC.tronco.de „tronco de árvore‟

b. ny-waku Não classificatório 1SG-mão.de

„minha mão‟

c. n-yry 1SG-pai.de „meu pai‟

(5) Nomes simples alienáveis

a. ny-katarukyry-te 1SG-farinha-POSSD

„minha farinha‟

b. ny-parithu-ne 1SG-fósforo-POSSD

„meu fósforo‟

c. ny-ãputa-re 1SG-abano-POSSD

„meu abano‟

(6) Nomes simples mistos

a. amiana-ry n-amiana-re doença-N.POSSD 1SG-doença-POSSD

„doença‟ „minha doença‟

Em (4a), o nome classificatório -tsuta é fonologicamente preso à base nominal ãa-myna, podendo ocorrer recorrentemente como parte de vários nomes compostos, o que o diferencia dos não classificatórios, que não são formas presas recorrentes (em que o uso do nome waku „mão‟, do exemplo (4b), não seria possível em construções como *kyky-waku

„mão do homem‟, como forma presa). Em (5a-c) temos exemplos de nomes alienáveis com os sufixos -te, -ne, -re1 e -re2; a escolha entre um desses sufixos é lexicalmente determinada, mas há subgeneralizações de ordem semântica, morfológica e pragmática/discursiva que estão ligadas a essa escolha, o que, juntamente com o padrão de marcação visto no exemplo (6a), buscaremos explicar mais adiante. Além da classificação de Facundes (1995 e 2000), Brandão

(2006) e Facundes e Freitas (2013) também oferecem diferentes classificações para os nomes em Apurinã, cujas propostas serão discutidas no Capítulo 4, sobre posse atributiva em Apurinã, capítulo em que também serão apresentados com mais detalhes os padrões de marcação de posse de cada uma das classes de nomes na língua.

No que se refere aos nomes compostos, estes correspondem àqueles nomes formados por mais de uma raiz, podendo ser, segundo Facundes (2000), produtivos, que seguem uma formação parcialmente regular; ou não produtivos, que apresentam uma formação idiossincrática, não recorrente (no capítulo 4 discutiremos um pouco mais sobre a natureza desses nomes compostos). A seguir, exemplos de nomes compostos produtivos e não produtivos:

(7) Nomes compostos produtivos e não produtivos

a. ãa-myna-tãta produtivo

NC.planta.de-NC.tronco.de-NC-casca.de „casca da árvore‟

b. uky-tãta-txi produtivo

olho.de-NC.casca.de-N.POSSD

„óculos‟

c. kai-kuta não produtivo

pedra-argila, barro „tabatinga‟

d. ãta-kãary não produtivo

beber-igarapé „espelho‟

Ainda segundo Facundes (2000), há aqueles nomes derivados de outras categorias, que não subcategorizam para (in)alienabilidade, e são resultado de: a) acréscimo dos nominalizadoress -txi ou -re; b) acréscimo de relativizadores; c) adição do nominalizador

instrumental/objeto; d) adição do nominalizador de ator; e) uso do sufixo -myna; f) uso da marca de gerúndio (ação nominal). Cada um destes será brevemente descrito a seguir.

Os sufixos txi, que marca um sobconjunto dos inalienáveis quando não possuídos, e -re, que marca alguns nomes alienáveis quando possuídos, funcionam como nominalizadores verbais, conforme exemplos (FACUNDES, 2000, p. 214, tradução nossa):

(8)

a. Nuta nhipuku-ta 1SG comida31-VBLZ

„Eu como‟

b. Nuta apuka-ry nhipuku-ta-txi

1SG encontra-3SG.M.O comida-VBLZ-N.POSSD

„Eu encontrei um lugar-para-comer‟

c. Pithe kama-ry 2SG fazer-3SG.M.O

„Você o fez‟

d. Pithe kama-re 2SG fazer-POSSD

„Seu trabalho‟

Facundes (2000) também apresenta certos relativizadores, tais como ka-ry e ka-ru, masculino e feminino, respectivamente, que se ligam a verbos para derivar formas nominais se referindo ao sujeito lógico do verbo nominalizado; além de ky-ty e ky-tu, masculino e feminino, respectivamente, que se ligam a verbos para derivar formas nominais expressando o objeto nocional do verbo nominalizados. Essas formas, ka-ry, ka-ru, ky-ty e ky-tu, marcam sentenças relativas, havendo, ainda, outras marcas de relativização, que formam, segundo Facundes (2000), a categoria gramatical mais complexa encontrada em Apurinã. O autor fornece os seguintes exemplos (2000, p. 215, tradução nossa):

31A glosa em questão se refere à ideia de comida, não à classe de palavras “nome”, já que nhipuku pode se comportar como verbo ou como nome, dependendo da marcação morfológica que receba.

(9)

a. Nuta apuka-ry atama-ta-kary 1SG encontrar-3SG.M.O ver-VBLZ-REL.S.M

„Eu encontrei o que viu‟

b. Nuta apuka-ry atama-ta-karu

1SG encontrar-3SG.M.O ver-VBLZ-REL.S.F

„Eu encontrei a que viu‟

c. Nuta apuka-ry nhika-kyty

1SG encontrar-3SG.M.O comer-REL.O.M

„Eu encontrei o que foi comido‟

d. Nuta apuka-ry nhika-kytu

1SG encontrar-3SG.M.O comer-REL.O.F

„Eu encontrei a que foi comida‟

Há, ainda, segundo o autor, o nominalizador instrumental/objeto -iku, que se liga a verbos transitivos ou intransitivos, conforme exemplos (FACUNDES, 2000, p. 241, tradução nossa):

(10)

a. Nuta syk-iku 1SG dar-NMLZ

„meu presente‟

b. syk-iku-ny-ry dar-NMLZ-PL-M

„presentes‟

O nominalizador de ator -myna pode se ligar a verbos transitivos para derivar um nome se referindo a “aquele que realiza o evento verbal”, segundo Facundes (2000, p.243):

(11)

a. Maiaka-myna apu-pe pegar-NMLZ chegar-PFTV

„O pegador chegou‟

b. Taka-myna apu-pe plantar-NMLZ chegar-PFTV

„O plantador chegou‟

O sufixo -myna também pode se ligar a nomes concretos, nesse caso, se referindo a

“aquele que fez N”, ou a nomes animados, em que se refere a “aquele que mata N”

(FACUNDES, 2000, p. 244):

(12)

a. Kanawa-myna-ry sy-pe canoa-NMLZ-M ir-PFTV

„O construtor de canoa já foi‟

b. N-atama-ta-ry ãkiti-myna-ry 1SG-ver-VBLZ-3SG.M.O onça-NMLZ-M

„Eu vi o matador de onça‟

A marca de gerúndio -inhi se atrela a uma forma verbal, derivando uma construção de ação nominal.

(13)

a. Nuta myteka 1SG correr „Eu corro‟

b. Nuta mytek-inhi 1SG correr-GER

„minha corrida‟

Facundes apresenta alguns outros processos menos produtivos de formação de nomes, tais como: a) reduplicação de formas onomatopeicas (turu-turu „tipo de sapo grande‟; mẽku-mẽku-ry (mẽku-mẽku-M)„trovão‟); b) nomes próprios femininos terminados por -eru (Kumarĩ-eru; Iakun-eru); c) encurtamento (anãpana-ry > anãpa „cachorro‟; kãkyty > kãky „gente‟).

Após essa breve caracterização dos nomes, na próxima seção, apresentaremos as características gerais de verbos na língua.