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2 DANÇA DE RUA E PROCESSOS EDUCATIVOS

2.4 Primeiro encontro: 02 horas/aula

2.4.8 Nono encontro

Desenvolvimento

Neste encontro, quando cheguei, diferentemente dos outros encontros, encontrei alguns meninos que estão em regime de liberdade assistida sentados em frente ao ginásio, fumando. Quando me viram, tentaram esconder o cigarro e um deles me disse: “Já estamos indo, professora”. Então, para a dupla que estava fumando eu disse em tom de brincadeira:

“Cuidado com a saúde pessoal, depois não vão conseguir respirar durante a coreografia.” Eles sorriram e eu também. Pedi, então, que não demorassem, pois logo eu iniciaria a aula.

Entrei no ginásio e cumprimentei a todos. Alguns meninos estavam treinando o “giro de cabeça” no parque; usavam uma touca de lã, que utilizam para realizar o giro. Cada menino, após sua tentativa, passava a touca para o colega. Foi possível perceber que, embora se respeitassem no espaço da oficina e se integrassem durante as atividades que eu estava mediando, quando estavam conduzindo suas próprias atividades, marcadamente havia a divisão dos grupos formados segundo a região da cidade da qual eram oriundos. Por isso, os vínculos me pareceram frágeis.

Figura 10 - Microtribos de uma tribo

Coloquei o aparelho de som em seu lugar, com o CD que estávamos trabalhando para o aquecimento e alongamento “dançado”. Chamei a todos para que iniciássemos a aula.

Dirigindo-me até a porta do ginásio, solicitei que os dois meninos entrassem o que ocorreu.

Dois meninos me entregaram seus pertences para que eu os guardasse com minhas coisas.

Iniciei a fala no grupo dizendo que estava feliz por encontrá-los motivados com o desenvolvimento dos movimentos e da parte coreográfica. Brinquei com os meninos dizendo que para nos apresentarmos necessitávamos de mais “ensaios”. Percebi empolgação quando

falei de uma apresentação e, antes que eu pudesse terminar, Break de Chão perguntou:

“Quando vai ser professora? Respondi que não havia nada marcado, mas que tinha conhecimento de que em dezembro ocorre no município de Carazinho uma mostra de dança, da qual talvez pudéssemos participar.

Iniciamos a primeira parte da aula onde se localizam os espelhos. Comecei com a coreografia de aquecimento e alongamento, realizada várias vezes. Nesse momento da aula o grupo parecia estar sempre mais descontraído, parecendo gostar e se divertir; os adolescentes riam , faziam comentários laterais sobre o seu comportamento coreográfico, assim como o dos colegas. Depois do aquecimento, realizamos a passagem da coreografia que estava sendo elaborada, relembrando sem a utilização da música os movimentos já estruturados.

Posteriormente, ensaiamos com música, fazendo as correções necessárias. Quando solicitei que se posicionassem para iniciarmos, observei que não era mais necessário auxiliá-los no posicionamento de cada um, pois eles próprios conseguiam se localizar respeitando o espaço do colega na execução da coreografia. Ensaiamos muitas vezes, e o trabalho estava tomando

“corpo”. Liberei-os para que tomassem água e solicitei que posteriormente se dirigissem ao solo, para que pudéssemos treinar os movimentos acrobáticos.

Passado este momento e o grupo chegando ao solo, orientei que cada um, a partir dos movimentos acrobáticos que já estava realizando, ocupasse um lugar; aqueles que ainda necessitavam treinar os movimentos com o minitrampolim deveriam organizar os colchões e realizar a coluna para a ordem de salto. Assim, um dos grupos dirigiu-se ao minitrampolim; o outro, após várias tentativas de salto e vários movimentos acrobáticos e de break de solo, sentou-se. Dirigindo-me a este grupo, solicitei que me ensinassem o movimento de break.

Então, o realizamos eu e Break de Chão em pé, de frente para os meninos que saltavam, pois assim eu conseguia ver o que acontecia e se precisavam de auxílio.

No grupo em que eu estava, Freeze e Giro de Cabeça estavam sentados no solo de costas para a porta e de frente para nós. Foi quando Mortal, no solo, iniciou rolamentos em seqüência e, não tendo visto, acabou batendo em Freeze. Este se levantou abruptamente, ao mesmo tempo que Mortal, o menino que havia batido, pediu desculpas dizendo que não vira o colega. Freeze, porém não o escuta e, assumindo postura agressiva, disse: “Tà me tirando, cara, o que é isso? Quer brigar? Então vem.” No mesmo momento, intervi me posicionando em frente a Freeze, que parecia nem me enxergar. Falei três vezes seu nome até que ele me olhou nos olhos. Mortal, apesar de vir para a aula com outro colega, de sempre estar olhando para baixo e geralmente não se integrar nos grupos, parecendo gostar de trabalhar sozinho, de falar pouco, era dedicado nas atividades, pacato e educado.Então, quando me olhou, estava

me pedindo auxílio. Eu disse para Freeze: “Senta aí que o teu colega já pediu desculpas, e você, como está alterado, nem ouviu. Você mesmo executa movimentos de giro e sabe que, quando inicia este movimento, é quase impossível travá-lo. O colega não viu.” Mortal continuava em pé, na mesma posição em que havia finalizado o movimento. Então disse-lhe que continuasse treinando um pouco mais para o lado. O restante dos meninos da oficina, mesmo quem estava no salto, parou para ver a situação. Assim que Freeze se sentou, fui ao centro do solo e em voz alta, orientei que cada um continuasse seu treinamento.

Voltei ao grupo de Freeze e conversei novamente com ele. Depois de acalmá-lo perguntei: “Se você estivesse realizando um movimento como teu colega e sem querer batesse em alguém, gostaria que essa pessoa reagisse como você, não escutando as desculpas do outro e querendo partir para a agressão?” Ele disse. “Tá loco, professora, o cara tá me tirando”. Eu o questionei novamente: “Você gostaria que alguém tivesse feito a mesma coisa que você fez para o colega?” Ele disse que não, mas continuou afirmando que o menino tinha feito intencionalmente. Eu lhe disse, então, que pensasse na situação e tentasse perceber se ele estava correto ou não, dizendo que eu tinha certeza da não intencionalidade da ação de Mortal.

Após, me dirigi a Mortal e falei que estava tudo bem, que ele poderia treinar tranqüilo.

Posteriormente, fui ao grupo que organizadamente estava treinando o salto no minitrampolim para ver se queriam algum auxílio e se ainda tinham dúvidas na execução do movimento.

Deixei que vivenciassem mais um pouco o movimento e pensei em fazer um relaxamento ao final da aula, já que os ânimos, diferentemente do início da aula, haviam se alterado.Para isso, selecionei o CD, coloquei no aparelho e me dirigi ao centro do solo chamando a todos; como os meninos do grupo em que estava Freeze demoraram, chamei-os novamente.

Depois de reunido o grupo, falei que iríamos alongar e, posteriormente, faríamos um breve relaxamento25. Assim, no momento desta atividade deveriam se deitar no solo numa posição que considerassem o mais confortável possível para seu corpo. Solicitei que não realizassem conversas laterais e que cada um prestasse atenção em seu próprio corpo, nos pontos em que estavam concentrados o cansaço, as tensões, e que respirassem profundamente;

durante o exercício, eu nomearia as regiões do corpo em que deveriam se concentrar.

Perguntei se tinham compreendido e somente dois meninos responderam.

25 Relaxamento: técnica específica que prioriza a descontração e o destensionamento das estruturas corpóreas, facilitando a volta à calma após um período de exercícios físicos intensos. Emocionalmente possibilita acalmar o sujeito praticante, de modo que, por meio da respiração e da visualização, trabalhe suas emoções.

Depois de ter realizado alguns alongamentos para os membros superiores, orientei-os a entrelaçar as mãos posicionando-as atrás da cabeça. Nesse momento, eles se encontravam em silêncio e pareciam ainda tensos com a situação vivenciada. Quando realizamos esse exercício, um dos meninos que estava sob liberdade assistida disse: “Mãos na cabeça, afasta as pernas”, e realizou a movimentação de pernas como se alguém o estivesse induzindo a afastá-las, posicionando uma depois a outra. O grupo todo deu gargalhadas. Eu tentei agir com naturalidade, encerrei aquele exercício e passamos para outro. Mas o menino ainda comentou: “O movimento é parecido com as batidas da polícia”. Então eu disse: “Os movimentos são parecidos, mas agora vocês também tiveram a oportunidade de perceber esse movimento de uma maneira diferente. É preciso saber qual dessas maneiras quero experimentar outras vezes, qual delas é melhor para mim”. O menino somente sorriu, e alguns do grupo fizeram sinais de aceitação da mensagem, ou seja, tinham entendido. Fizemos mais alguns alongamentos; após, orientei o grupo a se deitar e procurar uma posição confortável para iniciarmos o relaxamento; relembrei as orientações e solicitei que todos fechassem os olhos. Coloquei a música e iniciei a fala. Alguns começaram a rir e várias vezes abriam os olhos, tentando olhar para os colegas. Como eu estava transitando entre eles, olhava-os e eles novamente fechavam os olhos e tentavam realizar a atividade.

O relaxamento libera as tensões da pessoa e a tranqüiliza, principalmente se estiver cansada ou nervosa [...]. No relaxamento os pensamentos se aquietam progressivamente, acalmam invadem a pessoa, e se estabelece uma tranqüila concentração. Dada às resistências do corpo, que não está acostumado a essa vivência corporal, é preciso uma reeducação no sentido de consentir na entrega de todo o ser. (BREGOLATO, 2003, p. 31).

Quando encerrei, disse-lhes para abrirem os olhos, espreguiçarem o corpo e, lentamente, irem se levantando. Quanto terminei de falar, a maioria deles já estava em pé.

Então, ressaltei a importância desse trabalho e disse que numa segunda vez, provavelmente, conseguiriam se concentrar melhor e aproveitar mais a atividade. Falei que estavam liberados;

eles se despediram e foram em direção ao seu material; o grupo de Freeze ficou no solo.

Entreguei-lhes as passagens e me despedi. Comentei ainda com o Freeze que entendia a posição dele ao se se sentir agredido, mas eu tinha certeza de que Mortal não havia feito aquilo propositalmente e, além disso, tinha pedido desculpas a ele.

Este foi o último encontro em que o grupo das medidas sócio-educativas que estão sob liberdade assistida participou. Convidei-os para continuarem a participar do grupo, mas somente obtive sorrisos, sem confirmação alguma.