por @ Nicolau Maués Serra-Freire Os Thysanoptera são conhecidos como insetos “tripes”, tendo o corpo do adulto cerca de 0,5 a 13 mm de comprimento, sendo a coloração negra ou marrom-escura predominante, mas existem espécies amarelas, alaranjadas e até esbranquiçadas. Podem ou não ter asas desenvolvidas. Quando têm asas, são dois pares membranosos, estreitas, e com muitas franjas nos bordos, característica usada para a designação da Ordem: Thysanos = franja (em grego) e pteron = asa (em latim) (Fig. 1). Como conseqüência da ampla variedade de fontes alimentares, e de tipos de alimentos que podem garantir a sobrevivência dos indivíduos e a perpetuação das espécies, conseguem viver próximos dos humanos, animais domésticos e silvestres. Antena Franjas Asa mesotoráxica Flagelo da antena Olhos compostos Pata 1 Pata 2 Pata 3 Urômeros Metatórax Mesotórax Protórax Cabeça Asa metatoráxica Abdome
Figura 1. Thysanoptera: A) Desenho ilustrativo da segmentação do corpo, dos apêndices articulados, e das asas característica em espécime alado. Fonte: www.nhc.ed.ac.uk. B) Fotografia de espécime áptero (sem asa) adulto, com indicação externa da estrutura corporal (Fonte: www.ento.csiro.au).
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Não é amplo o conhecimento popular sobre os Thysanoptera no Brasil, e ainda são poucos os grupos de pesquisadores trabalhando com estes insetos. Mas já há estudos taxonômicos recentes sobre tripes no Brasil, especialmente sobre espécies economicamente importantes, e particularmente aquelas vetoras de vírus de interesse agrícola, em que atuam na transmissão e disseminação. Já houve o reconhecimento de quatro espécies de Thysanoptera vetores de fitopatógenos no Brasil, tendo sido fundamental para a identificação, a determinação de hospedeiros verdadeiros, nos quais os tripes estão presentes, se alimentam e se reproduzem. Reconhecer o vegetal hospedeiro é necessário para a identificação do tripe.
<Morfologia externa> Cabeça – livre com ampla movimentação, de aspecto quadrangular, estando às peças bucais inseridas em uma saliência cônica ântero-ventral; olhos compostos desenvolvidos, com pequeno número de unidades formadoras da imagem, mas com córnea circular; dois a três olhos simples presentes posicionados entre os olhos compostos nas formas aladas, e quase sempre ausentes nas ápteras. Antenas com flagelo composto por 6 a 10 pequenos segmentos globosos (moniliformes) ou não globosos (filiformes).
Aparelho bucal do tipo picador-sugador assimétrico, por só possuir uma única mandíbula em forma de estilete, a esquerda, duas maxilas estiletiformes, dois palpos maxilares e dois labiais, um labro, um lábio, e uma hipofaringe. Os tripes podem ser fitófagos, predadores, ou ainda alimentarem-se de pólen, esporos e hifas de fungos. Certas espécies podem, eventualmente, utilizar exsudatos (glossário) de Lepidoptera, succionar sangue ou serem ectoparasitos de outros insetos.
//Tórax – formado por placas (escleritos), posicionadas dorsalmente (tergitos), lateralmente (pleuritos) e ventralmente (esternitos), que se articulam entre si formando anéis, um para cada segmento do tórax (protórax, mesotórax e metatórax). Nos tripes o protórax é livre (Fig. 2), com um tergito relativamente grande, mas meso e metatórax estão fusionados. Três pares de patas desiguais, sendo a pata I mais robusta que as outras, que são subiguais entre si e adaptadas para caminhar; também há diferença sexual, sendo que nos machos os fêmures da pata I são dilatados e possuem um forte gancho no tarso. Outras características dos tisanópteros são: a presença de um arólio adesivo e eversível na Figura 2. Thysanoptera: A. Cabeça e protórax de
macho, pata I robusta e com forte gancho no tarso (Fonte: www.worldwidewattle.com). B. Cabeça e tórax de fêmea, com patas subiguais (Fonte: tolweb.org).
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extremidade tarsal, entre as duas garras, e também uma metamorfose intermediária entre a simples e a completa. Asas meso e metatoráxicas semelhantes entre si, estreitas, lanceoladas, membranosas, transparentes, com poucas nervuras de sustentação, mas sempre com franjas; quando em repouso, arrumam-se umas sobre as outras dispostas sobre o abdome. Em algumas espécies as fêmeas têm asas, e os machos são ápteros ou têm asas reduzidas.
//Abdome – alongado, achatado dorso-ventralmente, formado por 11 segmentos, e em um grupo dos tripes pode estar inserido em grande extensão no tórax; no outro grupo a base do abdome é estrangulada.
<Ciclo de vida> Após o acasalamento a fêmea fecundada desenvolve os ovócitos nos ovários. Os ovos são postos sobre as folhas das plantas, ou dentro de fendas, orifícios do corpo vegetal, isolados uns dos outros, ou reunidos em massa que se mantém junta por substância pegajosa liberada pela fêmea durante a ovoposição. Em poucos dias se completa o desenvolvimento embrionário, e quando da eclosão dos ovos, as formas que emergem são muito semelhantes aos adultos, são ninfas que não têm asas. Mudas e ecdises originam formas inativas de pré-pupas, e as pupas com tecas alares (pequenas asas não funcionais), e depois os adultos. O ciclo pode acontecer em 10 dias ou em 22 meses, dependendo da espécie.
Em algumas espécies as fêmeas realizam partenogênese (capacidade de realizar postura de ovos viáveis sem que tenha ocorrido acasalamento), e os ovos por elas postos poderão originar machos e fêmeas, ou somente novas fêmeas partenogênicas.
<Hábitos e relação com humanos> Como consequência da grande plasticidade no seu hábito alimentar, os Thysanoptera ocupam um número variado de locais onde conseguem colonizar, que integram os hábitats, como: flores e folhas de inúmeras espécies vegetais, folhedo, folhiço, cascas de árvores, em galhas produzidas por eles ou por outros insetos. Podem também estar associados à ninhos de vertebrados, principalmente aves e mamíferos (roedores, marsupiais), ou ainda de invertebrados como formigas e cupins. Os tripes habitualmente são sugadores de seiva vegetal nas folhas e flores, podendo provocar deformações nessas estruturas, muito importantes na atividade de floricultura, mas há espécies que se alimentam dos esporos de fungos, de células de algas, de hemolinfa de outros insetos, e mesmo sangue de vertebrados.
Das quatro espécies do gênero Thrips com registro comprovado para o Brasil, três (T. simplex, T. palmi e T. tabaci) são pragas de uma ou mais culturas agrícolas, ou vetoras de vírus, e a quarta (T. australis) encontra-se associada a flores de eucalipto. Thrips simplex está amplamente distribuída, sendo praga de Palma de Santa Rita; T. palmi está presente em todas as regiões geográficas brasileiras, e em várias culturas, como as de batata, melancia, melão, pimentão, berinjela, e de feijão. Thrips tabaci tem preferência por alho, aspargo, cebola e cebolinha, e ainda que tenha sido incriminado como praga de cultura de algodão, na literatura agrícola do Brasil não há registro do encontro destes insetos nos algodoeiros.
Há espécies que são benéficas para a vida das comunidades porque atuam como decompositoras de nutrientes, realizam controle biológico de artrópodes e de plantas invasoras, mas principalmente por seu grande papel polinizador de várias plantas.
<Taxonomia> São reconhecidas nove famílias na ordem Thysanoptera,
sendo que oito estão incluídas na subordem Terebrantia (Adiheterothripidae, Aeolothripidae, Fauriellidae, Heterothripidae, Melanthripidae, Merothripidae, Thripidae, Uzelothripidae), e a outra está na subordem Tubulifera (Phlaeothripidae). As famílias Thripidae e Phlaeothripidae, que constituem os grupos mais derivados da ordem, compreendem cerca de 90% do total de espécies descritas de Thysanoptera. Na América do Norte, há aproximadamente 62 espécies do gênero Thrips (43 endêmicas), enquanto apenas oito foram registradas nas Américas Central e do Sul. No Brasil são conhecidas seis famílias, que reúnem 139 gêneros, em total de 520 espécies, sendo que a família Aeolothripidae é formada por espécies de tripes predadores, benéficos para o homem; a Thripidae é integrada por insetos herbívoros que são pragas de lavouras; e a família Phlaeothripidae está composta por espécies de tripes que são pragas, e outras que são benéficas. No gênero Thrips são quatro espécies, e embora não seja um gênero do Novo Mundo, possivelmente o número reduzido de espécies registradas no Brasil esteja relacionado à ausência de levantamentos.
Os Thysanoptera provavelmente foram espalhados pelo mundo em larga escala, mas foram mal estudados fora da Europa e Estados Unidos. Os insetos fósseis relacionados a esta ordem foram encontrados em material do período Terciário tão velho quanto o do Rio Branco (White River) na América do Norte, período Oligoceno, e no âmbar Báltico, mas nada é sabido a respeito da história precedente do grupo.