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A norma segundo Muller e Barbosa

4 A NORMA SEMÂNTICO-LEXICAL

9 O sistema é sistema de possibilidades, de coordenadas que indicam caminhos abertos e caminhos

4.2 A norma segundo Muller e Barbosa

Ao lado do aspecto qualitativo explorado no primeiro item, a norma tem também um aspecto quantitativo. Barbosa (1989, p. 573-4) explica esse duplo aspecto:

[...] uma norma de grupo de indivíduos, por exemplo, se define de um ponto de vista, como conjunto de modelos de realizações concretas, e, de outro, como o conjunto dos fatos de alta freqüência e distribuição regular nos discursos dos sujeitos falantes [...].

Dessa forma, a norma, além de conjunto de modelos de realizações concretas ou modelos fixados, consagrados e usados por um grupo, destaca-se igualmente pela alta freqüência e distribuição regular.

Fiorin e Platão (2003), no Quadro: Acepções de norma, apontam duas características relativas a esse aspecto: 1) concepção de média; freqüência estatística; tendência geral ou habitual; 2) estado habitual, de uso corrente, costume concordante com a maioria dos casos;

É justamente aqui que se pode incluir Muller, pioneiro dos estudos de Lingüística Estatística, mormente os aspectos relativos à Estatística Lexical.

A Estatística Lexical, para Muller, é o estudo quantitativo de um texto ou de um corpus. Cabe ressaltar que, aqui, entende-se por texto todo enunciado ou fragmento de enunciado, todo discurso, falado ou escrito, fragmentado ou contínuo, proveniente de um mesmo locutor e que apresenta uma mesma unidade no corpus. Todo texto pode ser decomposto em palavras e várias palavras de forma idêntica ou variável podem representar um mesmo vocábulo, o qual constitui, em língua, um lexema.

Essa variabilidade relaciona-se à possibilidade de a análise do material lingüístico, por causa do recorte da realidade que necessariamente faz, levar a mais de uma interpretação. Aqui, cumpre ressaltar a natureza eminentemente contínua da língua, e é raro que se possa traçar os limites nítidos; a análise exige a maior parte do tempo um exame atento do entorno sintagmático (contexto) e paradigmático (léxico), antes de se recorrer à estatística. Ela acaba produzindo uma certa simplificação de categorias, pois só poderá se efetivar quando o contínuo da linguagem se tornar descontínuo, mais difícil no nível lexical que noutros níveis.

Diante disso, Muller postula a necessidade da delimitação de vocábulo, englobando, numa única rubrica, as palavras que podem representar um único vocábulo. Essa operação consiste de um lado em agrupar as formas heterogêneas de um mesmo vocábulo e, de outro, de separar as formas homográficas relevantes de vocábulos diferentes. Dessa forma, Muller, propõe a reunião, por exemplo, de singular e plural de um substantivo, de masculino e feminino de um adjetivo, de diferentes formas de um verbo. A separação de homógrafos, para Muller, também representa outra dificuldade puramente matemática.

Para a apuração estatística, Muller afirma que cada vocábulo, num corpus é dotado de freqüência. O autor esclarece que o termo freqüência, em estatística, é definido como o número efetivo de casos observados, o número de ocorrências precisas, reportando-se ou não ao número total de ocorrências encontradas no corpus de um trabalho. Quando nos referimos ao número exato das ocorrências no corpus, temos a “freqüência absoluta”. Ao aplicarmos o termo freqüência referindo-se à relação entre os números de ocorrências e os números de casos possíveis, ou seja, quando o número de ocorrências faz referência ao número total do corpus, temos a “freqüência relativa”.

Para transportar os valores das freqüências, de absoluta para relativa, Muller trabalha com o número fracionário, relativo ao número total de palavras do corpus, demonstrado, por exemplo, na freqüência de determinada palavra que é de 50 sobre 100000, ou de 0,0005. O autor prossegue esclarecendo que a freqüência relativa se exprime por uma fração decimal, comportando ao menos dois zeros à direita da vírgula e, mais freqüentemente, três ou quatro. Assim, é comum referir-se a estes dados como uma base convencional de 1, 10 ou 100 milhões de palavras. Dessa forma, Muller, para a análise dos dados, trabalha com fracionamento e utiliza-se da relação de proporção para comparar as freqüências. Nós, contudo, como a “escolha entre razão, proporção ou percentagem, para análise de dados é uma questão de pura preferência” (Good e Hatt, p. 441), fizemos opção de trabalharmos com percentagem.

Ao utilizarmos, em nossa pesquisa, as respostas dos sujeitos ao questionário semântico-lexical, buscamos verificar a freqüência relativa e absoluta de uma dada designação, considerando que o questionário semântico-lexical, conforme observa Santos (2006, p. 83) “consiste num conjunto de questões de cunho descritivo, cujo objetivo se constitui em investigar a designação atribuída pelo entrevistado, sujeito da pesquisa, a determinados objetos do mundo referencial ou imaginário previamente selecionados”. Direcionamos, então, nosso enfoque para o nível da lexia, pois, segundo Barbosa (1978, p. 66-7) é “ao nível da lexia, unidade de comportamento, unidade memorizada que a noção categoria, como parte do discurso, adquire seu valor” e ainda:

Se o vocábulo se nos apresenta como um modelo constituído, a lexia será formada a partir dessas estruturas. Assim, muito embora a estrutura de algumas lexias coincida com a dos vocábulos que lhes correspondem, no plano meramente formal, outras há que compreendem em sua própria estrutura a de dois ou três destes últimos. Os vocábulos, pois, são componentes, a substância da forma lexical; eles mesmos se definem pela natureza dos elementos que o compõem, e que lhes servem, por sua vez de substância.

Em nosso trabalho, optamos pela lexia à qual associamos as noções de freqüência e distribuição enunciadas por Barbosa que define “[...] uma norma de grupo de indivíduos [...] como conjunto de modelos de realizações concretas, e, de outro, como o conjunto dos fatos de alta freqüência e distribuição regular” (1989, p. 573-4) Considerando a noção de espaço, que embasa os trabalhos de Geolingüística, a distribuição remete aos pontos, a saber, localidades focalizadas na pesquisa. Portanto, quando se afirma que uma determinada lexia tem distribuição regular, significa que ela foi utilizada por sujeitos em todos os pontos. No tocante à freqüência, embora não se estabeleça um índice numérico exato para determinar o que é alta freqüência, entende-se por alta freqüência o uso de uma lexia acima do das demais lexias encontradas numa região, mormente quando os índices forem bem elevados (SANTOS, 2006).

Os cálculos de freqüência de aparecimento de lexias no corpus e a verificação dos pontos em que ocorreram, apresentados nas tabelas, nos gráficos e nos cartogramas buscam justamente retratar o uso corrente de uma dada lexia na região (SANTOS, 2006).

Dessa forma, a norma semântico-lexical da região do Grande ABC se configura como a associação entre lexias de alta freqüência e distribuição regular, dito em outras palavras, lexias encontradas em número elevado em todos os pontos da região (SANTOS, 2006).

Ocorrem, ainda, outras situações:

- lexias de alta freqüência e distribuição irregular: quando são muito utilizadas, algumas, inclusive, tendo atingido índices acima de 75% em um único ponto ou

mesmo em oito pontos. Neste caso, tem-se a norma de um ponto ou, se for o caso, de alguns dos pontos, mas não da região (SANTOS, 2006).

- lexias de baixa freqüência e distribuição irregular: quando são pouquíssimo utilizadas, tendo muitas ficado bem próximas a 2,78% (resposta de um único sujeito). Trata-se, neste caso, de fatos que revelam normas de um determinado ponto. (SANTOS, 2006).

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