Anteriormente foi descrita a relação entre Pertença e Inclusão no que diz respeito à teoria dos conjuntos da matemática, o que foi apropriado por Badiou em sua teoria. Ocorre que, desta relação, outras implicações aqui ainda não nominadas decorrem. Que a apresentação tem por fundamento o pertencimento, ou seja, que o que é contado por Um por uma operação da estrutura da situação pertence à própria situação, já foi analisado anteriormente. Também já vimos que a Inclusão mantém relação para com os Múltiplos que não são apresentados, ou seja, aqueles Múltiplos que estão subtraídos na conta. Disso decorre que o que é contado em uma situação é apresentado, por pertencer a ela. Se também é contado pela Metaestrutura do
estado da situação diz-se representado pois, além de pertencer, também está
incluído nela. Ocorre que, existem termos (Múltiplos) que, apesar de incluídos, não pertencem a uma determinada situação, - como afirma o teorema do ponto de excesso - onde eles estão representados, mas não apresentados. Isto nos leva à constatação lógica que também existem termos que são apresentados, mas não representados em razão de que somente são termos imediatos e não partes da situação.
Badiou nomeia esta relação entre apresentação e representação, conforme seu resultado, por Normalidade, Excrescência e Singularidade. É denominado
Normal um termo que é, ao mesmo tempo, apresentado (pertence) e representado
(incluído). Trata-se de uma “re-afirmação” já que, nesta hipótese, o Um que está presente em um estado da situação é “re-apresentado” enquanto Um originário. Na segunda possibilidade, o Filósofo denomina de Excrescente todo o termo que, embora representado não é apresentado, ou seja, está incluído ainda que não pertencente à situação. Esta é a possibilidade em que o Um do estado não o é em relação à estrutura nativa, trata-se do termo inexistente na situação em que o estado é o estado, mas que apesar disso existe somente enquanto Um no estado. A terceira e última possibilidade resultante da relação entre apresentação e representação é aquela na qual um termo não é representado mas somente apresentado, este termo é Singular. Esta nominação aponta para o fato de que, embora Múltiplo em uma situação, o termo Singular não pode ser decomposto em razão de que seus elementos não são apresentados nesta situação de maneira apartada.
No espaço estatizado de uma situação, segundo Badiou, há três tipos de “termos-Uns” que são fundamentais. Como vimos, são eles: Normais, Excrescentes
e Singulares conforme se dá, em cada uma das hipóteses da relação entre Pertença e Inclusão, ou do seja, entre a apresentação e a representação em uma estrutura de “Conta-por-Um”. Estes três tipos são os conceitos mais primitivos de uma experiência, qualquer que seja ela. Ao mesmo tempo, estes três tipos resultam da separação do estado e da proteção forçada do Um contra toda fixação do Vazio em um Múltiplo pois, são eles que estruturam o que há de essencial em uma situação. Essas implicações são constatáveis no que se refere ao estado de uma situação porém, em relação à situação ontológica é necessário observar que esta tem por obrigação, enquanto ontológica, de ser sem estado. Evidentemente isso não resulta em que tal teoria da apresentação não empreste sentido à “Conta-por-Um” das partes na distinção entre Pertença e Inclusão. Badiou destaca então que:
De fato, se existisse um estado da situação ontológica, isso quereria dizer que o Múltiplo puro é não somente apresentado aí, mas representado, e que, por consequência, há uma ruptura de ordem entre uma primeira “espécie” de Múltiplos, aqueles que a teoria apresenta, e uma segunda “espécie”, os submúltiplos dos outros, cuja conta axiomática só o estado da situação ontológica, sua metaestrutura teórica, assegura. Mais profundamente, haveria metamúltiplos que só o estado da situação conta por um, e que são as composições de Múltiplos simples, estes diretamente apresentados pela teoria. (…) é inconcebível que a apresentação implícita do Múltiplo pela axiomática ontológica implique, de fato, duas axiomáticas disjuntas, a da apresentação estruturada e a do estado (…) a ontologia não pode ter suas próprias excrescências, ou seja, “Múltiplos” representados
sem jamais terem sido apresentados como Múltiplos, pois o que ela
apresenta é a apresentação (BADIOU, 1996, p. 87).
Como é possível depreender desta passagem, a ontologia deve por si mesma estabelecer que a “Conta-por-Um” dos elementos (subconjuntos) de um Múltiplo seja sempre um termo no espaço da apresentação do Múltiplo puro, ainda que, axiomaticamente tenha de acatar tal exigência sem limitação alguma. Desta forma, a ontologia levanta um escudo protetor que impede que sofra os efeitos do regime do desvio entre Pertença e Inclusão, ainda que, extraia destes efeitos o conceito de subconjunto. Com esta breve consideração em relação à ontologia, retornamos ao
Vazio.
Devemos lembrar que é o estado da situação que efetiva os esforços para barrar os efeitos de errância do Vazio que levariam ao caos da situação. Como o
estado da situação ontológica é inexistente, não são asseguradas as funções “anti- Vazio” do estado, ainda que a fixação do Vazio no lugar das partes seja inevitável.
ontológica ele é necessariamente um subconjunto, até mesmo em razão de que não há operadores especiais de conta que assegurem sua exclusão. O não-Ser do Um, efetuado plenamente pela ontologia, resulta na inexistência de um estado desta situação, além de sujeitar o engendramento do Vazio à pertença também acaba por levar à inclusão deste Vazio que, enquanto inapresentável, opera como que uma sutura da situação ao seu estado de forma inseparável.
Neste capítulo foi realizado o esforço de analisar e descrever a ontologia e a fenomenologia tal como Badiou as compreende na sua teoria. A proposta foi a de conectar a matemática com a noção de “Ser-enquanto-Ser” no que diz respeito à ontologia, ao mesmo tempo em que a conexão entre Lógica e “Ser-em-
apresentação” se estabelece no que diz respeito à fenomenologia. Para realizar tal
empreendimento foi necessário apresentar conceitos e elementos teóricos que são indispensáveis para a compreensão da proposta sustentada pela teoria de Badiou. Complementarmente, também foi possível no presente capítulo encetar algumas possíveis conexões do pensamento de Alain Badiou com a Filosofia hegeliana. Ainda que de maneira introdutória, foi possível antever a aproximação entre as concepções de “Ser-enquanto-Ser” e “Ser-em-si” e a de “Ser-em-apresentação” e “Ser-aí”. De toda maneira, no capítulo que segue, onde será enfrentada a questão do Acontecimento enquanto conceito e de todas as suas implicações para esta teoria, a aproximação entre as duas Filosofias – de Hegel e Badiou- tornar-se-á mais claramente justificada.
3. Capítulo 3. Acontecimento: a filosofia de uma articulação de Verdade e
Sujeito
Tendo apresentado e discutido os conceitos que formam a base da Filosofia do Acontecimento, demonstrando o movimento que vai do “Um é” para o “há Um” no esforço de pensar fora da normatividade do Um, como também a ontologia (matemática) e a fenomenologia (lógica), apresentando as principais questões envolvidas na compreensão do “Ser-enquanto-Ser” e do “Ser-em-apresentação”, o presente capítulo pretende abordar a noção do Acontecimento e as suas consequências mais importantes. Para a realização do aqui proposto, será necessário conectar as noções e conceitos já apresentados com novos elementos teóricos de modo a permitir uma compreensão da ideia acontecimental. Nesta tarefa, surgirá a oportunidade que permitirá apontar pontos de conectividade da Filosofia de Badiou, ao menos no que diz respeito à teoria do Acontecimento, com conceitos hegelianos que serão apresentados e discutidos no capítulo posterior.