PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
4. Normas da legendagem – princípios básicos
As normas da legendagem serão abordadas de uma forma sucinta, uma vez que na secção seguinte sobre os desafios do legendador enquanto profissional serão alvo de uma explicitação mais detalhada. Ao abordar a invisibilidade do legendador, torna-se indispensável referir as normas da legendagem. A relação da invisibilidade com a falta de informação por parte do público em geral acerca do trabalho do legendador e as normas que este deve seguir é notória.
Tal como já foi referido, a legendagem é uma modalidade que apresenta um texto escrito, a partir de um texto oral, geralmente na parte inferior do ecrã. Esta modalidade
transmite informações verbais e não verbais de acordo com as particularidades do género audiovisual em questão.
A existência de normas e convenções torna-se fulcral para o desenvolvimento da legendagem, uma vez que estas a regem e a organizam. O seu objetivo principal é ser uma base comum para a legendagem de forma a sistematizá-la e coordená-la, tornando, assim, os seus trabalhos de legendagem mais rigorosos.
A seguir, serão apresentadas algumas reflexões de profissionais da área da TAV, que só mais tarde entrariam para o mundo académico, daí a aparente falta de sistematização das suas abordagens à legendagem.
Em termos de legibilidade, Ivarsson (1992) menciona a importância do uso de uma fonte simples como Helvetica ou Universe e também o uso de minúsculas em vez de maiúsculas. O local da colocação do texto também é abordado, suscitando dúvidas, de acordo com a tradição de cada país, podendo este ser centrado no ecrã ou colocado mais à esquerda. É indispensável que a imagem não seja obstruída, limitando o texto a uma ou duas linhas no fundo do ecrã.
Karamitroglou (1998, 2000) sistematizou as convenções europeias numa série de parâmetros que devem ser tomados em consideração quando se está a legendar. Em termos de configuração, a legenda é usualmente colocada no fundo do ecrã ao centro. Deve ter no máximo duas linhas, sendo que em Portugal se estipulou que cada linha deve ter cerca de 37-38 caracteres, mas poderá ir até aos 42 caracteres em diferentes contextos. As fontes a serem utilizadas devem ser a Helvetica e Arial, de preferência, por motivos de legibilidade.
Em termos de duração, uma legenda completa de duas linhas deve estar no ecrã, no máximo, durante 6,5 segundos. No entanto, uma legenda completa de uma só linha, estará, no máximo, 3,5 segundos em exposição. No caso de ser uma legenda com apenas uma palavra, esta deve estar presente pelo menos 1,5 segundos. As legendas têm de ser inseridas, não em simultâneo com o iniciar da fala, mas sim cerca de 1/4 a 1/2 de segundo após os intervenientes começarem a falar. O tempo de pausa entre as legendas terá de ser, no mínimo, de 1/4 de segundo para que não haja uma sobreposição das mesmas. Este tempo de pausa é importante para que o cérebro processe a existência de duas legendas diferentes, de modo a não ser exaustivo para o espetador. Além disso, os oráculos e também os sinais presentes no ecrã devem ser representados em maiúsculas. Por sua vez,
25 as falas das personagens, que não estão visíveis, deverão estar em itálico (i.e, chamadas telefónicas) (Karamitroglou, 1998, 2000).
Ivarsson (1992) demonstra a relevância da coerência, sendo que é imprescindível que as traduções estejam corretas bem como o recurso às omissões seja utilizado quando necessário. O trabalho efetuado deve ser sempre alvo de uma revisão conduzida pelos próprios legendadores e outra, de preferência, realizada por uma outra pessoa. Além disso, até o original poderá conter erros, tal como aconteceu durante o meu estágio no Festival Internacional de Cinema de Avanca, que será explicado mais à frente. O tradutor/legendador pode recorrer a omissões, a paráfrases ou a elipses (em caso de redundância em relação à imagem), à supressão de informações que resultem incompreensíveis. A legendagem deve ser feita num vocabulário simples, cuidado, harmonioso através do uso dos sinais de pontuação corretos e com recurso às convenções sobre a mesma. Ivarsson e Carroll apresentaram um “código de boas práticas de tradução”, que foi apresentado na 2nd Internacional Languages and the Media
Conference em Berlim, em 1998.
Por outro lado, Gottlieb (1997) aborda os nove pilares indispensáveis a quem se está a iniciar na área da legendagem. Primeiramente, é fundamental perceber o que se vai legendar e se é compreensível o que está a ser dito. De seguida, procura-se saber se realmente se percebe o contexto das palavras na forma em que são utilizadas. A existência de expressões idiomáticas, por exemplo, e a não compreensão das mesmas podem distorcer por completo o sentido de uma ação. Ter a noção da segmentação do diálogo, a sintaxe, e também perceber que se deve minimizar a perda de informação são dois critérios de grande relevância. A inserção, isto é, a entrada das legendas deve ser meticulosa, de forma a não prejudicar o espetador. Por último, mas não menos importante, é primordial uma revisão pormenorizada.
Para o ITC (1999), as prioridades das legendas são permitir tempo adequado de leitura e reduzir a frustração dos espetadores. Díaz-Cintas (2001) afirma que a apresentação das legendas deve obedecer a uma série de normas formais, técnicas e linguísticas. Em termos formais, incluem-se as convenções ortográficas e tipográficas de acordo com a língua de chegada. Tecnicamente, e sempre que possível, a primeira linha deve ser mais curta do que a segunda, formando uma espécie de pirâmide. As legendas devem ser colocadas de forma a que sejam refletidas no ritmo do filme, sendo estas indicadas à velocidade de leitura do público-alvo. A velocidade de leitura depende,
essencialmente, dos hábitos dos espetadores, isto é, quanto mais um espetador estiver habituado a ler legendas, mais fácil será acompanhar as mesmas.