QUADRO LEGAL E REGULAMENTAR DOS PARTIDOS POLÍTICOS E ENQUADRA MENTO ESTATUTÁRIO DO EXERCÍCIO DA MILITÂNCIA
3. O QUADRO CONSTITUCIONAL E REGULAMENTAR DOS PARTIDOS NA EUROPA Sistematizando os aspectos regulatórios dos partidos, van Biezen e Casal Bértoa (2014)
3.3 A PERSPECTIVA REGULAMENTAR DOS MILITANTES NO QUADRO EUROPEU Esta é uma tese sobre militantes, pelo que importa agora, relativamente aos países que
3.3.3 NORMAS DE CONTROLO ESTADUAL DO EXERCÍCIO DA MILITÂNCIA
Merece ainda destaque, por igualmente estar expressamente incorporada em várias leis, a consagração da militância como actividade reservada a cidadãos com direito de voto (art.ºs 6.º das lei romena e ucraniana, art.ºs 8.º e 11.º da lei búlgara), a pessoas físicas (art.º 2.º da lei alemã, § 2.º (2) da lei checa), maiores e capazes (art.º 3.º da lei eslovaca, art.º 2.º da lei polaca, § 5.º (1) da lei estoniana, § 2.º (3) da lei checa, art.º 6.º da lei eslovena, com a es- pecialidade dos menores que tenham completado quinze anos poderem aderir devidamente autorizados por quem tenha as responsabilidades parentais, art.º 21.º da lei sérvia, art.º 5.º n.º 1 da lei lituana), bem como a proibição de dupla filiação ou filiação simultânea (cfr., por exemplo, os art.ºs 8.º 1 da lei romena, art.º 6.º da lei ucraniana, art.º 11.º (2) da lei búlgara, § 2.º (3) da lei checa, art.º 5.º n.º 2 da lei lituana, e o § 5.º (1) da lei estoniana).
Uma matéria que também diz respeito à militância e que surge tratada em vários países, normalmente com acolhimento constitucional, dado que as suas implicações extravasam o âmbito restrito dos partidos, é a que concerne às incompatibilidades. Quanto a este tema recorta-se um regime semelhante, abrangendo diversas categorias (magistrados e membros das forças armadas, titulares de determinados cargos públicos), sendo evidente a preocupa- ção dos legisladores nacionais de evitar comprometer o exercício de determinadas funções na estrutura estadual com o exercício da militância, evitando diminuir a isenção, o prestígio e a imparcialidade daquelas. É o que acontece, por exemplo, nas leis da Grécia (Constituição art.º 29.º, n.º 3), Hungria (Constituição art.º XXIII, 8 in fine, e na parte relativa ao Estado art.ºs 24.º (4), quanto ao estatuto dos juízes do TC, 26.º (1) quanto ao estatuto dos juízes em geral, 29.º (6) quanto ao Ministério Público, 30.º (3) quanto ao Comissário dos Direitos Fundamen- tais, 45.º (4) quanto às Forças de Defesa, e 46.º (5) quanto à Polícia), Itália (Constituição, art.º 98.º em relação a militares, magistrados, polícias, diplomatas e representantes consulares), Bulgária (Constituição, art.ºs 95.º e 147.º, proibições do Presidente e Vice-Presidente pode- rem ocupar cargos de liderança partidária e dos juízes do TC serem membros dos partidos), Roménia e Sérvia (art.º 40.º n.º 3 e 55.º, respectivamente, abrangendo nos dois casos juízes
do Tribunal Constitucional, procuradores populares, magistrados, membros activos das For- ças Armadas, polícias e funcionários públicos), Eslováquia (Constituição art.º 137.º aplicável aos juízes do TC, 145.ºa, para juízes em geral, 151.ºa (3) para procuradores), e Eslovénia (Constituição art.º 42.º pra as Forças Armadas, 133.º para juízes, 136.º para procuradores, 166.º quanto aos juízes do TC)
O controlo exercido por alguns países sobre os números da militância, acompanhamento da sua evolução e abate dos membros nos respectivos registos é um aspecto que encontra eco nalgumas legislações e que merece aqui ser destacado. A este propósito, no caso da Estónia, o §8.º da LPP contém algumas regras formais a serem observadas no abate dos membros por demissão ou exclusão nas listas de militantes, processo acompanhado pelos tribunais, uma vez que neste país os partidos são obrigados a manter listas actualizadas junto do tribunal de registo da sede do partido. Um procedimento semelhante ficou consagrado na Lituânia, onde o art.º 8.º, n.º 8, da sua lei obriga os partidos a apresentarem listas actualiza- das dos militantes ao Ministro da Justiça antes das eleições a que pretendam concorrer, e na Sérvia, que obriga os seus partidos a manter registos escritos e numa base central electrónica dos seus membros. No respeitante à Lituânia, o regime de controlo do número de militantes é aliás relativamente severo em virtude do número de militantes ser especialmente importante para a manutenção de um partido. Neste país, um número inferior a 1000 levará à sua extin- ção, informação que deverá ser prestada pelo partido num prazo de trinta dias a contar da data do decréscimo, aos serviços competentes de registo das Entidades Legais, devendo os partidos que se vejam nessa situação procederem num prazo de seis meses à sua reorgani- zação sob pena de entrarem em liquidação.
Nos países cuja regulamentação se analisou verificou-se em quase todos a existência de constrangimentos ao exercício da militância em razão da nacionalidade. Este facto surge em regra referido, em primeira ordem, nalgumas leis através da menção simples ao requisito da cidadania do Estado. Aqui pode ser apontado como exemplo a lei de partidos eslovaca que delimita o círculo de eventuais militantes entre os seus cidadãos com mais de dezoito anos e direito de voto (§ 3.º). A necessidade de se ser cidadão é comum e surge com recurso a uma formulação semelhante igualmente nos ordenamentos alemão (art.º 2.º da lei de partidos: os partidos são associações de cidadãos e não serão considerados partidos se a maioria dos seus membros ou dos membros dos seus comités executivos foram estrangeiros), sérvio (art.º 21.º da lei de partidos: qualquer cidadão maior), polaco (art.º 2.º: cidadãos com direito de voto), lituano (art.ºs 2.º, 3.º e 5.º da lei de partidos: cidadãos da República da Lituânia, com dezoito ou mais anos), estónio (§ 48.º da Constituição: só cidadãos da Estónia podem pertencer a partidos políticos), romeno (art.ºs 1.º, 6.º e 8.º da lei de partidos, onde se refere serem os partidos associações de cidadãos romenos com direito de voto) e ucraniano (art.º 6.º na lei de partidos e 36.º da Constituição: só cidadãos com direito de voto). Noutros casos, a lei do estatuto pessoal, entendida como a lei da nacionalidade do indivíduo, não é decisiva para impedir a participação militante de nacionais de outros países, e até de apátridas. Com
efeito, ao lado de situações em que o requisito da nacionalidade se assume como essencial para a constituição do partido e a sua consideração como tal (Alemanha, Espanha) há outras em que se admite a extensão do direito de participação a cidadãos da União Europeia com capacidade activa, vivendo permanentemente no país e com mais de dezoito anos (§ 5.º da lei da estónia) e a não-cidadãos (apátridas) e cidadãos estrangeiros residindo legalmente no país (secção 26, capítulo IV da lei letã). Na Grécia a referência à nacionalidade surge logo no art.º 29.º da Constituição mas apenas em atenção à formação dos partidos. Uma norma que tratando este ponto da nacionalidade foge à regra é a constante do art.º 7.º da lei de partidos da Eslovénia. A atípica formulação que o legislador deste país escolheu, apesar de referir o impedimento de uma “pessoa estrangeira” poder fazer parte de um partido político, criou no entanto um estatuto especial que admite a pertença de estrangeiros aos partidos na qualidade de “membros honorários” se os estatutos do partido o admitirem. Esta excepção coexiste com uma outra dedicada aos cidadãos da União Europeia que também podem vir a ser militantes de partidos eslovenos desde que lhes tenha sido reconhecido o direito de voto a partir da data de admissão do país na União Europeia (art.º 7.º da lei de partidos da Eslovénia). Na Finlân- dia, a secção 7a inculca a ideia de que estrangeiros poderão fazer parte dos partidos, uma vez que não existe uma disposição expressa que o impeça e a redacção da norma mencionada só se pronuncia inequivocamente sobre a proibição dos estrangeiros poderem fazer parte da direcção dos partidos.
Uma segunda ordem de constrangimentos, para além dos acima referidos e que surgem em textos constitucionais, filia-se na existência em quase todos os países de um regime de incompatibilidades em razão já não da nacionalidade mas da profissão do indivíduo. Tal como no capítulo seguinte se observará quando se analisar o caso português, evidencia-se em qua- se todos os ordenamentos uma proibição expressa de desempenho de determinadas profis- sões ou cargos na estrutura política do Estado com a pertença a um partido ou uma militância activa. O exercício da militância está em regra vedado a magistrados, membros das forças armadas e policiais em geral. A estas categorias acrescentam-se por vezes os provedores de justiça, os diplomatas, o pessoal que exerça funções consulares e funcionários públicos em geral99.
99 Na Lituânia exige-se que o Presidente suspenda o exercício da militância (art.º 83.º). Na Polónia o re-
gime das incompatibilidades apresenta-se como o mais apertado de todos em virtude de às categorias tradicionais acima referidas se juntarem ainda os membros do Conselho Nacional da Rádio e TV e o Presidente do Banco Central. Na maioria dos países, o regime das incompatibilidades relativamente à militância parece estar na maioria dos países num patamar de maior relevância por comparação com outros requisitos que surgem na legislação secundária, pois que são inúmeras as disposições constitu- cionais que a elas se referem (art.ºs 43.º, 133.º, 136.º e 166.º da Constituição eslovena, art.ºs 6.º e 27.º da lei fundamental de Espanha, art.º 127.º da Constituição ucraniana, art.º 55.º da Constituição sérvia e 21.º da lei de partidos deste país, art.ºs 178.º, 195.º, 205.º, 209.º, 214.º da Constituição polaca, art.ºs 35.º, 83.º, 113.º e 141.º da Constituição lituana, art.º 98.º da Constituição italiana e art.º 29.º, n.º 3 da Constituição grega).
4. CONCLUSÃO
O quadro constitucional e regulamentar que se traçou visou apresentar os traços mais relevantes que condicionam o exercício da militância em diversos países, fazendo ressaltar os pontos de contacto entre os diversos sistemas e enaltecendo aquilo que de diferente pode ser encontrado em cada um deles. O que acima se registou não esgota uma apreciação país a país, de cariz mais descritivo100, que embora perdendo para uma perspectiva analítica mais
comparativa se crê ser igualmente útil e esclarecedora para evidenciar de forma individualiza- da a diferença de regimes de país para país. Crê-se que com o capítulo seguinte, quando se abordar o caso específico de Portugal, será possível completar o que aqui se deixou.
Sem prejuízo disso, levando em consideração os países referenciados na primeira colu- na do Quadro 6.4, reparar-se-á que somente a Alemanha pode ser considerada uma velha democracia. Estranhar-se-á a sua inclusão ao lado de países cujas democracias resultaram dos movimentos da terceira vaga iniciados por Portugal e da queda do Muro de Berlim com o alargamento a Leste do modelo democrático-liberal. Também os países incluídos no refe- rido quadro no elenco afloração e remissão correspondem a novas democracias. Acresce que igualmente todos os países aí presentes são da Europa Central e do Leste partilhando o facto de terem vivido todos o pós-II Guerra e o período da Guerra Fria sob influência da defunta União Soviética. Também se verifica que nas respectivas regulamentações internas a militância não mereceu tratamento autónomo nem especialmente desenvolvido, embora surjam algumas referências de carácter genérico. Por outro lado, com excepção da Ucrânia, cuja constitucionalização dos partidos remonta a 1996, todos os demais países deste grupo procederam à constitucionalização dos partidos em 1989 (Hungria), 1990 (Croácia), 1991 (Bulgária, Eslovénia e Roménia) e 1992 (República Checa, Eslováquia e Polónia), perten- cendo todos, de acordo com a perspectiva de van Biezen (2009) à quarta vaga. Esta razão explicará a similitude que existe quanto a esta matéria entre as legislações destes países. Em rigor, entre os países das duas primeiras colunas do Quadro 6.4 a maior diferença estará no grau de desenvolvimento e profundidade dos regimes respectivos.
Finalmente, no que aos países de remissão directa para os estatutos dos partidos ou silên- cio encontra-se neste elenco, com a única excepção da Grécia, o grosso das velhas demo- cracias europeias e das que se consolidaram antes da terceira vaga, e que, talvez por essa razão, não terão sentido necessidade de desenvolverem e aprofundarem regimes aplicáveis à militância, dando uma maior liberdade aos partidos e aos respectivos estatutos quanto à conformação dos modelos em que operam. Em comum, entre todos os países deste grupo, o facto de nada se dizer sobre a militância ou de tudo aquilo que a esta interessa ser objecto de expressa remissão sem mais considerações.
CAPÍTULO VII
EVOLUÇÃO DO ENQUADRAMENTO LEGAL DA MILITÂNCIA EM PORTUGAL