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DIVINO: DA EUROPA PARA O BRASIL

Capitulo 4 ELEMENTOS FORMATIVOS DA CULTURA

4.3 Normas e disciplina escolar

A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que fizeram é conforme a regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade de submetê-los a uma perpétua pirâmide de olhares. É assim que no exército aparecem sistemas de graus que vão, sem interrupção, do general chefe até o ínfimo soldado, como também os sistemas de inspeção, revistas, paradas, desfiles, etc., que permitem que cada indivíduo seja observado permanentemente (FOUCAULT, 2010, p. 106).

Falar sobre as normas e disciplina escolar que perpassou os espaços do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, no período que se estende do seu início de funcionamento, ano de 1927, até à década de 40 do século XX, significou considerar o contexto cultural em que essas práticas ocorreram. Implica também especificar os procedimentos de vigilância, acompanhamento e orientação acionados nos dispositivos da Escola pela direção e pelas professoras que produziam diariamente a uniformização do sistema de ensino que a propagação do modelo escolar pretendia para a educação dos alunos.

Assim como nos fala Foucault (1997), as normas e disciplina é revelada na leitura do sujeito em movimento, nas formas de condução de controle do seu corpo, das ações, dos gestos, dos comportamentos. Nessa compreensão, a disciplina busca para além de moldar os comportamentos humanos, fabrica corpos submissos, como destaca Rodrigues (2007):

a disciplina, mais do que moldar os comportamentos humanos, fabrica corpos submissos, numa submissão em que é dispensada a violência física, pois ela age através do controle ideológico do corpo, no uso de dispositivos repetitivos silenciosos. No caso específico de uma instituição escolar, essa violência, que é uma violência simbólica dá-se através do estabelecimento de regras, condutas, normas, ordenações rotineiras, nos horários em que os indivíduos estão cumprindo um Estatuto interno que controla os sujeitos no que fazem e no como fazem as ações diárias. (RODRIGUES, 2007, p. 224).

Ao transpor o conceito de disciplina para a nossa análise, evidenciamos o efeito dos diversos dispositivos utilizados no Colégio Nossa Senhora das Vitórias para manter em funcionamento a ordem e a organização rigorosa das classes, dos espaços ocupados no interior da escola por docentes, pelos alunos. O regulamento interno da instituição, o olhar meticuloso

e centrado da diretora, da professora, como forma de controle das ações das alunas, era exigido que nada estivesse fora do controle, conforme as normas da instituição. No Colégio Nossa Senhora das Vitórias, não se utilizava de punições físicas, como palmatória, ficar de pé e encostado na parede ou com os joelhos sobre milho. Conforme destaca o relatório anual ano de 1928, os gestos afetuosos das mestras deveriam orientar as normas de disciplina escolar: “No Colégio Nossa Senhora das Vitórias, as mestras dessa instituição sempre guiadas pelo amor do bondoso Deus, devem orientar seus educandos com carinho e afeto, mas não se esquecendo de apresentar-lhes a importância da disciplina para a formação do cidadão” (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1928).

O Colégio Nossa Senhora das Vitórias organizava suas normas e disciplina escolar através do “ Regimento do Colégio”, cujo conteúdo era apresentado para os pais e os próprios estudantes no momento da matricula pela superiora da escola (REGIMENTO INTERNO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1928).

Elaborado em 1928 O Regimento para as educandas do Colégio Nossa Senhora das

Vitórias, dirigido pelas Irmãs da Congregação Filhas do Amor Divino, no documento

materializa o pensamento vigente sobre como pensavam os modos de ser e fazer da instituição escolar para a educação das meninas7. Desde o asseio e vestuário das alunas externas e internas, passando pelos horários de aulas e conteúdo básico para as aulas de catecismo e práticas de prendas domésticas.

Conforme o Regimento Interno, no ato da matrícula as estudantes apresentavam certidão de batismo, atestado de vacina e comprovante de que não eram portadoras de doenças infectocontagiosa. Para as alunas internas era exigido um enxoval composto dos seguintes itens:

1 colchão de 1m 80cm x 70cm; 1 travesseiro; 1 coberto de lã; 1 colcha branca; 2 lençois; 6 fronhas; 4 guardanapos; 4 pares de meia; 12 toalhas de rosto; 4 toalhas de banho; 2 combinações; 12 camisas de dormir; 6 calças; 1 sombrinha; 1 par de calçados preto (salto baixo); 2 pares de tênis; 1 saco de roupa servida; 2 copos de alumínio; 2 pentes (grosso e fino); tesourinha; escova; pasta para dentes; escova de roupa; graxa; bacia; jarro; sabonete; talher; 1 colher para sopa; 1 colher para chá; pratos e xícaras; 1 cadeira ─ Uniforme ─ Aventais conforme modelo do Colégio ─ Saia de casimira azul- marino; Blusas de tricoline e de seda branca; 3 veos de filó. Todo o enxoval deve ser marcado com o número que for dado à aluna por ocasião da admissão (REGIMENTO INTERNO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1928, fl. 3).

7 Apesar do ano de 1928 apresentar a matricula de meninos, não encontramos menção sobre regras destinada para os meninos e parte desse material com desgaste do tempo não tivemos acesso por completo.

O rigor com o fardamento escolar expressava a organização do Colégio, ressaltando aspectos relevantes sobre a aparência e higiene. Nas atividades escolares as alunas vestiam um uniforme composto por uma saia de Casimiro azul-marinho, blusa de tricoline branca e sapato preto baixo. Para as solenidades festivas e comemorativas, as alunas vestiriam a saia de Casimiro azul-marinho com uma blusa de seda branca e uma boina azul-marinho. (REGIMENTO INTERNO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1928).

Figura 33: Fardamento escolar do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano 1928. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias.

Figura 34: Fardamento escolar do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano 1928. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias.

Ainda o Regimento interno destaca que para as atividades destinadas a culinária, aos trabalhos manuais como pintura e bordado acresciam um avental ao fardamento. Tais disciplinas faziam parte do universo feminino, como forma de educar para as atividades domésticas ou as vezes para contribuir com o sustento da família.

Figura 35: Exposição de trabalhos manuais, ano de 1941. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias.

Para a realização dessas atividades, era ressaltado a importância do silêncio, da atenção e organização dos materiais por parte das alunas, assim desenvolver a atividade com primor. Conforme expressa o regimento interno do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, encontramos no artigo I as seguintes informações:

O Colégio Nossa Senhoras das Vitórias, fundado a 9 de março de 1927, está sob a direção das “ Filhas do Amor Divino”, conforme o programa ministrado em nosso estabelecimento, abrange todos os conhecimentos uteis ao espírito, cultivando também o gosto e aptidão da aluna para os trabalhos manuais próprios de uma senhora. Para o desenvolvimento dessa atividade, as irmãs desse colégio orientam a importância do silêncio, atenção e organização dos materiais são primordiais para o primor do resultado. (REGIMENTO INTERNO DO COLEGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1930).

Os trabalhos manuais voltaram a ser mencionados no relatório anual, apresentando uma exposição realizada no Colégio, destacando a organização das alunas, a disciplina para a elaboração da atividade e participação da sociedade para prestigiar o evento. Era um momento importante para a instituição apresentar os resultados das atividades realizadas sob orientação das freiras.

Foi realizado nesse Colégio a aula de trabalhos manuais, antes da sua realização apresentamos as alunas a importância da disciplina, evitar conversas paralelas, evitar colocar sobre a mesa com pincel ainda com tinta, ter leveza no momento da pintura. Com alegria e satisfação hoje após a realização das atividades iniciamos a organização para exposição, feito com muito primor e amor. Estiveram presente os pais das alunas e visitantes ilustres da cidade de Assú. Todos elogiaram e ficaram encantados com a excelente organização e trabalho das alunas, sob a orientação das irmãs das” Filhas do Amor Divino. ” (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1941).

Dentre as atividades da rotina escolar desenvolvida no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, identificamos as práticas religiosas, essas conforme mencionada no relatório anual, tinha como principal objetivo dar significação e valor absoluto à vida das alunas, formando para além de conhecimentos, mas formar o espírito.

O Colégio Nossa Senhoras das Vitórias, fundado em 9 de março de 1927, está sob a direção das Filhas do Amor Divino que tem por fim, ministrar às alunas, a educação essencialmente religiosa para dar significação à vida, tornando-a proveitosa e fecunda. Diariamente desenvolvemos atividades religiosas na capela dessa instituição, iniciamos antes das 07h da manhã, os momentos de oração são de suma importância para formação. Conhecendo que a escola tem por principal escopo, não comunicar apenas as educandas, uma determinada soma de conhecimentos, mas formar seu espírito, é que as religiosas desse

estabelecimento procuram inculcar nas alunas que lhes estão confiadas, ensinamentos sadios, que habilitem a ser mais tardes, educadoras modelares e exemplares mães (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1942).

Os programas curriculares da maioria dos colégios confessionais destinados à educação feminina primavam por uma educação refinada, permeada de valores religiosos, sensibilidades, imagens e gestos cuidadosamente construídos, que traçavam os contornos da “moça de família”, devota, bem preparada para assumir a função social de esposa e mãe.

A capela inicial do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, espaço frequentando pelas alunas em vários momentos do dia, em especial pelas alunas internas, na realização de novenas, vigílias. Conforme Amorim (1977), a capela já não preenchia a sua finalidade, acanhada, de pequena dimensão, não comportava o número de fies que ali iam assistir as cerimônias religiosas.

Figura 36: Capela do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, 1942. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias.

Ainda no relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, destaca o rigor com as alunas internas, na vestimenta, horários, momentos de oração. Dentre as atividades estabelecidas no Regimento escolar estava o rigor com as alunas no momento da oração, em especial das alunas interna que tinha início às 05h30 e que também deveria acontecer ao longo do dia na capela do Colégio, em silêncio, de olhos fechados, praticar o jejum quando necessário e rezar todos os dias pela manhã a oração da madre Fundadora Madre Francisca Lechner (REGIMENTO INTERNO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO 1928).

Oração de Madre Francisca Lechner

Nenhuma manhã, sem oração fervorosa. Nenhum trabalho, sem boa intenção.

Nenhuma alegria, sem um obrigado a Deus. Nenhuma palavra, sem lembrar do onipresente. Nenhum sofrimento, sem paciente resignação. Nenhuma ofensa, sem perdão.

Nenhuma falta, sem arrependimento.

Nenhuma ação do próximo, sem benigna interpretação benignamente. Nenhuma boa obra, sem humildade.

Nenhum pobre, sem auxílio

Nenhum sofredor, sem uma palavra de conforto. Nenhuma noite, sem exame de consciência. (Oração de Madre Francisca Lechner, S/D)

Evidenciamos que a implantação dos dispositivos disciplinares desenvolvidos no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, estão entrelaçadas com os preceitos ascéticos e salvacionistas da própria religião católica e de um Estado que prezava pela higienização e normatização social. A educação religiosa representava uma forma de educação do corpo para o aprimoramento do espírito, uma vida longe de vícios, das influências e desvios mundanos. Baseando-se em preceitos moralistas, existia a preocupação de modelar comportamentos, uma educação que servia para manter um modelo baseado em diferenciações de comportamentos para o homem e para a mulher.

Essa perspectiva de comportamento está explicito nas orientações de Madre Francisca Lechner para suas escolas. “Dia e noite as irmãs estejam atentas à ordem e disciplina dos que lhes são confiados, afastando-os de qualquer influência negativa e que não propicie um bom desenvolvimento das atividades escolares” (BINDER S/D Apud LECHNER, S/D).

Considerando que o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, foi pensado para educar as meninas, os cuidados deveriam ser redobrados, submetidas a uma disciplina, uma formação para ser boa mãe e esposa, preceitos que acompanhava as ideias de formação feminina quando se criaram Instituições Escolares especifica para educar e moldar as ações diárias das meninas (MAGALHÃES JÚNIOR, 2002, p. 79).

Nesse sentindo, os efeitos dos vários dispositivos eram usados para manter o funcionamento e organização rigorosa das classes, dos espaços ocupados pelas professoras e alunas. O regulamento interno, o olhar meticuloso da Madre superiora, da diretora, da professora, o controle disciplinar nas formas de comportamento, nas formas de se vestir, na utilização dos métodos de ensino, possibilita perceber o controle dessas meninas (RODRIGUES, 2007).

Figura 37: Sala de estudos das alunas internas, ano de 1942. Fonte: Educandário Nossa Senhoras das Vitórias.

Ao visualizarmos a imagem logo acima tem a seguinte identificação “ Sala de estudos das alunas internas do Colégio Nossa Senhora das Vitórias em 1942. No regimento interno do Colégio menciona que as alunas internas realizavam atividades isoladamente das alunas que frequentavam o horário normal. Compreendemos que essa divisão tinha como objetivo, preservar as meninas do contato com um mundo externo ao da instituição e apresentar o rigor, as normas e a disciplina estabelecidas pelo Colégio Nossa Senhora das Vitórias.

Nas imagens percebemos que existia uma preocupação em transmitir as normas e disciplina da escola, parecia que nada estava fora do lugar, salas organizadas, alunos sentados enfileirados em posição ereta com atenção para o professor. Não apenas na sala de aula, mas em outros espaços da escola, existia uma organização que aos nossos olhos parece irretocável, como apresenta nas imagens do refeitório, da biblioteca.

Figura 38: Alunas no refeitório, ano de 1942. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias

Figura 39: Alunas do Ginásio na biblioteca do Colégio, ano de 1947. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias.

Evidenciamos que a implantação dos dispositivos disciplinares desenvolvidos no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, estão entrelaçadas com os preceitos ascéticos e salvacionistas da própria religião católica e de um Estado que prezava pela higienização e normatização social.

A educação religiosa representava uma forma de educação do corpo para o aprimoramento do espírito, uma vida longe de vícios, das influências e desvios mundanos. Baseando-se em preceitos moralistas, existia a preocupação de modelar comportamentos, uma educação que servia para manter um modelo baseado em diferenciações de comportamentos para o homem e para a mulher.

Essa perspectiva de comportamento está explicito nas orientações de Madre Francisca Lechner para suas escolas. “Dia e noite as irmãs estejam atentas à ordem e disciplina dos que lhes são confiados, afastando-os de qualquer influência negativa e que não propicie um bom desenvolvimento das atividades escolares” (BINDER S/D Apud LECHNER, S/D).

Considerando que o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, foi pensado para educar as meninas, os cuidados deveriam ser redobrados, submetidas a uma disciplina, uma formação para ser boa mãe e esposa, preceitos que acompanhava as ideias de formação feminina quando se criaram Instituições Escolares especifica para educar e moldar as ações diárias das meninas (MAGALHÃES JÚNIOR, 2002, p. 79).

Dessa maneira, as rotinas da disciplina escolar deveriam ultrapassar os muros da escola, deveria ser aplicada em todas as manifestações culturais, ou seja, festividades e eventos da escola e também nas ações pedagógicas, nas formas como as meninas se vestiam, se alimentavam, nas diversas práticas que organizavam internamente o estabelecimento.

É preciso entender que são normas e práticas que precisam ser entendidas nos aspectos relativos ao contexto de sua produção, à sua finalidade, que varia segundo o tempo, podendo atender às questões de ordens diversas desde a religiosa, a sociopolítica ou de socialização e recai sobre os sujeitos que estarão envolvidos na obediência ou não das normas e no estabelecimento das práticas diárias do fazer da escola (GONÇALVES; FARIA FILHO, 2005).

A disciplina interna do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, previa o cumprimento de horário de chegada e saída, zelo com seus objetos, com a higiene de seu corpo, regras de etiquetas. Essas e outras atribuições exigidas aos alunos traziam a cena uma cultura escolar como um conjunto de normas que definia os conhecimentos e as condutas que deveriam ser apreendidas, segundo as finalidades da escola.

Para Julia (2001, p. 10-11) “as normas e práticas não podem ser analisadas sem se levar em conta o corpo profissional dos agentes que são chamados a obedecer a essas ordens e, portanto, a utilizar dispositivos pedagógicos encarregados de facilitar sua aplicação [...]”.

A partir dos estudos de Foucault (2011), é possível perceber que a disciplina se instituíram nas escolas e em outros setores sociais como elementos regulamentadores das atividades e dos comportamentos considerados impróprios. Considerando que o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, idealizado para educar as meninas, o rigor e os cuidados sobre os modos de ser e de fazer era diferenciado dos meninos. A exigência no comportamento, no controle sobre o corpo, a delicadeza e pudor deveriam fazer parte do cotidiano dessas meninas.

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