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CAPÍTULO II NORMA JURÍDICA E REGRA MATRIZ DE INCIDÊNCIA

2.2 Norma Jurídica: Juízo Hipotético-Condicional

2.2.2 Normas gerais e abstratas, individuais e concretas e processo de

Toda norma jurídica é composta de uma hipótese e um consequente, em decorrência do princípio da homogeneidade sintática que alberga todo o sistema jurídico, porém o referido princípio convive com o da heterogeneidade semântica. Em virtude disso, apesar de as normas jurídicas se organizarem sob a mesma estrutura formal, elas apresentam diferentes conteúdos, tornando possível classificá- las com base em diferentes critérios.

Ao se considerar o tipo de fato previsto no antecedente da norma e o tipo de relação jurídica que prescreve, é possível classificá-las em normas gerais e abstratas, ou em individuais e concretas.

Segundo Carvalho, P. (2009, p. 35), norma geral é “[...] aquela que se dirige a um conjunto de sujeitos indeterminados quanto ao número; individual, a que se volta a certo indivíduo ou a grupo específico de pessoas”. Contudo, a respeito do fato, o mesmo autor ensina que “a tipificação de um conjunto de fatos realiza uma previsão abstrata, ao passo que a conduta especificada no espaço e no tempo dá caráter concreto ao comando normativo”.

A norma geral e abstrata traz no seu antecedente a descrição hipotética de um fato, contido na lei, de possível ocorrência no mundo social, apto a produzir efeitos jurídicos no momento de sua ocorrência. Tem a função de anunciar os critérios (material, espacial e temporal) para o reconhecimento de um fato ocorrido na vida social, com o intuito de irradiar os seus efeitos jurídicos.

Em relação ao consequente da norma geral e abstrata, ele irá tratar dos efeitos jurídicos gerados por conta da realização do fato previsto na hipótese, fazendo irromper direitos subjetivos e deveres correlatos, delineando a previsão de uma relação jurídica (dado a ocorrência de um fato “A”, deve ser a instauração da relação jurídica entre “B” e “C”). Tem, ainda, a função de fornecer os critérios para identificação do vínculo jurídico que nasce, informando quem são os sujeitos da relação, o seu objeto e o momento em que deve se dar o seu cumprimento.

Cabe frisar, o descritor (hipótese) das normas gerais e abstratas não traz a descrição de um acontecimento especificamente determinado, mas alude a uma classe de eventos, na qual se encaixam infinitas ocorrências concretas. Da mesma

forma, o consequente não traz a prescrição de uma relação intersubjetiva especificadamente determinada e individualizada, alude a uma classe de vínculos intersubjetivos, na qual se encaixam infinitas relações entre sujeitos de direito.

Existirá, assim, para a construção dos conceitos conotativos das normas gerais e abstratas, no antecedente: (a) um critério material (delineador do comportamento); (b) um critério temporal (condicionador da ação no tempo); e (c) um critério espacial (identificador do espaço da ação); e, no consequente: (d) um critério pessoal (delineador dos sujeitos ativo e passivo da relação; e (e) um critério prestacional (qualificador do objeto da prestação) (CARVALHO, A., 2009, p. 361). Apenas com a conjugação desses dados indicativos pode-se compreender a mensagem legislada na sua plenitude e cumprir a conduta esperada pelo direito.

Satisfeito o requisito de pertencialidade aos critérios da hipótese e do consequente das normas gerais e abstratas, são produzidas as normas individuais e concretas. A norma individual e concreta documenta a incidência da norma. Prescreve, no seu antecedente, um fato concreto ocorrido num determinado momento de espaço e tempo, e no seu consequente uma relação jurídica com sujeitos e objetos delimitados.

Segundo Kelsen (1998, p. 260), a aplicação do direito é simultaneamente à sua criação. Logo, toda criação de norma jurídica, seja ela individual e concreta ou geral e abstrata, é sempre fruto de aplicação de norma superior. As normas introduzidas por meio de lei complementar são fruto da aplicação das normas constitucionais que disciplinam a matéria. O mesmo se dá com as normas individuais e concretas e com as gerais e abstratas, no entanto as primeiras são fruto da aplicação das segundas.

O processo de positivação do direito é o fenômeno em que se aplica o direito ao caso concreto. Aplicar o direito é o ato pelo qual o jurista abstrai a amplitude do dispositivo legal, fazendo-a incidir num caso específico, obtendo a norma individual e concreta, caracterizando o processo de positivação do direito.

Assim, construída a norma jurídica geral e abstrata pela interpretação dos enunciados do direito positivo e constatada a ocorrência no mundo concreto, daquele fato previsto no antecedente normativo (hipótese), através da linguagem das provas jurídicas dá-se a incidência. Entretanto, é mister a presença do homem para realizar a incidência da norma ao caso concreto, fazendo a subsunção e

promovendo a implicação que o preceito normativo determina. A norma não incide por força própria, ela é incidida. (CARVALHO, P., 2009, p. 11)

No processo de positivação do direito, existirá sempre a presença do ser humano sacando de normas gerais e abstratas outras gerais e abstratas ou individuais e concretas, para disciplinar juridicamente os comportamentos intersubjetivos.

Carvalho, P. (2009, p. 11-12) ressalta a importância do ser humano na movimentação das estruturas do direito positivo ao afirmar que

Numa visão antropocêntrica, requerem o homem, como elemento intercalar, movimentando as estruturas do direito, extraindo de normas gerais e abstratas outras gerais e abstratas ou individuais e concretas e, com isso, imprimindo positividade ao sistema, que dizer, impulsionando-o das normas superiores às regras de inferior hierarquia, até atingir o nível máximo de motivação das consciências e, dessa forma, tentando mexer na direção axiológica do comportamento intersubjetivo: quando a norma terminal fere a conduta, então o direito se realiza, cumprindo o seu objetivo primordial, qual seja, regular os procedimentos interpessoais, para que se torne possível a vida em sociedade, já que a função do direito é realizar-se, não podendo ser direito o que não é realizável, como já denunciara Ihering. E essa participação humana no processo de positivação normativa se faz também com a linguagem, que certifica os acontecimentos factuais e expede novos comandos normativos sempre com a mesma compostura formal: um antecedente de cunho descritivo e um consequente de teor prescritivo.

A norma não incide “automática e infalivelmente”, dependo sempre do homem para verificar a ocorrência, no mundo dos fenômenos, da descrição prevista na hipótese normativa, a fim de que se possa realizar o processo de subsunção do fato à norma e instaurar a relação jurídica que une dois ou mais sujeitos de direito.

2.3 Norma Jurídica Tributária: Regra Matriz de Incidência