2. Conceitos e teorias fundamentais na compreensão das redes transnacionais de advocacy8
2.5 Normas, princípios e práticas internacionais
Para uma melhor compreensão das redes transnacionais e das mudanças que possam eventualmente promover é de grande relevância entender as regras de interação entre os atores transnacionais e suas motivações de atuação na arena internacional. É nesse ponto que reside a importância da compreensão dos valores, ideias e princípios na construção de normas, e de que forma as normas moldam as práticas internacionais, tendo as redes como agentes promotores de fiscalização e produção normativas perante o sistema internacional.
Hedley Bull apresenta em seu clássico “The anarchical society – the study of order in world politics” de 1977, uma análise sobre a sociedade internacional e o papel que a ordem desempenha no sistema. O autor utiliza o termo ‘ordem internacional’ não no sentido da totalidade das relações entre os Estados, mas como conceito oposto a ‘caos’, no intuito de compreender a organização da estrutura existente da política internacional. A ordem não seria criada ou mantida por instituições ou pelo direito internacional, pois segundo o autor a ordem é anterior a elas e opera além delas. Na visão de Hedley Bull (2002) a sociedade internacional seria essencialmente formada por Estados que conscientes de que possuem interesses em comum se ligam por um conjunto de regras que seguem. Tais regras e normas são moldadas por princípios e valores dos quais compartilham. Assim, as normas seriam o resultado da
construção coletiva dos significados a elas atribuídos e seriam as responsáveis por aferir ordem ao sistema internacional. (BULL, 2002).
Contudo, para Hedley Bull (2002), qualquer noção de construção de princípios e valores como balizador do sistema internacional que inclua indivíduos e demais atores transnacionais como agentes apenas adicionaria caos ao cenário internacional. Em contrapartida, Keck e Sikkink defendem14 que o potencial coercitivo das normas reside no fato delas estarem profundamente enraizadas nas estruturas sociais e nas práticas reiteradas das mesmas. Assim, para as autoras a principal diferença (em relação a noção de Bull) será quanto ao papel e a motivação dos atores engajados nas redes transnacionais. Os ativistas transnacionais (agentes que formam as redes) agem alterando as práticas internacionais (aqui entendidas como ações reiteradas). Mudanças normativas são rupturas no sistema geralmente difíceis de serem promovidas pelos atores tradicionais (Estados), pois tais mudanças exigem que o ator questione práticas rotineiras e adote novas práticas. Os agentes nas redes transnacionais são autoconscientes do seu papel normativo e da capacidade de mudança normativa que possuem perante o sistema internacional ao promoverem mudanças nas práticas. As ideias e princípios impactam normas e esse é justamente o papel dos atores transnacionais engajados nas redes: trabalhar na construção de significados que posteriormente moldarão as normas que guiam o sistema internacional. (KECK; SIKKINK, 1998, p. 34-37).
A arena internacional, onde Estados e atores transnacionais se encontram, geralmente é pouco harmoniosa, não apenas por representarem formas distintas de organização (horizontal versus vertical), mas principalmente por possuírem visões bastante conflituosas quanto aos propósitos que buscam. A atuação dos ativistas transnacionais visa, sobretudo, a construção de significados, o que torna o fenômeno difícil de ser observado objetivamente. A atividade realizada por esses atores é quase toda voltada para a mudança de significado e interpretações por parte dos atores que pressionam, atuam assim, na criação, institucionalização e monitoramento das normas que guiam o sistema internacional.
(KAGRAM; RIKER; SIKKINK, 2002, p. 11).
Se o principal objetivo das ações coletivas transnacionais é compelir a observância e colaborar na criação e reconstrução das normas internacionais é de extrema importância compreender o que são normas e sua diferença com princípios e ideias. Segundo Kagram,
14 As autoras utilizam as ideias de Peter Katzenstein e Audie Klotz sobre o papel das identidades, e da importância das regras de interação cultural e social na construção das normas internacionais. (KECK;
SIKKINK, 1998, p. 34).
Riker e Sikkink (2002) normas são as crenças intersubjetivas (construídas e compartilhadas pela coletividade) acerca do comportamento apropriado que se espera que o ator adote dentro de um determinado contexto. Na arena internacional, as normas são comportamentos que se espera que Estados, Organizações Internacionais e atores transnacionais, aceitem e adotem.
(KAGRAM; RIKER; SIKKINK, 2002, p. 13).
Em contrapartida, as ideias são crenças individuais e podem ser divididas em ideias causais. São geralmente evidências científicas, ideias pautadas em princípios (principled ideas) e são menos evidentes de serem determinadas. Quando ideias pautadas em princípios ganham ampla aceitação entre os diversos atores, elas se tornam, então, uma norma. Tanto teóricos acerca dos movimentos sociais, quanto teóricos acerca de normas se interessam pelo processo de transformação de crenças pessoais em crenças coletivas e, posteriormente, em normas. Em alguns casos as redes trabalham a reconstrução de significados em relação a normas que já existem, porém, em alguns casos falta uma norma internacional que direcione o comportamento dos atores. Nesse caso as redes buscam mobilizar consenso em torno da construção de um enquadramento através da ação coletiva. (KAGRAM; RIKER; SIKKINK, 2002, p. 14-15).
As redes são capazes de alterar concepções prévias que se possuía acerca dos interesses do Estado, pois ensinam aos Estados relutantes como se comportar de forma legitima perante o sistema internacional. Assim, as redes promovem normas que não apenas enfatizam o comportamento apropriado, mas ajudam a definir a própria noção de prerrogativas do Estado. As normas de direitos humanos também apontam os limites apropriados de intervenção internacional e definem o comportamento que constitui os atributos necessários do Estado liberal. (KAGRAM; RIKER; SIKKINK, 2002, p. 16). Uma forma que as redes encontram de “ensinar normas” e fiscalizar o cumprimento de normas é internacionalizando as controvérsias da política doméstica. As ONGs ampliam, interpretam e legitimam reivindicações locais apelando para normas internacionais. Assim, as redes usam a arena internacional como um palco ou espelho para manter o comportamento das Organizações Internacionais e Estados sob escrutínio internacional, expondo ao julgamento global aquele Estado violador de tais normas. (KAGRAM; RIKER; SIKKINK, 2002, p. 17)
O papel dos atores transnacionais na criação ou recriação de significados, e da aplicação de normas perante o sistema internacional, bem como o constrangimento que são capazes de promover ao comportamento dos Estados está sintetizado na citação abaixo
As ONGs amplificam, interpretam e legitimam reivindicações locais apelando às normas internacionais. As redes usam a arena internacional como um palco ou espelho para manter o comportamento das organizações internacionais e dos Estados sob aprovação e julgamento global. Elas buscam expor ou divulgar o comportamento daqueles que violam a norma internacional de forma a compelir as autoridades públicas e corporações privadas a obedecer às normas. Ativistas de direitos humanos chamaram esta ação de "mobilização da vergonha15 . (KAGRAM;
RIKER; SIKKINK, 2002, p. 16).
A mobilização da vergonha (‘mobilization of shame’) tem a finalidade de tornar público comportamentos que firam normas internacionais de forma a constranger publicamente Estados, Organizações e corporações que não observem tais normas de forma a obrigá-los a se adequar sob pena de exposição ao escrutínio público, tarefa na qual a mídia é imprescindível. A mídia é considerada uma aliada central das redes e grande parte da atuação da rede é direcionada para ganhar a atenção da mídia. Assim, atividades que teriam permanecido desconhecidas antes do advento das redes transnacionais agora passam a ser expostas. As redes, as coalizões e os movimentos transnacionais não são os únicos atores normativos da política mundial, mas sim emprestam seu peso a certas posições normativas em relação aos outros atores. (KAGRAM; RIKER; SIKKINK, 2002, p. 17).