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1.2 Normas e tradução

1.2.2 Normas, Regras e Idiossincrasias

Uma leitura mais atenta do item anterior pode nos conduzir à capacidade de definir, de

forma distinta e independente, os conceitos de convenções e normas. Contudo, é preciso

lembrar que, como visto, as ações são constantemente negociadas e o papel de cada norma

nunca é o mesmo. Portanto, a gradação e a distinção entre elas são muito relativas. A

diferenciação entre o que seria uma convenção e uma idiossincrasia só vai existir em um

âmbito conceitual e de acordo com quem as define. Para nós, interessados no funcionamento

de uma determinada comunidade – a comunidade internacional interessada nos artigos

científicos de Geriatria e Gerontologia –, analisar as coerções genéricas e específicas

relacionadas ao comportamento da mesma é fundamental. Vale lembrar que, em termos de

gradação, Toury (1999, p. 16) situa as normas entre as regras, ou seja, espécie de normas mais

explícitas e objetivas, e as idiossincrasias, por sua vez, uma espécie de normas mais difusas e

subjetivas. De acordo com Carvalho (2005, p. 49), “na extremidade mais forte estariam as

regras gerais, amplamente aceitas e consideradas, por assim dizer, absolutas, e, na mais fraca,

as idiossincrasias.” As normas ocupariam o espaço entre elas, podendo assumir o caráter de

regra absoluta ou de idiossincrasia quando próximas desse eixo. Para entender melhor,

podemos afirmar que as regras e as idiossincrasias não passam de uma variação das normas.

Elas não são entidades independentes. As regras são normas mais objetivas e as

idiossincrasias são normas mais subjetivas. A idiossincrasia é uma constituição individual, em

virtude da qual cada indivíduo sofre diferentemente os efeitos da mesma causa, como também

qualquer detalhe de conduta peculiar a um determinado indivíduo que não possa ser atribuído

a processos psicológicos gerais, bem conhecidos. Em outras palavras, é uma particularidade

comportamental própria de um indivíduo ou grupo de pessoas, responsável pelo entendimento

de uma situação segundo a sua formação educacional e a sua cultura.

A Tabela 2 exemplifica claramente o que Toury denomina de continuum graduado, ou

seja, o tempo e o espaço onde as normas operam, o vasto terreno entre as regras e as

idiossincrasias. Algumas normas operantes neste terreno podem ser mais absolutas, como as

regras, ou mais subjetivas, como as idiossincrasias. A pesquisadora Carolina Alfaro de

Carvalho (2005, p. 49) explica que

É claro que a gradação e a distinção entre as várias normas são relativas e um tanto quanto difusas, até porque os sistemas são dinâmicos, as ações são permanentemente renegociadas e o papel de cada norma nunca é totalmente cristalizado. A própria diferenciação entre o que seria uma convenção ou uma idiossincrasia só existe no âmbito da rede conceitual em que elas estão inseridas e de acordo com a perspectiva de quem pretende estabelecer essa diferenciação.

As normas podem variar não somente com o tempo, mas também entre as culturas.

Elas absorvem diferentes graus de coerção e generalização de acordo com cada cultura, cada

grupo, cada comunidade e cada pessoa, não esquecendo as relações políticas e de poder que

podem aparecer entre as mesmas. Desta maneira, algumas normas podem se tornar mais fortes

enquanto outras podem ficar mais fracas.

Essa diversidade de funções, assim como a convivência com normas características de

mais de uma cultura, constituem uma questão bastante relevante no contexto desse trabalho.

No final deste capítulo serão abordados os vários conjuntos de normas com os quais o

tradutor de artigos científicos da área de Geriatria e Gerontologia deve lidar em diferentes

circunstâncias de trabalho e como eles podem influenciar o resultado das traduções.

Tabela 2. Poder de coerção das normas sobre o comportamento

IDIOSSINCRASIAS NORMAS REGRAS GERAIS

Eixo mais fraco Eixo mais forte

Idiossincrasias: variação da norma (mais subjetivas)

Regras gerais: variação da norma, aceitas e absolutas (mais objetivas)

Normas: preenchem um vasto espaço, mas podem assumir as duas extremidades. (contínuo

graduado)

A noção de normas sociais integra amplamente o campo dos Estudos da Tradução,

tendo início com a publicação do trabalho de Toury intitulado “The nature and role of norms

in Translation Studies

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. Nesta pesquisa, as normas são entendidas como um fenômeno

sociocultural localizado entre dois extremos de uma escala de coerção sociocultural (TOURY,

1995). Em um extremo estariam as regras, no outro, as idiossincrasias e, no meio delas, as

normas. Uma norma pode estar mais ou menos próxima a cada um desses extremos. Ela

também é passível de mudança dentro da escala, podendo até desaparecer, aparecer, ou

mesmo mudar com o tempo. Desta forma, conforme apontado por Toury (1995, p. 54),

conclui-se que as normas são basicamente instáveis.

É durante o processo de socialização que os indivíduos aderem ou não às normas. Essa

escolha poderá acarretar sanções de vários tipos, podendo ser negativas ou positivas. É por

meio da observação das padronizações e dos comportamentos recorrentes que as normas

podem ser apreendidas e estudadas. As normas não podem ser observadas de forma direta,

mas pelos resultados imediatos do comportamento tradutório, por meio da observação do

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Publicado primeiramente em “In Search of a Theory of Translation Studies” (TOURY, 1980) e reproduzido quase totalmente em Descriptive Translation Studies and Beyond (1995).

texto, dos paratextos e dos metatextos. Para Kirsten Malmkjaer (2008, p. 50), os estudiosos da

tradução chegam a considerar informações como os fatores extratextuais, por exemplo, a

política tradutória, as limitações de publicação, os costumes e as crenças socioculturais, como

verbalizações claras de normas. Porém, fora da teoria, as normas raramente são verbalizadas

tão explicitamente, o que conduz à tendência de alguns tradutores de segui-las sem intenção,

de forma intuitiva.