Capítulo I – Enquadramento teórico, enquadramento normativo e revisão de estudos empíricos
1. Enquadramento Teórico
2.1. Evolução histórica no processo de normalização contabilística sobre instrumentos derivados
2.2.2. Normativo do International Accounting Standards Board
Conforme já referido anteriormente, na sequência do acordo entre o FASB e o IASB e da recente crise financeira internacional, o normativo do IASB sobre instrumentos financeiros tem vindo a sofrer profundas alterações, como a recente publicação da NIRF 9. Todavia, dado o espaço temporal objecto do nosso estudo, serão apenas abordadas, neste ponto, as disposições contidas nas normas do IASB, adoptadas pela UE, que vigoravam à data de 31 de Dezembro de 2009.
Norma Internacional de Contabilidade n.º 39 – Instrumentos Financeiros: Reconhecimento e mensuração (NIC 39)
A NIC 39 (§9) define um instrumento derivado como:
“um instrumento financeiro ou outro contrato (…) com todas as três características seguintes:
a) o seu valor altera-se em resposta à alteração numa taxa de juro, preço de instrumento financeiro, preço de mercadoria, taxa de câmbio, índice de preços ou taxas, notação de crédito ou índice de crédito ou outra variável, desde que, no caso de uma variável não financeira, a variável não seja específica de uma das partes do contrato (por vezes denominada «subjacente»);
b) não é necessário qualquer investimento líquido inicial ou um investimento líquido inicial que seja inferior ao que seria exigido para outros tipos de
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33 contratos que se esperaria que tivessem uma resposta semelhante às alterações nos factores de mercado; e
c) é liquidado numa data futura”.
Esta norma defende o reconhecimento de todos os instrumentos derivados no balanço, como activos e passivos (§14) e a sua mensuração pelo justo valor (§43 a §47), com reconhecimento dos ganhos e perdas, resultantes de alterações no justo valor, em resultados do período (§55).
Todavia, esta norma prevê um tratamento especial para operações de cobertura de risco, que dependerá da classificação da operação num dos seguintes três tipos de cobertura, identificados pela norma (§86):
cobertura de justo valor; cobertura de fluxos de caixa; e
cobertura de um investimento líquido numa unidade operacional estrangeira. a) Cobertura de Justo Valor
Uma cobertura classifica-se como de justo valor quando cobre a exposição a alterações no justo valor de um activo, de um passivo, ou de um compromisso firme não reconhecido, ou uma parte identificável de um activo, de um passivo ou de um compromisso firme não reconhecido, que seja atribuível a um particular risco e que afectará o resultado líquido relatado (NIC 39: §86).
Antes da sua revisão, em 2003, a NIC 39 não classificava os compromissos firmes não reconhecidos como coberturas de justo valor. O argumento do IASB para essa opção era de que se deveria evitar o reconhecimento de um compromisso como um activo ou passivo [“que de outra forma não seria reconhecido como um activo ou passivo segundo a prática contabilística corrente” (IASB, NIC 39, 1998: §140)] e deveriam, assim, ser classificados como coberturas de fluxos de caixa. O IASB alterou esta postura na sua alteração às NIC 32 e 39, em 2003. A razão para esta alteração prende-se com a intenção do IASB de aproximar as disposições da NIC 39 às disposições da SFAS 133 do FASB (IASB, NIC 39, 2003: §BC173)47. Contudo, uma cobertura de um compromisso firme não reconhecido,
47 Resulta de particular interesse destacar que, quer na norma para Pequenas e Médias Empresas, recentemente emitida pelo IASB, quer na NCRF 27, constante do novo Sistema de Normalização Contabilística, emitido pela Comissão de Normalização Contabilística portuguesa, os riscos de preço de “commodities” em compromissos firmes sejam tratados como cobertura de fluxos de caixa.
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denominado em moeda estrangeira, poderá ser classificada em cobertura de justo valor ou em cobertura de fluxos de caixa (IASB, NIC 39: §87).
Nas coberturas de justo valor, os ganhos ou perdas gerados no derivado de cobertura deverão ser imediatamente reconhecidos em resultados do período. Da mesma forma, as perdas ou ganhos na posição coberta, atribuíveis ao risco coberto48, deverão ajustar a quantia escriturada do item coberto e afectar imediatamente os resultados do período (NIC 39: §89). Deste modo, é possível medir a efectividade da cobertura, pois o ganho ou perda líquido, resultante de ineficácia de cobertura, será relatado nos resultados correntes (NIC 39: §90).
b) Cobertura de Fluxos de Caixa
Uma relação de cobertura classifica-se como cobertura de fluxos de caixa se cobre exposições a variações nos fluxos de caixa, atribuíveis a um determinado risco, associado a um activo ou passivo reconhecido ou a uma transacção prevista altamente provável, que se espera que venham a afectar os resultados (NIC 39: §86).
O ganho ou perda no derivado de cobertura que seja considerado como cobertura eficaz, deverá ser reconhecido em capitais próprios, através da demonstração de alterações no capital próprio. A parte do ganho ou perda, considerada ineficaz, deverá ser imediatamente relatada em resultados do período (NIC 39: §95).
A NIC 39 (§98) prevê ainda que, se a posição coberta for uma transacção futura prevista e der origem ao reconhecimento de um activo ou de um passivo não financeiro49, o ganho ou perda, incorrido no derivado de cobertura, acumulado em capital próprio, poderá ajustar o valor pelo qual seja reconhecido o activo ou passivo, ou ser removido do capital apenas quando o activo ou passivo resultante da transacção prevista afectar resultados.
c) Cobertura de um investimento líquido numa entidade estrangeira
Neste tipo de cobertura, os ganhos ou perdas, obtidos no derivado de cobertura, que resultem de uma cobertura eficaz, deverão ser reconhecidos em capitais próprios, através da demonstração de alterações no capital próprio. Os ganhos ou perdas resultantes de cobertura ineficaz deverão ser imediatamente reconhecidos em resultados (NIC 39: §102). Posteriormente, “o ganho ou perda resultante do instrumento de cobertura relacionado com a porção eficaz da cobertura que tenha sido reconhecida directamente no capital
48 Sublinhado nosso. 49 Sublinhado nosso.
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35 próprio deve ser reconhecido nos lucros ou prejuízos aquando da alienação da unidade operacional estrangeira” (NIC 39:§102).
Requisitos da contabilidade de cobertura
Para que uma determinada operação se possa qualificar para efeitos de contabilidade de cobertura, a NIC 39 (§88) exige que se verifiquem uma série de requisitos, de entre os quais se destacam a necessidade de existência de documentação formal do relacionamento de cobertura, do objectivo e da estratégia de gestão de risco da entidade, que a cobertura seja altamente eficaz e que a eficácia de cobertura possa ser mensurada de forma fiável e seja avaliada numa base contínua.
Fim da cobertura
De acordo com a NIC 39 (§91), a contabilidade de cobertura deve terminar quando a entidade revogar a designação da operação como sendo de cobertura de risco, quando a cobertura deixar de satisfazer os critérios de contabilidade de cobertura previstos na norma, ou quando o instrumento de cobertura expirar, for vendido, terminado ou exercido.
Norma Internacional de Relato Financeiro n.º 7 – Instrumentos Financeiros: Divulgações (NIRF 7)
Entretanto, em 2007, entra em vigor a NIRF 7, com o objectivo de exigir às entidades a divulgação, nas suas demonstrações financeiras, de informação que permita ao utilizador avaliar (NIRF 7: §1):
- “O significado dos instrumentos financeiros para a posição financeira e o desempenho da entidade;
- A natureza e a extensão dos riscos associados a instrumentos financeiros aos quais a entidade está exposta durante o período e na data de relato, assim como a forma como a entidade gere esses riscos”.
Segundo McDonnel (2007), as exigências de divulgação, de carácter qualitativo e quantitativo, previstas na NIRF 7, representam uma nova abordagem relativamente às restantes NIC/NIRF. De facto, de acordo com aquele autor, esta NIRF, expande, de forma significativa, o tipo e o nível de divulgações exigidas, relativas à forma como as empresas efectuam a avaliação e gestão dos riscos incorridos com instrumentos financeiros, e o cumprimento com estas exigências não será tarefa fácil.
No que concerne ao objecto de estudo do nosso trabalho, a NIRF 7, vem exigir a divulgação de informação relacionada com as políticas contabilísticas adoptadas, com o
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justo valor, métodos e procedimentos adoptados na sua determinação, os riscos incorridos com a contratação de instrumentos financeiros e políticas adoptadas na gestão desses riscos e com a contabilidade de cobertura.
Apresentamos, no quadro seguinte, um resumo das exigências de divulgação sobre contabilidade de cobertura, contidas na NIRF 750.
Quadro 1.1– NIRF 7 – Divulgações sobre coberturas de risco
Fonte: adaptado de Hausin, et al. (2008).