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CAPÍTULO 2 Contexto Geral

2.1 Os caminhos da participação

2.1.1 Nos passos da democracia

Ao buscar reconstruir o trajeto da discussão em torno dos limites e possibilidades da participação direta, adentraremos ao terreno da Teoria Política, mais especificamente no contraponto entre a tradição republicana e liberal (SANTOS & AVRITZER, 2003). Os principais pensadores modernos que trataram mais diretamente do tema da representação e da participação foram Thomas Hobbes (1588-1679) e Jean

Jacques Rousseau (1712-1778), mas foi somente na primeira metade do século XX que se fundou o que é entendido como a forma hegemônica da democracia.

Tal modelo, designado como democracia-liberal ou democracia representativa implicou, segundo diversos autores (SANTOS e AVRITZER, 2003; PATERNAM, 1999; LIMA JUNIOR, 1997), em uma restrição das formas de participação e soberania ampliadas. Um abandono do papel da mobilização social e da ação coletiva na construção democrática, em favor de uma supervalorização do papel dos mecanismos de representação como procedimento para a formação de governos. Ao longo do tempo, expandiu-se globalmente tal fórmula da solução representativa.

Schumpeter, em seu clássico livro Capitalismo, Socialismo e Democracia, originalmente publicado em 1942, vai enfatizar fortemente a solução representativa ao radicalizar a noção da democracia apenas como método e não como finalidade. Ele argumenta que a democracia é um simples método de produção de governos e a participação popular na política deveria ser restringida ao ato da produção de governos, isto é, ao voto. A cargo das elites eleitas recairiam todas as demais atribuições do governo capazes de gerar algum nível de racionalidade política (AVRITZER:1996). O eleitorado é visto por Schumpeter de forma extremamente negativa: “ fraco, sujeito a impulsos emocionais, incapaz intelectualmente de agir por conta própria e suscetível a influências externas” (LIMA JUNIOR, 1997, p.16). Desse modo, Schumpeter toma como preocupação o procedimento e as regras para tomada de decisão.

Na segunda metade do século XX, essa discussão vai recair sobre a inevitabilidade da burocracia diante de uma sociedade que se complexifica. Com o crescimento das funções do Estado ligadas ao bem-estar social, a partir da instituição do

welfare state nos países europeu, o interesse no crescimento da burocracia se fortalece

(SANTOS, 2003). Para Norberto Bobbio (1986),

À medida que as sociedades passaram de uma economia familiar para uma economia de mercado, de uma economia e mercado para uma economia protegida, regulada e planificada, aumentaram os problemas políticos que requerem competências técnicas. Os problemas técnicos exigem, por sua vez, expertos, especialistas. (Bobbio, 1986, p.33)

No mesmo texto, em seu livro O futuro da democracia, Bobbio acrescenta: “tecnocracia e democracia são antitéticas: se o protagonista da sociedade industrial é o especialista, impossível que venha a ser o cidadão comum (1986 p.34). No Brasil, esta visão tecnocrata ressurge, ao longo do tempo, como um certo elitismo de senso comum, em frases inolvidáveis de personalidades públicas, que durante o processo de reabertura política, afirmavam que “o povo não sabe votar” ou que “o povo não está preparado para escolher seus representantes”, numa manifestação clara de um ideário que considerava a democracia e o pluralismo partidário como campo de disputa entre elites (SANTOS, 2003).

A partir do final da década de 70, entra em discussão a qualidade da democracia oferecida pelo modelo representativo. Nos países centrais, o receituário neoliberal aprofunda as desigualdades e a exclusão social. O poder público não consegue dar resposta ao crescimento das demandas básicas de amplos segmentos sociais empobrecidos pelo drama do desemprego. Nos Estados Unidos, a prática democrática baseada na representação começava a enfrentar uma crise conhecida como de dupla patologia: patologia da participação, devido ao aumento dramático do abstencionismo eleitoral e a patologia da representação, pelo fato dos cidadãos se considerarem cada vez menos representados por aqueles que elegeram (SANTOS e AVRITZER, 2003).

Nessa mesma época, nos países periféricos, os regimes autoritários entram em crise e enfrentam a emergência dos movimentos sociais (CARVALHO, 1998), reforçando um outro receituário democrático – o da democracia participativa - que amplia a participação popular para além dos canais tradicionais da política (Legislativo). Surge daí a noção de participação plena ou participação cidadã, vista como “um processo capaz de gerar uma nova dinâmica de organização social, fomentando a intervenção da população nas políticas públicas” (LEROY e SOARES, 1998).

No Brasil dos anos 70, como reação ao regime militar que promoveu o fechamento de todos os canais de expressão e de negociação de interesses e de conflitos, surge país afora uma multiplicidade de organizações populares de base - clubes de mães, pastorais populares das igrejas, movimentos por creches, por saúde, contra a carestia – como forma de captar as demandas sociais represadas e gerar espaços públicos de atuação (CARVALHO, 1998). Destaca-se o papel da igreja católica no surgimento desses novos movimentos na cena pública brasileira, fundamentada por uma nova orientação, revelada a partir das conferências episcopais de Mellin (1968) e Puebla (1979), quando teólogos de vanguarda assumiram uma posição clara – a chamada “opção preferencial pelos pobres” - diante dos regimes ditatoriais que se alastravam pelo continente latino americano nas décadas de sessenta e setenta (CARVALHO, 1998; ANDRADE, 2004).

Surge nessa época também um novo sindicalismo, a partir do cotidiano dos grupos de oposição sindical dos metalúrgicos do Grande ABC. No campo, aflora o movimento sindical dos trabalhadores rurais a partir de uma reação aos violentos conflitos agrários. São exemplos da tentativa de construção de novos espaços de interlocução, de uma nova esfera pública (CARVALHO, 1998; GOHN, 1995,

SANTOS, 2002, FISCHER, 2002). Nos anos 80, formam-se as entidades representativas de todo esse rol de organizações populares de base, articuladas então em federações. É dessa época a criação da CUT7 (Central Única dos Trabalhadores), do PT8 (Partido dos Trabalhadores) e do MST9 (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). As pressões da sociedade que se organiza e da esquerda aglutinada sob uma das asas do bipartidarismo reinante no país (PMDB), fortalecida com o resultado das eleições de 1974 e 1978, quando consegue a maioria no Congresso, culminam com grandes movimentos e manifestações populares na década de 80 - Luta pela Anistia (1981), Diretas já (1984), Assembléia Nacional Constituinte (1986/1987).

Nesta época, como coloca Santos (2003), “o debate político colocou a democratização da vida política brasileira e a efetiva construção da cidadania no próprio centro da agenda política nacional” (2003: 459) O discurso que envolvia os debates constituintes de revela bem a tônica da tríade de intenções que a gestou: a defesa dos direitos de cidadania, a descentralização política e o reforço ao poder local (SANTOS, 2003; GOHN, 2004; HOUTZAGER, 2005).

Esse novo contexto político criou as condições para que as forças políticas de esquerdas – as que haviam saído da clandestinidade ou as que, entretanto, se tinham organizado – iniciassem experiências inovadoras de participação popular em governos municipais. Tal oportunidade política foi facilitada pelo fato de as forças políticas em questão estarem intimamente relacionadas cm os movimentos populares que, nos anos 60 e 70,

7 A CUT foi fundada em 28 de agosto de 1983, na cidade de São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo, no 1º Congresso Nacional da Classe Trabalhadora. (Site da CUT/Cronologia. Disponível em http://www.cut.org.br/historia/quem_somos.htm

Acessado em 19de Agosto de 2005)

8 Data de fundação do PT: 10 de . Fevereiro de 1980 - Manifesto de Lançamento do PT. Em 1º Abril, metalúrgicos do Grande ABC entram em greve salarial. O governo reage e prende 12 sindicalistas, entre eles, Lula. Em 1º de Maio acontece a primeira grande manifestação no estádio da Vila Euclides em São Bernardo (Sp), oinde cerca de 100 mil pessoas se reunem para protestar contra as pris]ões dos sindicalistas e pedir a abertura de negociações com os operários.(Site oficial do Partido dos Trabalhadores:

http://www.pt.org.br/ Acessado em 19 de Agosto de 2005)

9 O MST foi fundado em 24 de Janeiro de 1984, em Cascavel, no oste do Paraná. (25 anos da história do PT. Disponível em:

haviam lutado localmente, tanto nas cidades como no campo – em um contexto duplamente hostil de ditadura militar tecnoburocrática e de patrimonialismo clientelista -, a favor do estabelecimento e reconhecimento de sujeitos coletivos entre as classes subalternas. (SANTOS, 2003, p.459).

As experiências do orçamento participativo, a partir de administrações municipais do Partido dos Trabalhadores, e os conselhos de gestão setorial, criados a partir dos debates constituintes, são exemplos dessas novas formas de participação institucionalizadas.