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Nos ventos de uma esquerda internacionalista

4. INTERNACIONALISMO(S)

4.1 Nos ventos de uma esquerda internacionalista

Fonte: Conservatoire des mémoires étudiantes http://www.cme-u.fr

As contestações internacionais de 1968, que contaram com a presença ativa de jovens de mais de uma dezena de países, surpreenderam o mundo pelo compartilhamento simultâneo e legítimo de conceitos, leituras e proposições que, em seu conjunto, emergiam como alternativas a um dado modelo social de ordem capitalista ou socialista132.

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Entre as fontes interessantes de estudo dos acontecimentos de maio de 1968 francês está uma coleção de slogas e pixações reunida pelo site http://users.skynet.be/ddz/mai68/slogans-68.htm. Entre estes grafittes encontramos citados: “Abaixo a carcaça stalinista”, “Abaixo o realismo socialista. Surrealismo Vive – Condorcet”, “Viva o efêmero”, “Abaixo o Velho Mundo”, “Abolição da alienação”, "A Anistia: um ato pelo qual os soberanos freqüentemente perdoam as injustiças que cometeram." (Ambrose Bierce), “A ação não deve ser uma reação, mas uma criação. Censier”, entre muitos outros.

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Nas palavras de João Quartim de Moraes: “A contemporaneidade da mobilização estudantil brasileira com a que ocorria na Europa Ocidental, especialmente na França, Itália e Alemanha Federal, tem sido

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A eclosão de “revoltas”, antes de tudo, simbólicas, no espaço público, falava de “recusas” e “desejos” num mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que conferia estatura política a questões aparentemente sem lugar, como por exemplo, o reconhecimento dos desejos sexuais das mulheres, da dimensão humana dos homossexuais. Por outro lado, “os estudantes contestatários eram unânimes quanto à necessidade da união com os trabalhadores”, ainda que “esta aliança (...) encarada de várias maneiras no espectro político” também se constituísse no “principal tema de discordância” entre as organizações133.

Ainda, foi em meio a diferentes fundamentos políticos, emprestados das mais diversas matrizes de pensamento político (marxistas e não marxistas) que, na visão de Paul Berman, deu-se um rearranjo político movido por “um impulso moral que (...) foi algo que saiu da experiência de crescer no rescaldo do Mundo II Guerra Mundial (...) um senso combativo” atento à “maneira correta de expressar esses impulsos morais”134 e que se traduziu na defesa da liberdade, da solidariedade com os povos oprimidos do mundo.... Os

ressaltada nos diferentes eventos realizados entre nós por ocasião por ocasião dos aniversários decenais dos “acontecimentos de 1968”. A pertinência desta aproximação entre a cena nacional e a cena internacional é óbvia. Menos clara, entretanto, é a natureza da influência desta sobre aquela. O aspecto genérico desta influência, nos planos político e cultural, escapa a nosso tema, circunscrito ao exame das relações entre o movimento de massas e o desencadeamento da luta armada no Brasil em 1968. Notaremos apenas que o movimento estudantil de massa no Brasil e na Europa Ocidental foram demasiado contemporâneos, no sentido cronológico do termo, para que se possa falar em relação de causa a efeito entre este e aquele. Basta lembrar que o primeiro ato da rebelião estudantil na França ocorreu na Universidade de Nanterre a 22 de março de 1968 (ocupação da sala do Conselho Universitário por 142 estudantes), seis dias antes do assassinato de Edson Luís, ocorrido no “Calabouço” a 28 de março. Além de que o prazo — cinco dias entre a divulgação da informação dos “distúrbios” de Nanterre e a invasão do “Calabouço” — é demasiado exíguo responder a qualquer influência direta da rebelião estudantil francesa sobre a brasileira, acresce que a agitação no “Calabouço” começara em janeiro, sendo portanto cronologicamente anterior à de Nanterre e, sobretudo, que o “22 de Março” passou desapercebido na própria França (..) a mobilização estudantil de massa desencadeou-se primeiro no Brasil — e não na França.”MORAES, João Quartim de. “A mobilização democrática e o desencadeamento da luta armada no brasil em 1968: notas historiográficas e observações críticas”. Portugal Democrático. Documento História, http://www.portugaldemocratico.org/pagina1.htm

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Nas palavras de João Bernardo, referindo-se aos acontecimentos parisienses: “A recusa a exercer funções de autoridade sobre a classe trabalhadora, a recusa de uma universidade ao serviço do capitalismo e a identificação dos interesses dos estudantes com os dos trabalhadores, foram estes os temas principais, quando não mesmo únicos, da imprensa estudantil no Maio de 68”. BERNARDO, João. “Estudantes e Trabalhadores no Maio de 68”. Lutas Sociais 19/20, pp 22-31.

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acontecimentos internacionais de 1968, neste caso, trariam em si, vínculos mais íntimos estabelecidos, há algumas décadas e em escala planetária, pelas guerras mundiais.

A vitalidade destas discussões, experiências e formulações, seguida pelo trânsito em diferentes frentes, daria origem a uma vastíssima produção historiográfica – atualmente trabalhada por diferentes linhas de pesquisa, dentro e fora da Europa. No caso desta pesquisa, nos interessa refletir sobre um aspecto das movimentações: a presença das organizações trotskistas (em seu leque particular de proposições) que, em meio a um contexto tão dinâmico – em particular, o francês - buscaram reinserir fundamentos e questionamentos herdados do modelo bolchevique (de organização e ação política) e da revolução russa (de 1905 e de 1917) nas formulações que se faziam coletivamente construídas, promovendo, desta forma, a incorporação de alguns velhos referenciais a novos questionamentos acerca do poder e da ordem instituída, ao mesmo tempo em que a releitura dos mesmos fundamentos e questionamentos também emprestaram vitalidade às novas formas de pensar e de fazer política.

Com este foco de discussão, parece-nos importante acompanhar algumas considerações feitas por João Bernardo:

“É comum considerar que naquela época existiam nos meios estudantis contestatórios duas orientações ideológicas. Uma, inspirada pelas obras de Marcuse, considerava que a classe operária tinha sido integrada na sociedade capitalista através do consumismo e que o elemento revolucionário eram os jovens de diversas origens sociais, vítimas de uma multiplicidade de opressões. A outra, seguindo a tradição marxista, sustentava que a classe operária continuava a ser a classe revolucionária. Na documentação de Maio e Junho de 1968 os traços da orientação marcusiana são praticamente inexistentes (...) Desde o começo do movimento (..) encontramos nos jornais e panfletos três temas principais: a recusa de uma universidade ao serviço do capital, a defesa dos interesses dos trabalhadores no interior da universidade e a aliança entre intelectuais e trabalhadores. Já na jornada de protesto ocorrida a 22 de Março em Nanterre (um centro universitário pertencente à Universidade de Paris mas situado nos arredores da cidade), que deu início ao que viria a ser o Movimento do 22 de

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Março (Mouvement du 22 Mars, que reunia várias correntes libertárias e maoístas espontaneístas) os temas debatidos foram a questão do imperialismo, na época indissociável da guerra no Vietnam, o carácter do capitalismo contemporâneo e o problema de saber como é que as lutas estudantis se ligavam às lutas operárias.”135.

No curso dos acontecimentos do maio/junho francês, é de fato a questão das

relações entre estudantes e trabalhadores o que orienta e estabelece os balizamentos

políticos e as mais interessantes trocas de experiências e referências. Neste caso, no entendimento deste pesquisador:

“O organismo de juventude do Partido Socialista Unificado defendia que os trabalhadores científicos e intelectuais se colocassem “ao lado” dos operários (...); A Federação dos Estudantes Revolucionários (Fédération des Étudiants Révolutionnaires, trotskistas da facção de Lambert) defendia a aliança da União Nacional dos Estudantes de França (UNEF, Union Nationale des Étudiants de France, o sindicato estudantil) e das centrais sindicais. Para a JCR [Juventude Comunista Revolucionário, organização trotskista da IV Internacional, mandelista] não se tratava de unir a UNEF às burocracias sindicais operárias. Contrariamente aos lambertistas, a corrente mandeliana defendia que a convergência das lutas estudantis e operárias se devia fazer não através das negociações entre dirigentes sindicais mas na rua, nos confrontos com a polícia. Seria nesses confrontos que se revelaria a vanguarda (...) Os Comités de Acção defendiam uma solidariedade entre estudantes e trabalhadores em luta que consistisse numa unidade real de base, assente na livre discussão democrática dos problemas de cada categoria. Em clara contraposição a estas duas últimas correntes, a União das Juventudes Comunistas marxistas-leninistas (UJCm-l, Union des Jeunesses Communistes marxistes-léninistes, maoísta), também conhecida pelo nome do seu órgão, Servir

le peuple, defendia a subordinação das lutas estudantis às lutas dos trabalhadores

(...). Quanto ao Movimento do 22 de Março, na Tribune du 22 mars lê se num

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artigo com data de 3 de Junho: “Na organização revolucionária em construção no processo actual não haverá mais estudantes, nem operários, nem camponeses, nem empregados, etc., mas somente “intelectuais-revolucionários”, e é para que surjam estes “intelectuais revolucionários” que trabalha o 22 de Março”136

Em meio aos acontecimentos e a depender “das formas como era encarada a união entre estudantes e trabalhadores”, estabeleceram-se diálogos entre os movimentos por meio da adoção de “alternativas práticas” de se realizar ou não as manifestações no Quartier Latin (proposta de correntes mais moderadas), de se realizar ou não manifestações nos bairros populares (outras correntes), de se promover ou não a

ocupação de faculdades (entendidas pela “ala radical do movimento estudantil como a

reprodução de uma forma de luta caracteristicamente operária”), questões que surgiam fortes na panfletagem do movimento137. Para João Bernardo:

“Com efeito, a orientação que pretendia colocar a luta dos estudantes sob a condução da luta dos trabalhadores demonstrou a sua justeza quando começou a maior greve geral da história da França. Convocada para 13 de Maio, a greve alastrou e ao iniciarem-se as negociações de Grenelle, em 25 de Maio, havia praticamente 9 milhões de grevistas. A 13 de Maio, na grande manifestação que juntou cerca de um milhão de pessoas, a maior realizada até então em Paris, operou-se pela primeira vez a junção entre estudantes e trabalhadores em nome da solidariedade contra a repressão. À frente do cortejo, e depois de várias

136 BERNARDO, João. “Estudantes e Trabalhadores no Maio de 68”.Op.Cit, pp 25-26. 137

No apelo que o Movimento 22 de março faz pela criação de Comités de Acção Revolucionária, pode-se ler: “Seguindo o caminho traçado pelos operários de Caen, de Mulhouse, de Le Mans, de Redon, da Rhodia [um grupo industrial centrado em Besançon], de Paris, os alunos das universidades e dos liceus e os trabalhadores que se manifestaram contra a repressão do Estado policial na noite de sexta-feira, 10 de Maio de 1968, lutaram na rua durante várias horas contra 10.000 polícias. [...] A 13 de Maio, estudantes e operários encontraram-se de novo na rua, iniciaram uma discussão política conjunta e, para prossegui-la, ocuparam permanentemente as faculdades da Universidade de Paris. A partir de então multiplicaram-se as greves com ocupação das fábricas. Para que triunfem as reivindicações de todos os trabalhadores, para atingirmos realmente os nossos objectivos, para prepararmos na acção quotidiana a tomada do poder pelo proletariado, trabalhadores e estudantes, organizemo-nos nos locais de trabalho em comités de acção revolucionária”. BERNARDO, João. “Estudantes e Trabalhadores no Maio de 68”.Op.Cit, pp 27-28.

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escaramuças entre estudantes e dirigentes sindicais, ia uma faixa proclamando

“Estudantes, professores, trabalhadores solidários”138.

E no curso dos acontecimentos, o teor das relações entre trabalhadores e estudantes acabaria por se revelar determinante em meio à crise de institucionalidade experimentada pela França139, reforçando-se o leque de "reinvenções" políticas que começava a nascer em meio aos processos de enfrentamento (por diferentes segmentos da sociedade do trabalho) da exploração capitalista. Entre estas "reinvenções" (em escala internacional) constavam novos fóruns de movimento (comités, coletivos, comissões, grupos, espaços culturais...), outras perspectivas coletivas de ação política, ou ainda, a valorização da convivência entre diferentes leituras e práticas políticas (incluindo-se as auto-gestionárias, espontaneístas, entre outras).

Imagens das manifestações de maio de 1968 na França disponibilizadas pela internet

Na prática, os movimentos que desde o final da década de 1950 vinham ganhando forma em diferentes países do mundo – os chamados movimentos da “nova

138 BERNARDO, João. “Estudantes e Trabalhadores no Maio de 68”.Op.Cit, p28.

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“A 16 de Maio cerca de mil estudantes dirigiram-se às grandes fábricas Renault de Billancourt, que haviam acabado de entrar em greve, e a CGT opôs-se a qualquer contacto dos estudantes com os trabalhadores argumentando que “recusamos qualquer ingerência externa”. A solidariedade era apelidada de “ingerência”. No dia seguinte estudantes da UJCm-l, da UNEF, do Movimento do 22 de Março e da JCR regressaram à Renault-Billancourt, mas mais uma vez a CGT impediu o contacto entre estudantes e grevistas”. BERNARDO, João. “Estudantes e Trabalhadores no Maio de 68”.Op.Cit, p29.

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esquerda”/new left140 - contavam em suas bases com uma aproximação de agrupamentos e militantes de esquerda (de formações e proposições diversas) de experimentações coletivas fundadas em variados objetos políticos (estudantis, primeiros movimentos feministas e ecológicos, entre outros). Nas palavras de Tom Bottomore:

“Uma grande riqueza de idéias floresceu nesses movimentos, entre elas duas que tinham um atrativo mais ou menos universal: ‘democracia participativa’ e crítica radical do que era chamado ‘o sistema’. Eram idéias estreitamente relacionadas, uma vez que a democracia participativa significava o pleno e contínuo envolvimento de todos os indivíduos na tomada de decisões que afetassem suas vidas, enquanto que o sistema que estava sendo contestado era elitista e excluía os que lhe estavam subordinados de qualquer papel efetivo no controle ou determinação de suas políticas. A universalidade destas idéias era ilustrada de forma impressionante por sua difusão tanto nos países de ‘socialismo real’ quanto em países capitalistas”141

Na mesma trajetória, segundo Tom Bottomore:

“..houve um renascimento geral do pensamento marxista em filosofia e ciências sociais, influenciado pelos primeiros escritos de Georg Lukács e Antonio Gramsci, agora redescobertos e amplamente lidos, pelo novo marxismo ‘estruturalista’ de Louis Althusser e pelas idéias da Escola de Frankfurt de teoria crítica. Estas últimas exerceram provavelmente a maior influência através dos escritos de Herbert Marcuse, nos Estados Unidos, Theodor Adorno, Max Horkheimer e (na segunda geração) Jürgen Habermas, na Alemanha. Suas obras ventilaram muitos dos mais agudos problemas enfrentados pelos movimentos radicais nos anos 60: o papel

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Movimentos que ganharam forma a partir da insurreição na Hungria em 1956; que se fortaleceram no curso da década de 1960 (com os movimentos de oposição à intervenção norte-americana na Guerra do Vietnã, à ocupação militar da Tchecoslováquia pelos países integrantes do Pacto de Varsóvia) e alcançaram seu apogeu no final desta mesma década com os movimentos pelos direitos civis e contra a guerra do Vietnã nos EUA e com as movimentações de 1968 na Europa.

141 OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom; GELLNER, E;TOURAINE, A. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996, p. 530

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político da classe trabalhadora em relação aos novos movimentos sociais que não tinham por base uma classe; o poder da cultura e da ideologia de massa na sustentação das estruturas de dominação, e sua conexão com a orientação científica e tecnológica das sociedades modernas e a necessidade de uma análise crítica da base do socialismo autoritário-burocrático (...) Seja como for, o marxismo em suas formas revividas e diversamente reconstruídas foi apenas uma das influências intelectuais (sobretudo entre os estudantes) da Nova Esquerda, a par do anarquismo, do socialismo utópico e das novas idéias da ecologia e do feminismo”142.

Os sinais da presença de um “internacionalismo” latente entre as militâncias de esquerda brasileira nos últimos anos da década de 1960 e na década de 1970 foram mais fortes do que se pensa, constando entre eles a disseminação e variação de fundamentos marxistas, seguidos por um extrapolamento do universo partidário, questões que, a semelhança de outros países, colocavam em cena novas abordagens acerca do fenômeno político, dos objetos de política (nas confluências com a cultura, com o meio ambiente...), das relações entre arte e política, dos sentidos de militância, participação, democracia, ou ainda, dos “novos sujeitos revolucionários”.

Nos caminhos trilhados por grupos dissidentes do PCB, por grupos trotskistas, por militantes de origem católica ou luxemburguista que seguiram ou não a luta armada, encontramos, de fato, afinidades de abordagem mais profundas. Num artigo escrito por João Quartim de Moraes, podemos ler:

“As importantes mobilizações de massa de 1968, impulsionadas principalmente pelos estudantes, obedeceram a fatores preponderantemente internos, assim como as primeiras ações armadas urbanas ocorridas em São Paulo no mesmo momento (março-abril de 1968). Embora não estejam casualmente concatenadas, as passeatas estudantis e os grupos guerrilheiros remetem à mesma causa histórica, o golpe de Estado de 1964 e a ditadura militar. Constituíram, nessa

142 OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom; GELLNER, E;TOURAINE, A. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996, p. 530

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medida, formas distintas de resistência democrática. Nem por isso se pode perder de vista a dimensão internacional dos acontecimentos de 1968 no Brasil, que é particularmente evidente nas concepções teóricas sobre a estratégia revolucionária da guerrilha rural. Na prática, entretanto, a luta armada fixou-se nos centros urbanos e acabou por ser aniquilada antes de superar seu “impasse estratégico””143.

Ou ainda:

“Se não houve influência internacional na dinâmica de massas do movimento estudantil, iniciativas como a homenagem prestada a Che Guevara pelos organizadores do XX Congresso da UBES mostram quão forte era a sensibilidade internacionalista dos militantes de vanguarda daquele movimento. Não por acaso, desta vanguarda sairiam, em boa medida, os membros das organizações revolucionárias clandestinas que partiriam (algumas já estavam partindo) para o combate frontal contra a ditadura militar e a dominação de classe por ela sustentada”144.

Compreender de que forma estas "reinvenções" políticas de enfrentamento da exploração capitalista se fizeram presentes no Brasil no contexto pós-1968, e entre elas, quais foram as contribuições trotskistas (em particular, lambertistas) para a circulação de idéias e de experiências, ou ainda, para a recriação de fóruns de movimento, constituíram questões centrais de nossa pesquisa, valendo considerar que, deste as origens deste trabalho, estas questões se colocaram presentes. Na verdade, elas constavam entre as razões pelas quais os grupos fundadores da tendência Liberdade e Luta buscaram se integrar num processo de rediscussão do pensamento trotskista e interagir com militantes franceses na construção de novos caminhos políticos (redundado daí a denominação de “lambertista” para esta corrente).

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MORAES, João Quartim de. A mobilização democrática e o desencadeamento da luta armada no brasil em 1968: notas historiográficas e observações críticas. Portugal Democrático. Documento História, http://www.portugaldemocratico.org/pagina1.htm

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De forma concomitante, tratava-se de compreender a maneira pela qual estes grupos se comunicavam, ou ainda, de que forma eles conseguiram avançar em suas formulações (construídas pela partilha de experiências numa dinâmica interminável de estudos, de discussões acerca dos significados das ações e de elaboração de ajustes) até a configuração, propriamente dita, de sua linha política.

A ação política dos militantes trotskistas lambertistas que fundaram e dirigiram a tendência Liberdade e Luta, na USP entre os anos de 1976 e 1984, nasceu, por si mesma, com abrangência internacional e somente nestes termos se faria possível resgatar, compreender e analisar sua história.

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