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nossa carga tributária

No documento Concursos Fiscais - Alexandre Meirelles (páginas 41-48)

nossa carga tributária

E nos outros países, o fisco é tão importante assim? Como é feito o trabalho por lá? Obviamente que não saberia responder profundamente a essas perguntas, então comentarei aqui apenas o que consegui obter em diversas fontes, mas que já vai dar para você entender que nossos colegas estrangeiros são tão importantes para seus países quanto nós, e, em muitos casos, muito mais bem vistos.

Inicialmente, é importante salientar que muitos países possuem medidas sancionatórias muito mais pesadas que as nossas. Em países como Suécia, Grécia e Alemanha, entre outros, o fisco pode, com muito mais facilidade, fechar empresas, cassar a licença profissional ou imputar a dívida da empresa a seus administradores. Em outros países, incluindo as avançadíssimas nações da Dinamarca e da Finlândia, o fisco pode revelar publicamente as infrações tributárias cometidas pelos contribuintes. Como nesses países a sociedade reprova muito mais tal comportamento que a nossa, o prejuízo comercial das empresas declaradas como sonegadoras é muito maior. Ainda, na Holanda, Austrália, México e em outras nações o fisco pode impedir o contribuinte devedor de sair do seu país. Se também pudéssemos fazer isso aqui, as agências de turismo iriam à falência.

Aqui diversos contribuintes reiteradamente não recolhem seus tributos por diversos motivos, alegando na Justiça que seus recursos são insuficientes, mas muitas vezes seus sócios possuem bens milionários e realizam frequentemente viagens dispendiosas ao exterior. Dessa forma, constata-se, infelizmente, que nosso país não é rigoroso com suas leis tributárias como é tão propagado pelos contribuintes e pela imprensa.

Alguns críticos do fisco, que no fundo querem mesmo é que não trabalhemos corretamente, dizem que há muitos fiscais no Brasil. Há certos governos que ficaram anos ou até décadas sem realizar nenhum concurso para fiscal usando essa justificativa. Como veremos, isso é uma grande inverdade.

Nos EUA, o Fisco Federal é o Internal Revenue Service (IRS). Foi criado por meio do “ Revenue Act of 1862” pelo ex-Presidente Abraham Lincoln, durante a Guerra Civil, visando ao aumento da arrecadação de tributos para bancar os elevados custos da guerra. Portanto, um fiscal federal americano é chamado de “ IRS Agent ”. Existem mais de 90 mil fiscais federais nos EUA. São 3.327 habitantes para cada auditor federal. E o Obama quer contratar mais 16 mil. Estes são o símbolo do órgão e o brasão que seus agentes usam em suas identidades funcionais:

Recomendo fortemente que você assista ao filme “ Lincoln”, lançado no final de 2012. Além de ser muito bom, há umas cenas muito interessantes para nós, mostrando que os cargos para chefes das coletorias fiscais recém-criadas eram dados aos deputados em troca de votos a favor do fim da escravidão no Congresso americano. Eram tempos em que não havia concursos, claro, os cargos de fiscal eram livremente dados pelos governantes, assim como era aqui no Brasil.

Analisemos agora os fiscos europeus. A França possui 126 mil fiscais, ou seja, um fiscal para cada grupo de 500 habitantes. A Espanha tem 28 mil, então são 1.650 habitantes para

cada fiscal. Os Países Baixos, chamados erroneamente por muitos de Holanda, que é o nome de duas das 12 províncias que compõem o país, possuem 35.000 servidores fiscais para uma população de 18 milhões, ou seja, um fiscal para cada 514 habitantes.

No Reino Unido o fisco federal é o HMRC. Interessante é sua tradução: Her Majesty’s evenue and Customs. O fiscal lá se chamaTax Inspector. Não consegui obter a informação de quantos fiscais há por lá servindo a Majestade.

A Alemanha tem 112 mil, um fiscal para cada grupo de 730 habitantes. A Administração Tributária alemã se chama Bundesfinanzverwaltung. Os fiscais alemães também entram por meio de concurso público, seguido de um avançado treinamento que dura alguns anos, com idade mínima de 27 anos para ser efetivado.

Entretanto, quantos fiscais há no Brasil? Será que temos tantos fiscais assim, como afirmam alguns desavisados (ou mal-intencionados)? Vejamos. Existem cerca de 12 mil fiscais federais e 30 mil estaduais, para uma população de 195 milhões. Isso dá 4.642 brasileiros para cada fiscal federal ou estadual. Perceba que, no caso de alguns países mencionados, só incluímos os fiscais federais e mesmo assim o número de fiscais deles é muito mais relevante que o nosso juntando os nossos fiscais estaduais nessa comparação.

Além da diferença no número de fiscais per capita entre nós e esses países, há ainda duas diferenças muito relevantes: a estrutura de trabalho e a cultura sobre a sonegação.

Quanto à primeira diferença, é mais do que sabido que em alguns países as condições de trabalho e os investimentos feitos em treinamentos do fisco são muito superiores aos nossos. Logo, se aqui temos menos estrutura para trabalhar do que naqueles países, deveríamos ter ainda mais fiscais proporcionalmente à população do que eles, concorda?

Quanto à segunda diferença, é também óbvio que no Brasil a cultura da sonegação, do “dar um jeitinho”, do enobrecimento da “Lei do Gérson” e a pouca efetividade do Judiciário na punição aos sonegadores, é muito pior do que nos países mais avançados.

Nos EUA, o cumprimento voluntário das obrigações tributárias é na ordem de 85%, ou seja, o fisco só precisa se preocupar com os 15% das obrigações que não são feitas corretamente. Não sei quanto é esse percentual no Brasil, mas com certeza é muito maior que o americano. Estima-se que em 2013 a sonegação de tributos no país chegou a R$ 415 bilhões, ou seja, mais do que é gasto com educação, saúde e desenvolvimento social.

Segundo o Banco Mundial, somos o segundo país onde mais se sonega. Em valores absolutos, somente sonegamos menos do que nos EUA, mas enquanto lá a sonegação representa somente 2,3% do PIB, aqui ela é de 13,4%. Portanto, também devido a essa nossa cultura de sonegarmos tudo o que pudermos, deveríamos ter mais fiscais.

Antes que você venha com aquela velha história de que sonegamos porque nossa carga tributária é muito alta, do nível dos países mais desenvolvidos no mundo, e que, enquanto eles possuem muito retorno do governo, nós não, eu sugiro que você tente pensar por outro ângulo. De início, saiba que temos a 22.ª maior carga tributária do mundo. Bem, se esses países mais desenvolvidos já têm tudo de bom há décadas e aqui ainda estamos buscando

isso, nós deveríamos pagar mais tributos do que eles, não é? Caso não, como conseguiremos construir o que eles já possuem há décadas? Afinal, lá já existem ótimos hospitais, estradas e escolas, e aqui ainda precisamos desenvolver tudo isso. Eles só precisam mantê-los, enquanto nós precisamos fazê-los e depois mantê-los.

Portanto, se enxergarmos o tamanho da carga tributária por esse ângulo, veremos que ela não é tão desproporcional como os empresários divulgam. A verdade pura e simples é que se todos pagassem o que deveriam, houvesse menos corrupção e soubéssemos aplicar melhor os recursos, teríamos um país muito mais avançado e aí sim poderíamos diminuir a carga dos tributos. Assim, quando um empresário disser a você no seu futuro trabalho algo como “ se todos os empresários pagassem tudo o que deveriam, ninguém sobreviveria”, para tentar justificar alguma falha que você tiver encontrado em sua empresa, pense que o problema não é de quem paga, e sim de quem sonega, pois se todos pagassem o correto, os encargos tributários seriam uniformes e seria estabelecida a livre concorrência ideal. Então

esqueça essa desculpa dele, pois sua obrigação é com quem cumpre regularmente suas obrigações, e não com quem não cumpre.

Em valores absolutos, estamos em 49.º lugar na relação dos países que mais pagam tributos per capita, atrás de Botswana, Hungria, Trinidad e Tobago, Eslováquia etc. E do que pagamos, quase tudo retorna em forma de serviços. Resumindo esse fato apresentado, cada

um de nós paga mensalmente R$ 657 de tributos, em média. Desses R$ 657, R$ 280 retornam como aposentadorias, pensões e bolsas. Então, se você possui alguém na família que recebe uma dessas três contraprestações estatais, veja que está voltando para seu seio familiar boa parte do que pagou de tributos. Ainda, são gastos mensalmente, por pessoa, R$ 95 em educação e R$ 80 em saúde. Talvez você gaste mensalmente com educação e saúde particulares, mas você não acha que deve haver educação e saúde públicas de qualidade?

Então esses valores de R$ 95 e R$ 80 não são tão absurdos assim para que a população os pague em média. Veja que são valores médios, logo, quem é pobre, não paga isso tudo, os mais abastados é que pagam mais do que isso, claro. Fora esses valores já apresentados, R$ 100 vão para o Governo pagar juros e os R$ 102 restantes serão aplicados em tudo mais que nos cerca, como estradas, segurança, etc. Acredite, um dos nossos maiores problemas não é o quanto é arrecadado, e sim a forma como esses recursos são gastos.

E para quem considera nossa carga tributária alta, ela é assim porque inúmeros ricos e grandes empresas não pagam o que deveriam. Como exemplo dessa afirmação, há anos são publicados relatórios que mostram que mais da metade das 500 maiores empresas do país

não dá lucro, consequentemente, não paga IR. Ora, você acredita nisso? A verdade é que, em sua grande maioria, elas são assessoradas por ótimos contadores, advogados e especialistas em tributação, todos visando à diminuição dos impostos a serem pagos, muitas se utilizando de sofisticados esquemas de sonegação e de toda uma retaguarda jurídica montada para protegê-los caso sejam pegos. Depois se valem da morosidade da justiça e escapam ilesos.

Essas são as mesmas empresas que depois reclamam da alta carga tributária. Ora, quem paga essa alta carga tributária não são as empresas, e sim nós, pessoas físicas, pois é para nós que esses tributos são repassados.

Esse triste fato de que nossas maiores empresas não pagam IR não é exclusividade nossa. Nos EUA isso também acontece, com empresas gigantescas não pagando nada de IR, devido a elaborados esquemas de remessas de lucros para paraísos fiscais. Existe um documentário bem interessante que mostra todo esse esquema americano, é o “We’re Not

roke”. Você o encontra no Netflix, por exemplo. Recomendo que o assista, porque o que acontece no Brasil é bem semelhante.

Os empresários reclamam dos elevados valores dos nossos tributos, como o ICMS e o ISS. Raciocine, esses tributos são calculados em cima de percentuais sobre o valor cobrado pelo produto ou serviço. Logo, se o produto é vendido por R$ 100, a empresa irá recolher

R$ 18 de ICMS, supondo a alíquota mais comum desse imposto, de 18%. Mas se ele custar R$ 50, ela vai recolher R$ 9. Então uma boa parte do elevado valor que ela reclama que irá pagar de imposto é porque o preço final é alto, ora bolas, porque, se fosse menor, pagaria menos imposto. E isso já começa lá no início da cadeia produtiva. Só que o empresário brasileiro em geral quer vender pouca quantidade por um valor elevado, ao contrário do

americano, que vende lucrando pouco por unidade, mas ganhando na quantidade vendida. E mais, quem paga pelo produto final não é a empresa, é o consumidor, logo, é ele quem, na verdade, vai arcar com o custo do tributo, a empresa somente vai recolher ao Estado o que o seu cliente pagou para ela antecipadamente. Afinal, quem pagou os tais R$ 100 pela mercadoria, o consumidor ou o empresário? Então, se a empresa não recolher o ICMS, ela estará se apoderando do dinheiro do seu cliente, simplesmente isso.

Eu poderia ficar aqui comentando muito mais sobre esse assunto de carga tributária elevada, mas acho melhor prosseguirmos com coisas mais interessantes e menos revoltantes. Desculpe-me, mas o meu sangue de fiscal falou mais alto, então quis explicar algumas coisas para que você não caia nesses falsos discursos tão comuns de serem ouvidos e lidos por aí.

Afinal, um dia você poderá estar do lado de cá, então é bom que já fique mais esperto para entender melhor a importância do seu futuro trabalho, e que ele não é tão injusto como alguns pregam.

Enfim, nobre leitor(a), se você quiser ser fiscal um dia, seja justo(a) na aplicação da lei, mas saiba que muito do que ouvimos e lemos cotidianamente na imprensa são falácias de parte do poder econômico vigente, formado parcialmente por empresários sonegadores. Não

acredite tanto neles, pois são os mesmos que fazem de tudo para que nossa profissão seja desvalorizada, para que possam lucrar mais com seus esquemas de sonegação.

Bem, voltando ao nosso giro pelo mundo, e se no exterior alguém perguntar o que você faz da vida, o que você responderá? Diga Revenue Agent, Tax Inspector, Tax Collector ou algo parecido, que a pessoa entenderá o recado. Em todos os países que já visitei notei que a forma mais fácil de entenderem qual é minha ocupação é dizer que sou “Tax Inspector ”. É falar isso e a pessoa entender. Infelizmente, até no exterior também já ouvi algumas gracinhas ou recebi olhares desconfiados sobre minha honestidade após dizer minha profissão. Saliento quetax em inglês quer dizer tributo, não é como aqui, em que “taxa” é

Um dia, se você tiver a oportunidade de conhecer a belíssima cidade de Barcelona – e recomendo fortemente que faça isso em suas férias quando for fiscal –, verá ao final da famosa La Rambla, que é um calçadão que une a Praça Catalunha ao Porto Velho (que de velho não tem nada, pois é lindo), um suntuoso prédio escrito: Aduana.

Quando fui lá, como estava apaixonado por Barcelona, como 99% das pessoas que a visitam, fiquei alguns minutos olhando para aquele prédio e pensando: “ Por que não fiz um concurso para fiscal daqui?”. Aí caí na real, lembrei-me de que não sou espanhol e fui tomar um chopp em um bar em frente, para ficar admirando o lindo prédio e morrendo de inveja dos fiscais espanhóis que podiam assistir ao Messi, Iniesta etc. toda semana no Estádio Camp Nou. Hoje tem até o Neymar.

Caso fique curioso para ver fotos desse lindo prédio, procure por “ Aduana Barcelona” no Google e verá dezenas delas na seção de imagens. Ou melhor, passe no concurso e vá lá pessoalmente visitar nossos colegas espanhóis.

Muitos concurseiros são capazes de estudar por anos sem saber direito o que um fiscal faz na prática. Possuem aquela ideia de que vão ficar o dia todo fiscalizando empresas e conferindo notas fiscais e livros empoeirados. Mas isso é uma ideia muito vaga do que fazemos. Por isso resolvi escrever este capítulo logo nesta primeira unidade, assim você já vai entender um pouco melhor nosso trabalho. Mais à frente veremos mais. Também aproveitei para falar de escolha de cidade, contencioso administrativo, uso da informática e porte de arma.

O Auditor tem como uma de suas principais missões o combate à sonegação fiscal. Há uma sonegação fiscal quando o contribuinte conscientemente busca se omitir do tributo devido. É diferente, por exemplo, de quando ele declara o imposto a pagar corretamente, mas não o paga por algum motivo, geralmente financeiro. Nesse caso há uma inadimplência fiscal, então não podemos chamar esse contribuinte de sonegador, no máximo de um “mau pagador”. Existe também a elisão fiscal, que não é ilegal, pois ela ocorre quando um

contribuinte visa se planejar tributariamente para pagar menos impostos, mas agindo dentro da lei. Ele se aproveita de brechas na lei para pagar menos impostos, mas sem a infringir, como o sonegador faz.

Na década de 1990, muitos concurseiros fiscais cariocas faziam aulas com o saudoso mestre Paulo Rocha, de Direito Tributário, inclusive eu. Com certeza, foi o melhor professor que tive em toda a minha vida, um cara sensacional, que faleceu muito novo. Eu me lembro bem da aula em que ele ensinou esses assuntos. Ele saiu da sala, vestiu uma camisa florida,

desabotoou os botões e entrou com aquele tradicional gingado carioca, falando: “Tá tudo tranquilo, mermão, eu sou o Elisão, e comigo você pagará menos imposto”. Todo mundo se escangalhou de rir, claro, não é à toa que eu não me esqueço dessa aula de 20 anos atrás. E ele explicava que o tal do Elisão era uma espécie de bom malandro, pois sabia todas as brechas da lei, mas não agia contra ela. Só que, se há duas maneiras legais de se pagar um imposto, quem sabe bem a legislação sabe as duas e, claro, opta pelo que dará o menor valor

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a ser pago. E esse cara se chama Elisão. Saudades do Paulo, deixou o mundo dos concursos de luto por muito tempo, até hoje o pessoal das antigas fala dele, e sempre muito bem. Tem sala em cursinho no Rio que se chama “Sala Paulo Rocha”. Assim como a sala número 1 do curso Uniequipe em SP se chama “Sala Demétrio Pepice”, em homenagem ao seu ex-aluno mais ilustre.

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