Lembro-me de algumas vezes, como se fosse lembrança minha, a mãe contando suas histórias de adolescência. Das brincadeiras e dos deveres antecipados pelo trabalho. Era nova quando teve que escolher entre a escola e a tarefa de preparar comida para a vó, de cuidar da casa. Requentava a comida, acomodava o almoço em um pano limpo e saía com suas largas passadas na direção do trilho que atravessava a cidade. Não era a única que cumpria essa sina diariamente. Não era a única que tinha os pés sujos de carvão preto que ocupavam os intervalos ritmados do trilho.
Essas crianças levavam o almoço para suas mães que trabalhavam na cerâmica de Imbituba – Icisa. As mulheres, ainda com os movimentos repetidos do trabalho ecoando nas mãos, pegavam o almoço frio e remexido pelo ritmo das passadas infantis sobre o trilho – para cima e para baixo. Algumas trabalhadoras permaneciam com o avental e com o esparadrapo nas pontas dos dedos, outras até penteavam os cabelos, porém, todas se sentavam nas calçadas, nos intervalos de chão, e ali almoçavam. Não havia restaurante, nem coisas básicas como mesa e cadeira. Os azulejos por elas produzidos ganhavam mares pelo porão dos navios, ganhavam estradas pelas rodas dos caminhões, mas elas comiam ali mesmo, um pouco além da calçada. As mulheres trabalhadoras, juntas e misturadas, como o arroz e feijão misturados na boia fria.
Almoçava lá em qualquer canto lá, a minha mulher, ela mandava o almoço, eu almoçava, mandava o café da tarde, mandava a janta, e eu só vinha no outro dia. (Pedro Estevão)
Voltar para casa é tão irreversível quanto voltar o tempo. Se um bom filho a casa torna, é bem verdade que quem volta já é outro filho que, ao deparar-se com esse novo lar, sente saudade da outra casa. Essa noção de ausência e falta convive com o tempo presente, tanto na ida, quanto na chegada.
A palavra Nostos, no grego, significa “voltar para casa”, como Ulisses, na Odisseia, que enfrenta tempestades, monstros e tormentas para encontrar sua Ítaca, seu lar, sua casa - como um lugar intocável que estava a sua espera. Nessa noção Homérica, o homem, ao voltar para casa, parece recuperar e restaurar o espaço e tempo que era então ausente. Já a palavra Algos, talvez o que alimentou a força e a coragem de Ulisses, significa dor ou sofrimento – ter saudade. Saudade que o tornou inabalável. A junção dessas duas palavras – Nostos e Algos/Algia - formou uma nova, Nostalgia. Conforme Svetlana Boym (2011), sobre a palavra Nostalgia “Eu a definiria como saudade de um lar que já não existe, ou nunca existiu. Nostalgia é o sentimento de perda e de estar fora do lugar, mas é também um encanto com a própria fantasia”.³
Talvez, Nostalgia seria uma boa palavra para dizer, ou ouvir, ou sentir ao ver em sua frente 100Km² de destroços, de uma indústria antes em pé e viva, agora, no chão e solitária. Os limos, as plantas que crescem livres, as paredes caídas, as telhas quebradas, os livros rasgados fazem emergir um sentimento de perda e saudade daquilo que já não existe. Mas, como Svetlana Boym, também, faz
3 – Conceito desenvolvido por Boym no ensaio N de Nostalgia. In: Revista
brotar, sobretudo, um encanto com a possibilidade da fantasia, da ficção permeada pela materialização da ausência.
Assim, a nostalgia que existe no presente trabalho, não se trata em tentar restaurar a ausência, como a busca de Ulisses para resgatar a sua pátria, seu lugar verdadeiro, seu tempo esplendoroso e voltar para casa. Mas sim a nostalgia que procura agir de forma reflexiva sobre essa “falta que se sente de um lugar” e ouvir esse lugar – no tempo presente – que fala de uma falta. A nostalgia que pensa num lugar ausente, mas que existe na relação com o presente, ou seja, na presença do contemporâneo.
A MARCA DOS TRABALHADORES
Meus avós, Olindina e Natalino, trabalharam na cerâmica por muitos anos. Participaram da produção de muitos azulejos que enfeitaram as paredes de muitas casas.
No trabalho A marca dos trabalhadores, utilizei as fotos 3x4 presentes no contrato de trabalho de cada um. Minha avó de 04 de junho de 1953 e meu avô de 10 de março de 1969. Num processo de fotocerâmica, gravei suas imagens sobre um azulejo produzido pela Indústria Cerâmica de Imbituba para que não nos esqueçamos das marcas e do valor dos trabalhadores.
Era tu que levava comida pra mim Grasy? Não, era a Jane. Era tu né, Jane? Não, era a Iara. Era a Iara ou a Jane que levava comida pra mim ali na Usina. Muitas vezes eu comia ali, sentada ali e comia ali. (Maura) Mas é isso aí, a minha vida na cerâmica foi foi boa. Gostou de trabalhar
lá? Gostei, trabalhei trinta anos, né. Passei por tanta coisa lá, passei
por tanta coisa, que aconteceu comigo lá. E se eu for contar tudo, eu vou ficar um dia todo aí contando. Imagina, 30 anos trabalhando lá. Uma vida, né. A cerâmica, quando no início, era tudo aberto, não tinha muro, não tinha nada, Tudo aberto, tudo em volta, o pessoal que ia trabalhar saía para qualquer lugar, pra lá, pra lá, tinha, tinha, mais ou menos umas 800 pessoas, depois aumentou pra mil e pouco, porque era tudo braçal, aí depois que começou a ficar modernizada, né, máquina coisa, e quando eu saí só tinha umas 500 só, que fazia, que dava mais produção, era tudo por máquina né. (Pedro Estevão)
Não, mas foi ótimo. É isso mesmo, né. É só pra, porque é isso né, agora eles vão construir, vão apagar com tudo lá, não sobra nada, o que sobra são as memórias. É, eu. A cerâmica ali foi uma pena ter se
acabado. Deu pão pra muita gente. Já pensou, tinha mil empregados lá. Aí onde é que eles iam tirar o sustento pra família, né. (Pedro
Estevão)
Como é que foi essa, se conheceram lá? Conheci, sim. Eu conheci ele
lá, na cerâmica. Se não, se não fosse ali eu não tinha conhecido ele. Eu trabalhava no branco e ele trabalhava no colorido. Mas a gente se conheceu lá, aí depois a gente se conheceu, se conheceu, eu era novinha, ele também era, naquele tempo ele tinha dezoito anos e eu tinha quinze, dezesseis, a gente começou a namorar, depois se juntou, eu tive a Eliane. Depois, saí, depois voltei, depois saí e não voltei mais. (Aledir)
Eu entrei na cerâmica eu tinha 29 anos, uns 50 anos, eu ganhei a Grasyeli e não estava mais na cerâmica. Não né, Gra? Não sei. Não sabe? A mãe ganhou a Grasy com 40 e alguma coisa. Não, não tava não, eu tava com uns 40 anos, acho. Porque eu ganhei a Grasyeli com 42 e eu não tava mais na cerâmica. Ah, tava! Tava, meu filho, tava, tava, tava. Tava lá, e eu chorava todo dia na mesa porque estava grávida. Agora que estou me lembrando. Eu tinha 42 anos, chorava. E tinha a moço que trabalhava com nóis, né, Não chora, Maura, não
chora, não é nada, Eu disse: Vergonha, rapaz, estou com vergonha, eu
fazia pra ele. Que vergonha nada! (Maura)
Eles carregavam força de caminhão, né. Carregavam e saía para fora, né. Era tempo bom, eu gostava de trabalhar na cerâmica. Tempo bom, tempo divertido, a gente fazia bastante amizade. Era bem bom. (Maura)
Até que, em 86 por aí, a cooperativa fechou porque tinha que fazer um refeitório. O governo exigia, tinha mais de 250 trabalhadores, já estava em cima. 250 trabalhadores? Tinha que ter um refeitório próprio. Antes não tinha, almoçava tudo lá fora, tudo lá dentro, no forno, levavam comida de casa, todo mundo levava comida, esquentavam em forno e comiam lá, homens, mulheres, tudo. Mas
tudo no chão? Isso. Não, não, não tinha coisa nada lá, eu nunca
almocei lá, mas pelo o que o meu cunhado conta, o meu cunhado, o Zé, eles almoçavam tudo lá fora. E ficou até meados de 86, quando quis colocar um refeitório a cooperativa fechou. Na cooperativa ia abrir um refeitório, fechou o sindicato. Como fechou, aí eu fui lá pra dentro, pra cerâmica, lá no escritório velho, lá dentro ainda. Fui para o setor de vendas, trabalhei alguns anos no setor de vendas e fui pra contabilidade. (Hamilton)
Ai eu fui pro almoxarifado, almoxarifado eu esqueci tudo quanto é número, eu fui aprender o que eu não sabia, eu fui conhecer material, broca de aço rápido, correia, prego liso, filtro, eu não conhecia nada disso aí, eu esqueci tudo quanto é número e passei a ser porca e parafuso, coisa linda aquilo ali. Dormia numa boa, tinha até vontade de trabalhar. (Hamilton)
Tinha o setor de vendas, por exemplo, o gerente era o Benevaldo, que já faleceu, então vendia pra fora, tudo quanto é estado tinha um representante, tinha representante em São Paulo, tinha a parte 1, Rio Grande do Sul, que era a Trevo, em São Paulo tinha, o Antônio, o representante, O Zildo, um monte de gente que vendiam o azulejo da cerâmica e recebiam a sua comissão. Tinha em Brasília, tinha em Curitiba, do Paraná. E tudo saía daqui? Tudo saía daqui. Faziam o pedido. E depois abriu no Rio de Janeiro. Diziam que era difícil trabalhar no Rio de janeiro, porque era muito coisa, até que contrataram um alvarenga, o Ademir, Ademir Representações, eu gostava muito dele, desse Ademir, porque esse Ademir era como igual a mim, vascaíno, vascaíno, me mandou camisa, do vasco, eu e o china, gente boa, gente boa, o Ademir, aí ele vendeu lá, ele vendia, lá ele conseguia vender. E exportava pra fora, pelo setor de exportação, Estados Unidos, Colômbia, Argentina. Os representantes pegavam os pedidos, mandavam os pedidos para a cerâmica, e a cerâmica despachava e iam pra lá. E assim que era o setor de vendas. Trabalhei lá até, um certo tempo, não me lembro direito, uns 6, 7 anos, por aí. (Hamilton)