desmantelamento, da degradação da sociedade peruana. (SAGUIER, 1997, p. XVII)3.
O contato de Arguedas com o caos instalado na cidade muda suas expectativas de antropólogo e desperta em seu âmago o escritor. A pesquisadora Roseli Cunha comenta:
Ao longo do romance, acompanhamos os problemas dos personagens que povoam Chimbote [...] o encontro com personagens reais como Moncada promovem uma mudança nos planos de pesquisa do autor peruano. Estar no meio desse turbilhão o fascina e, ainda que apresente momentos de depressão, vive outros de muito entusiasmo pelo tema. Essas pessoas são conclamadas a ajudar o autor em sua necessidade de escrever [...] (CUNHA, 2014, p. 1531).
A raposa de cima e a raposa de baixo traz em seu título, a marca simbólica do caráter mítico da obra, que se mistura com a denúncia social: zorro de arriba, a raposa que se encontra acima, na serra, faz alusão aos índios; enquanto zorro de abajo, a raposa que habita a costa, se referindo à população que vive no litoral do Peru, no caso a cidade de Chimbote.
A narrativa das raposas foi publicada primeiramente na revista Amaru n. 06 (1968), em forma de fragmentos. Após a morte de Arguedas, em 1969, surgiram outras publicações parciais. A versão completa, entretanto, somente apareceu com a Editorial Losada, de Buenos Aires, em 1971.
Do primeiro título, Harina mundo, passou para Pez grande e, finalmente, para El zorro de arriba y el zorro de abajo, título originário da mitologia colombiana, de um tomo de lendas e mitos que o próprio Arguedas traduziu, do quéchua para o espanhol, sob o título Hombres y dioses de Huarochirí (1966). Esses zorros eram deuses nativos que representavam o mundo de “arriba” e o mundo de “abajo”. No romance, os deuses-animais convocam as regiões confrontadas para um debate acirrado em torno do sentido da modernidade (GOUVEIA, 2009).
“O diário romanceado” (ANTELO, 1986, p. 63), El zorro de arriba y el zorro de abajo é estruturado em duas partes, a primeira composta por três diários (um de 17
3 No original, “Se puede notar en las tres novelas más importantes de Arguedas una profesión creciente – inconsciente – de la degradación de ese su universo amenazado, una desagregación de los íntimos lazos – míticos – que establecen y mantienen la coherencia en el mismo [...]. El proceso de declinación frustrante culmina con El zorro de arriba y el zorro de abajo, en Chimbote, ese símbolo premonitorio de la devastación, del desmantelamiento, de la degradación de la sociedad peruana.” Tradução nossa.
páginas, um de cinco páginas e outro de sete páginas), com feição de relato autobiográfico e entremeados por duas partes da narrativa sobre Chimbote; e uma segunda parte, de um último diário (de cinco páginas), duas cartas de despedida: uma endereçada a seu editor, Sr. Dom Gonzalo Lozada, e outra ao Reitor e aos estudantes novos da Universidade Agraria, além do final da narrativa.
A motivação para a criação do livro é descrita logo na primeira carta:
Escrevo estas páginas porque disseram, insistentemente, que se consigo escrever recupero a sanidade. Porém, como não consigo escrever sobre os assuntos pensados, elaborados, pequenos ou muito ambiciosos, vou escrever sobre o único assunto que me atrai: de como não consegui me matar e como agora quebro a cabeça buscando uma forma de me liquidar com decência, incomodando o menos possível as pessoas que lamentarão meu desaparecimento [...] vou procurar mesclar e enlaçar com os motivos escolhidos para um romance que, finalmente, decidi chamar de A raposa de cima e a raposa de baixo;
também tratei de misturar com tudo o que em muitas ocasiões meditei sobre as pessoas e sobre o Peru, sem que tivessem estado especificamente compreendidos dentro do plano da obra.
(ARGUEDAS, 2016, p. 32).
No primeiro relato (Santiago do Chile, 10 de maio de 1968), as reflexões de Arguedas acerca da morte, especificamente sobre as várias maneiras fracassadas que já havia pensado e tentado o suicídio: revólver, veneno (inseticida), pílulas e enforcamento. Registra a lembrança da sua primeira experiência sexual – que em 1944 - lhe restituiu a alegria de viver (mesmo que tenha durado pouco). Registra a sua alegria de ter sobrevivido às próprias investidas para a morte, pois foi possível conhecer de perto Cuba e o Sistema Socialista. Já sinaliza também, a sua insatisfação com o sistema de opressão no qual vivia o povo e o desejo de reagir a tal situação:
Também não suporto viver sem lutar, sem fazer algo para retribuir aos outros o que aprendi, além de também fazer algo para enfraquecer os perversos egoístas que converteram milhões de cristãos em resignados bois de carga. Não detesto o sofrimento. (ARGUEDAS, 2016, p. 34).
Nos demais relatos (cinco dias de diários), os assuntos se diversificam e são relatados episódios da vida que o desagradavam. Relembra pessoas, aspectos do passado, cita e comenta sobre escritores e livros que leu e, a partir da carta de 13 de maio, evoca a lembrança do amigo falecido Guimarães Rosa.
Relembra uma conversa que tiveram: “Guimarães me fez uma confidência no México, no momento eu me sentia mais ‘deprimido’ do que o normal, por causa de uma febre passageira. Não vou revelar o que disse”. (ARGUEDAS, 2016, p. 39) E manifesta um sentimento de admiração pela postura de Rosa, de ter ido até ao povo buscar a sua essência para então trabalhá-la em sua obra – mesmo pertencendo à outra camada social –, sente-se agradecido em relação ao tratamento recebido do amigo, que considera como um igual, irmanado na busca pela valorização de seus povos:
Mas senti, então, que aquele Embaixador tão majestoso me falava porque tinha, como eu, ‘descido’ até as entranhas de seu povo; e o considerava mais, no meu modo de ver, porque ele tinha ‘descido’ e não sido obrigado a ‘descer’.
Depois de contar sua história, sorriu como um menino pequeno. Nenhum amigo citadino me tratou tão de igual para igual, tão intimamente, como naqueles momentos este Guimarães [...]. (ARGUEDAS, 2016, p. 39).
E passa a estabelecer uma espécie de conversa (à la Riobaldo, pois o interlocutor não pode respondê-lo), invocando a atenção do amigo durante todo o relato do primeiro diário, se irmanando com a condição de morte do amigo:
[...] Sim meu queridíssimo João Guimarães Rosa, vou te contar de algum modo em que consiste este meu veneno. É vulgar, no entanto me recorda o conto que você escreveu sobre aquele homem que saiu numa canoa, por um rio na selva, e os outros ficaram esperando, esperando tanto... e creio que já estava morto. Deve haver alguma relação entre o voo do huayronqo manchado desse pólen moribundo, a pressão que sinto na cabeça inteira por causa do veneno e esse seu conto, João. (ARGUEDAS, 2016, p. 45).
[...] Eu guardei silêncio; vi, irmão João. Por que me dirijo a você? Será porque está morto e a morte me ronda desde menino, desde aquela tarde solene em que fui até o riacho de Huallpamayo, rogando ao santo padroeiro do povoado e à Virgem que me deixassem morrer [...].
Hoje já é 18, João, e desde ontem, desde que comecei a escrever as primeiras linhas ontem, a nuca me oprime ao ponto de me desequilibrar. (ARGUEAS, 2016, p. 46).
Nos últimos relatos do primeiro diário, é rememorada a cena triste da saída de Fidela – sua primeira experiência sexual –, seguida do diálogo entre as raposas, que proclamam a entrada ao mundo ficcional, onde um narrador começa a contar a história ambientada na agora cidade fictícia de Chimbote.
No segundo diário, comenta acerca das circunstâncias da produção de seu texto Todas las sangres (1964) e demonstra toda a sua frustração por não conseguir
“[...] empalmar o capítulo III, porque, apesar de estar excitado, não entendo a fundo o que está acontecendo em Chimbote e no mundo” (ARGUEDAS, 2016, p. 107).
Sente os dilemas de todo o escritor, quando o tema lhe foge às mãos, associado aos sintomas da doença e, junto ao desapontamento, surge novamente o desejo de morrer. Relembra a viagem à moderna cidade de Nova York e o quanto não se sentiu acolhido, lembra dos tempos em que esteve preso. E sempre às voltas com a obsessão com o término da escrita da narrativa sobre Chimbote:
Amanhã, ou depois de amanhã, ou segunda-feira, começo o capítulo III de qualquer maneira. Pedi, para escrever este livro, dez meses de licença sem salário na universidade, e quatro e meio já se foram [...].
Tenho medo, não consigo começar este maldito capítulo III, de verdade! (ARGUEDAS, 2016, p.110).
No terceiro diário, outra crise depressiva e a dificuldade de para dar continuidade à história. Dessa vez, registra o seu desapontamento com alguns escritores, além da viagem à Arequipa – um momento de paz com sua mulher –, e compartilha com o leitor sua mudança de planos em relação à escrita da narrativa, além de anunciar os próximos passos da narrativa:
Na volta de uma viagem a Quilpué, no trem, creio ter encontrado o método, a ‘técnica’ não para o capítulo V, mas para a ‘Segunda parte’
deste ainda incerto livro. Já escrevi os três primeiros ‘Fervores’ dessa
‘Segunda parte’; Chacauto com ‘Mantequilla’; dom Hilário Caullama com ‘Dobe Jeta’ e a decisão de Maxwel. (ARGUEDAS, 2016, p. 212).
No que ele denomina de “Último diário”, além de relatar os trágicos destinos de alguns habitantes de Chimbote – que visitaram a narrativa das raposas –, vai formulando uma espécie de despedida, anunciando seu fim:
[...] Possivelmente consiga começa a fechar um tempo e a começar outro no Peru e o que ele representa: se acaba o tempo da cotovia consoladora, do chicote, do encabrestamento, do ódio impotente, das fúnebres ‘rebeliões’, do temor a Deus e do predomínio desse Deus e seus protegidos, seus fabricantes; começa o da luz e da força libertadora invencível do homem do Vietnã, o da cotovia de fogo, o do deus libertador, Aquele que reintegra. Vallejo era o princípio e o fim.
(ARGUEDAS, 2016, p. 282).
[...] Regressei de uma viagem não tão útil que fiz a Lima. Haverão de me perdoar o que há de petitório e de pavonesco neste último diário,
se o tiro se produz e acerta. E, por força, tenho que esperar não sei quantos dias para fazê-lo. (ARGUEDAS, 2016, p. 283).
A narrativa das raposas apresenta um desfile interminável de personagens, situações, casos que não se colocam em primeiro plano ao longo da história, motivo pelo qual selecionamos alguns apontamentos sobre os capítulos da narrativa que nos pareceram mais relevantes na construção de nossos argumentos.
O primeiro capítulo se abre com a personagem do Chacauto, o dono do barco Sanson, que se dirige para Chimbote, tendo como tripulantes: “um veado”, o mudo, um violonista de boate, “El gato negro”, que durante as conversas, vão usando palavras de baixo calão.
Como acontece em todos os capítulos, as personagens entram e saem de cena, sem nenhuma recomendação ou alerta anterior do narrador. O leitor entra nas ondas dessa leitura sem ter a mínima ideia do que trata cada cena, que, com diálogos truncados e adotando a fala característica de cada personagem, causa estranhamento ao leitor.
Outra característica que se percebe são as repentinas mudanças de cenas.
Assim como as personagens aparecem sem explicação, da mesma maneira os espaços também mudam abruptamente e novas situações são inseridas. Como exemplo das cenas que se seguem. Estão no barco em pleno diálogo e, de repente, outra cena se sobrepõe a essa, situando a narrativa em outra situação e lugar:
– Escuta, Chacauto – respondeu Maxe, um tripulante alto, um pouco mulato, que caminhava balançando, como se a força do seu corpo o tivesse vencido. Olha, Chauco: você não é juiz pra esses assuntos que acontecem em terra. Tô com fome. Calamos bem. O que o gringo e o Mudo é ou não é, isso a gente vai ver na hora certa. Vamos?
– Já merda, vamos comer! Eu também acho di’fome mi’azedo por demais.
Chacauto olhava com satisfação para Maxwel. Tinha uma loura magrela sentada no colo. Quase todos os casais haviam deixado de dançar. Um zambo, devidamente agarrado a uma jovem nariguda, mexia seu corpo cálido sovando a mulher num ângulo do extenso salão [...]. (ARGUEDAS, 2016, p. 54-55).
O capítulo é repleto de cenas de violência ocorridas no prostíbulo, de descrições que revelam a degradação das pessoas e dos lugares nas redondezas da cidade de Chimbote.
O segundo capítulo é marcado pelo surgimento da peculiar figura do mulato, limpador de peixe, Moncada, que andava pelas ruas da cidade discursando aos brados sobre questões políticas, religiosas ou de ordem pessoal, travestido de acordo com a reclamação do dia: uma hora vestia-se de pescador descalço, outro dia de grã-fino, de turco, um dia até trajou um boneco com a mesma vestimenta dele. Era respeitado por uns, ignorado por outros e tido como louco para outros.
Dentre as várias cenas do capítulo, não deixaremos de registrar a repentina entrada de uma procissão, à qual, Moncada se une – permitindo ao leitor conhecer uma série de locais característicos de Chimbote –, e aos poucos se descobre a razão pela qual várias pessoas estão carregando cruzes em direção ao “novo” cemitério.
A Municipalidade, a Beneficência, a polícia, os vigários, todos tinham ordenado e persuadido os pobres as barricadas a trasladar seu cemitério até uma encosta, que havia do outro lado do morro de San Pedro. O lixão do porto estava próximo dessa encosta, mas também por perto passavam a Rodovia Pan-Americana [...] seriam enterrados os pobres, gratuitamente, sem gastos paroquiais, municipais nem com a Beneficência... Ninguém ordenou levar os mortos já sepultados no alto do cemitério recém-murado, agora solene com o arco e a cruz de mármore. (ARGUEDAS, 2016, p. 89).
O terceiro capítulo revela o mundo do trabalho na fábrica de farinha e de peixe
“Nautilus Fishing”, comandada por dom Ángel. O empresário é surpreendido com a chegada de um misterioso visitante, dom Diego. Os dois travam uma conversa estranha, mas que aos poucos vai revelando a face do visitante. As pistas deixadas na escrita levam o leitor a deduzir que se trata de uma das raposas antropomorfizada em dom Diego.
[...] O chefe esteve a ponto de rir, apesar das questões
‘transcendentes’ sobre as quais conversavam; porém, viu que na levita do visitante ondulava e brincava sobre os botões dourados uma luz jaspeada, como às vezes costumam mexer os pelinhos de certos bichos felpudos que ele, dom Ángel, havia visto na selva.
(ARGUEDAS, 2016, p. 124).
[...] O visitante consentiu com a cabeça, dirigindo a Rincón uma mirada lúcida: seus olhos adquiriram transparência mais profunda, que não é a do ar nem do céu, mas circunscrita e viva, sem limite de cor, dos lagos das alturas ou de um remanso... bem como os peixes de brilho suave que se precipitam a velocidades diferentes, segundo a vontade ou o desejo dos animais. (ARGUEDAS, 2016, p. 132).
Dom Ángel percebeu que o braço do visitante era muito curto, que suas mãos eram peludas e seus dedos sumamente delgados, com unhas longas... (ARGUEDAS, 2016, p. 144).
O corpo bastante desproporcional do visitante girava quase no mesmo lugar, sem deslocar nem mesmo uns poucos centímetros; porém, como era desigual e a velocidade das voltas não era regular, pelo contrário, frenética, a forma do visitante também mudava, assim como a extensão e cor de sua casaca. (ARGUEDAS, 2016, p. 153).
Lentamente, entre os vários casos mencionados por dom Ángel ao visitante – que remontam à formação e aos conflitos da cidade já industrial de Chimbote –, o leitor vai percebendo a transformação do visitante em um animal.
No quarto capítulo, destacam-se as personagens de dom Esteban, da evangélica Jesusa – sua ex-mulher que virou sua esposa depois que seu irmão morreu –, e do Moncada. Esteban relembra de fatos da vida e de seu irmão.
Na segunda parte da narrativa – conforme o prometido pelo narrador do relato autobiográfico –, há o encontro entre quatro personagens: Chacauto, Mantequilla, dom Hilário e Doba Jeta. A conversa gira em torno da atividade de pesca, o ponto em comum entre eles: do surgimento e ações da “Máfia”, que alcança vários setores da sociedade, até o prostíbulo; do egoísmo que se generalizou em Chimbote, e acaba incentivando o interesse no privado em detrimento do bem coletivo – linhas do capitalismo, do imperialismo –, da atuação mais efetiva dos “comonistas” contra a exploração a que eram submetidos os trabalhadores.