Quando escrevia sua tese de doutorado, Russel-Wood se mostrava impressionado com o arquivo da Misericórdia de Salvador, uma das primeiras fundadas na colônia, e ressaltava a importância de se estudar estas instituições: “não se pode escrever uma história social definitiva do Brasil enquanto os arquivos dessas irmandades não forem examinados”. Afora o termo “definitiva”, parece bastante acertado o comentário do historiador. Os arquivos das Misericórdias guardam muitos
37 Como exemplos desta produção: ABREU, Laurinda. (ed.). European Health and social welfare policies. Disponível na internet: http:/ / phoenixtn.net/ monografhs/ evora2002/ healthfinal.pdf. Capturado em 16 de outubro de 2005. [ incluídos textos sobre assistência na França, I nglaterra, I rlanda, Alemanha, Espanha, I tália, além de dois textos sobre as Misericórdias portuguesas] . BERNALDO, Pilar González. Beneficencia y gobierno, op. cit. CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social, op. cit. DAVIS, Natalie Zemon. Ajuda aos pobres, op. cit. RECALDE, Héctor. Beneficencia, asistencialismo estatal… op. Cit. RODRIGUES-SANCHO, Javier. El Estado en Costa Rica, la iniciativa pública y privada frente al problema de la pobreza urbana. San José (1890-1930). Anuario de Estúdios Centroamericanos. San José: Universidad de Costa Rica, 26 (1-2), 2000, p. 57-77. SÁ, I sabel dos Guimarães. Quando o rico se faz...op. cit. THOMPSON, Andrés. Beneficencia, filantropia, op. cit. TOCQUEVI LLE, Aléxis de. Memoria del pauperismo, op. cit.. WOOLF, Stuart. Los pobres em la Europa moderna. Barcelona: Editorial Crítica, 1989. VAGLIENTE, Pablo. La asistencia social por fuera del Estado. Córdoba, Argentina, mediados del siglo XIX. I n: HEI NZ, Flávio M.; HERRLEIN Jr., Ronaldo. Histórias Regionais do Cone Sul. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003, p. 435-459
registros que não interessam apenas aos historiadores da assistência ou do associativismo, mas também àqueles que se interessam pela medicina, justiça, trabalho, economia, pobreza, infância, morte, entre outros temas.38
A Misericórdia de Pelotas (assim como as demais do Brasil e do mundo) produziu ao longo dos anos uma considerável quantidade de documentos escritos, tanto para o uso interno da irmandade, quanto para tornar públicos alguns episódios. Quem se aventurar nos arquivos das Misericórdias, encontrará uma vasta quantidade de documentos, em sua maioria manuscritos. Mas também podem ser encontrados outros tipos de registro: como pinturas, fotografias, desenhos, mapas, plantas, monumentos, e documentos impressos. Esta documentação é semelhante nas diversas irmandades, podendo variar de acordo com a relação mantida com outras instituições e com o tipo de assistência prestada pela confraria, mas, de uma forma geral, grande parte da documentação escrita produzida diz respeito ao que foi exigido pelo alvará régio de 1806, que regulamenta o funcionamento das Misericórdias no I mpério Português:
Para que as sobreditas contas se formalizem com exação, haverá em cada uma das casas e hospitais os livros necessários para neles se lançarem todos os referidos assuntos provendo os I rmãos da Mesa, que atualmente estiverem servindo, o que for preciso para este fim: e em todas as casas haverá um livro separado em que estejam escritos todos os seus bens móveis, e de raiz, direitos e ações pertencentes à mesma Santa Casa, com declaração dos títulos da sua aquisição, nota dos encargos com que foram deixados; para com este se poder combinar a receita, e despesa; e conhecer não somente da boa arrecadação, mas também da pontual observância da vontade dos I nstituidores, e da boa aplicação dos rendimentos.39
A principal recomendação do Alvará diz respeito ao registro dos bens, legados e rendimentos, para que as subvenções e doações pudessem ser fiscalizadas. Mas, além dos livros recomendados, também havia registro das reuniões da Mesa e dos indivíduos assistidos pela irmandade. As Santas Casas mantinham uma razoável anotação de suas contas, dos registros de enterramento (quando possuíam cemitério), e também dos enfermos internados no hospital, até porque
38 RUSSEL-WOOD, A. J. Fidalgos e filantropos..., p. XVI
39 Alvará de 18 de outubro de 1806. I n: Colleção da Legislação portuguesa de 1802 a 1810. Lisboa: typografia Maigrense, 1826, p. 214-218. A citação corresponde ao artigo 6º .
tinham que apresentar os números ao Estado; no caso do Rio Grande do Sul no segundo I mpério, estas contas e estatísticas eram apresentadas anualmente ao Presidente da Província, e às vezes ao encarregado da Estatística.40
Quanto ao arquivo da Santa Casa de Pelotas, é possível encontrar Atas da Mesa, Atas da Mesa Administrativa; Relatórios da Provedoria, alguns impressos, outros manuscritos, alguns que foram apresentados à nova Mesa, outros ao Presidente da Província, muitos dos quais foram enviados e podem ser encontrados no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, no fundo Assuntos Religiosos; Regimentos, Regulamentos e Compromissos. Ainda existem diversos Livros de Registros, tais como: de ofícios (até 1907 manuscritos em bom estado, e a partir desta data os “copiadores” em papel de seda, alguns em péssimo estado); de registro de propriedades; de contabilidade incluem os de Conta Diária, os de Receita e Despesa (em separado para o geral da Santa Casa e o cemitério), e os livros Razão ou de Contas Correntes (deve/ haver, são diversas contas em separado como do hospital, dos expostos, contas em bancos, empréstimos individuais, neste caso também existem livros separados para o cemitério). Também há livros de registro dos enfermos internados no hospital; de registro de enterramentos no cemitério; registros de entrada dos irmãos; livros para registrar os benfeitores; livro de honra (no qual eram feitas anotações dos visitantes da Santa Casa).
Esta lista comporta a documentação mais ou menos em série disponível, mas ainda existem documentos não seriados, tais como: registro de empregados, inventários de móveis e utensílios, livros de compras para o hospital (com a designação dos itens comprados e seu valor), e outros produzidos a partir da década de 1920, tais como atas do Centro Médico da Santa Casa, registros diversificados para enfermos, empregados etc. A pesquisa sobre a Misericórdia ainda conta com documentos produzidos por outras instituições ligadas ao Estado, e também a imprensa.
Não tive tempo de processar toda a documentação produzida pela irmandade, por isso privilegiei algumas séries. Uma delas são os termos das atas das
40 Mesmo em período anterior a este lei, as misericórdias produziram um tipo de documentação bastante semelhante, o que já permitiu estudo comparados, como fez I sabel dos Guimarães Sá para as Santas Casas de Salvador, Lisboa, Goa e I lhas Atlânticas . Veja-se: SÁ, I sabel dos Guimarães. Quando o rico se faz ..., op. cit.
sessões da Mesa, reuniões que normalmente ocorriam mensalmente para tratar dos assuntos da irmandade e, anualmente, para eleger a nova Mesa. Os assuntos tratados eram os mais diversos e diziam respeito à organização da assistência e da irmandade. As atas são documentos interessantes porque dizem respeito a muitos assuntos que não deveriam se tornar públicos e, por isso, mostram com mais clareza os processos aqui abordados. Já os relatórios da provedoria eram apresentados anualmente (após 1889, bienalmente). Estes sim, são documentos produzidos para tornar públicas as atividades da irmandade e eram feitos normalmente para prestar contas ao Presidente da Província, mas também eram impressos e distribuídos para outras instituições e para os irmãos da Mesa. Estas foram as séries documentais principais utilizadas para este trabalho. Ainda foram utilizados outros registros anteriormente enumerados, o que poderá ser constatado na leitura do trabalho.
Este tipo de documentação, ainda pouco explorada pelos historiadores, se presta não apenas para o estudo específico da instituição. Além dos usos que já vem sendo feitos por quem se interessa pelas atividades assistenciais da irmandade, os que estudam história econômica podem encontrar listas de preços de produtos e serviços, rendimentos de juros de aplicações e empréstimos, preços de aluguéis de imóveis urbanos. Além disso, pode ser observada a forma de organização da contabilidade ao longo dos anos. O interesse para a história do trabalho ou história social pode ser encontrado nos diversos livros de registro dos assistidos, onde normalmente consta a profissão, estado, condição (livres ou escravos), cor, idade, nacionalidade ou naturalidade, por vezes local de moradia dos internados no hospital ou enterrados nos cemitérios das Santas Casas (freqüentemente principais cemitérios nas cidades brasileiras). Também os registros referentes aos irmãos e doadores pode interessar aos que se ocupam dos grupos mais favorecidos, nestes registros podem ser encontrados às vezes, além da profissão, o local de moradia e outras informações sobre estas pessoas.
Uma das primeiras questões que surgem ao lidar com esta vasta documentação é quanto à intencionalidade na produção e guarda destes documentos. Ao passar os olhos pelos textos, é possível perceber a consciência do registro. Ou seja, os indivíduos que estavam à direção da irmandade e eram responsáveis pela produção dos documentos, ao elaborarem os mesmos, estavam
direcionando a escrita a possíveis interlocutores. Então, poderia perguntar: quais são os limites das fontes utilizadas? Até que ponto elas permitem afirmar verdades sobre o objeto aqui estudado? Aliás, esta poderia ser uma boa critica para o meu trabalho. A de estar utilizando quase somente a documentação produzida pela irmandade. Ainda que todos os tipos de fontes tenham os seus limites a minha escolha justifica- se pela perspectiva adotada neste trabalho. Este não é um estudo sobre “os de baixo”, não se trata de um trabalho que busque reabilitar os “vencidos”. A abordagem que procurei estabelecer diz respeito ao modo como os indivíduos de um grupo da elite local pensavam e buscavam organizar a sociedade em que viviam. Seria ótimo ter acesso a relatos dos indivíduos que eram assistidos pela irmandade, mas acredito que seria muito difícil encontrá-los. Talvez se me pusesse à procura destes relatos, demoraria muito mais tempo para dar fim a esta pesquisa, e correria o risco de não os encontrar.
Para tentar suprir um pouco as limitações da documentação, sempre que pude recorri a periódicos locais. Ainda que este tipo de fonte também tenha sido produzido em sua maior parte por indivíduos pertencentes às elites, por vezes colocam posições contrárias à atuação da Santa Casa, o que permite ter uma idéia mais ampla da sua atuação na cidade. A pesquisa em jornais não foi completamente aleatória: os anos e datas pesquisados correspondem a eventos relatados nas atas da Mesa da Santa Casa. Como mostro nos próximos capítulos, era importante para os dirigentes da instituição que a imagem pública da Santa Casa fosse a melhor possível. Assim, por vezes decidia-se que alguns fatos não deveriam ser divulgados na imprensa local; de outro lado, quando ocorria alguma acusação, ou afirmação considerada injuriosa, em jornais, relatórios de outras instituições, o assunto era discutido em Mesa, e normalmente designava-se algum irmão para responder publicamente.
Outra questão se refere à possibilidade de construir um relato diferente daquele que vem sendo produzido de forma a enaltecer os grandes feitos dos agentes da caridade e da filantropia. E como isto seria possível, se as fontes utilizadas foram produzidas justamente por estes agentes? Perde-se, então, um pouco da ingenuidade da possibilidade do resgate do passado, e remete-se para construção de uma narrativa sobre o passado que busque a compreensão de como
se estruturaram certas práticas. Neste sentido, a questão da verdade está deslocada do eixo “verdade sobre um determinado passado”, para o eixo análise parcial de um determinado conjunto de textos que remete a um passado histórico determinado.
Neste ponto, me reporto a Luiz Odaci Coradini que, na introdução do seu texto sobre a heroificação da elite médica no Rio Grande do Sul, deixa claro que não cabe ao sociólogo “desmistificar” os heróis e vultos, mas compreender o processo de construção dos mesmos. Semelhante afirmativa pode ser feita sobre a produção de História: não cabe a esta desmistificar os eventos relatados, mas analisar ou explicar como eles ocorrem, ou são construídos, ao longo do tempo.41
A maior parte da documentação utilizada neste trabalho provém da instituição estudada – produzida por seus dirigentes – contando ainda com documentação produzida pelo Estado em suas diferentes esferas. Esta deve ser tomada como monumento no sentido que referem Bourdieu e Saint Martin:
Do mesmo modo que os monumentos, os documentos, e muito particularmente aqueles que se considera dignos de ser conservados e transmitidos à posteridade, são o produto objetivado de estratégias de apresentação de si que as instituições, como os agentes, sem mesmo o querer e que a ameaça da objetivação, encarnada pelo sociólogo, freqüentemente torna consciente.42
Ou seja, a documentação textual da Santa Casa permite que se observe como os seus dirigentes a concebiam e a apresentavam publicamente. Mas também é possível observar as suas posições sobre a sociedade em que viviam e sobre como consideravam os assistidos por caridade e também os outros grupos, menos desafortunados, que utilizavam os serviços do hospital e do cemitério. Por isso, os textos foram lidos levando em consideração o momento histórico vivido pelos agentes da escrita, e a consideração da possível intenção ao escrever certos textos. Um exemplo para deixar mais claro: até 1889, havia normalmente dois tipos de relatórios. Um que era apresentado à nova Mesa, normalmente falava muito mais
41 CORADI NI , Luiz Odaci. Panteões, iconoclastas e as ciências sociais. I n: FÉLI X, loiva Otero; ELMI R, Cláudio P. (orgs.). Mitos e heróis: construção de imaginários. Porto Alegre: ed. UFRGS, 1998, p. 209- 235.
42 BOURDIEU, P., SAI NT MARTI N, M. De. Agrégation et ségrégation; le champ des grands écoles et le champ du pouvoir. Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n.69, sep.,1987. pág. 8. Citado por CORADI NI , Panteões...op. cit. Pág. 218.
dos problemas da Santa Casa; outro que era apresentado ao Presidente da Província falava, exceto quando necessitava de ajuda para algum aparelho que ia mal, dos bons resultados obtidos na assistência distribuída. Foi levando em conta estas especificidades da documentação que procedi a sua leitura e análise. Mas é claro que, em muitos momentos, a minha leitura ou interpretação pode ser um equívoco, por isso sempre que necessário transcrevi trechos dos documentos comentados.
Além disso, nem toda a documentação utilizada diz respeito a textos em que se posicionavam os irmãos. Também foram utilizados livros de registro, contabilidade e outros números. Estes registros, foram classificados e organizados pelos dirigentes da instituição. Ainda assim, permitem que sejam feitas perguntas diferentes daquelas imaginadas pelos homens da elite de Pelotas no século XI X e começo do século XX.