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notas acerca do comércio

exterior e política comercial

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Ivan Tiago Machado Oliveira2

Rodrigo Pimentel Ferreira Leão3

Emílio Chernavsky4

1- Introdução

Nas últimas décadas a economia internacional tem assistido a uma importante transformação no grau de desenvolvimento e de articulação entre os mais distintos países. As nações conhecidas como emergentes ampliaram sua participação na economia mundial, não somente em termos absolutos, como percentual do PIB e do comércio internacional, mas também na tomada de decisões multilaterais.

O aumento da importância dos emergentes, entretanto, não ocorreu de modo uniforme entre os diferentes países. Brasil, Índia e China – BIC, a despeito de suas diferenças, foram três países que ao longo dos últimos anos se tornaram atores importantes do cenário internacional. Neste sentido, por exemplo, os dois gigantes asiáticos, entre 1991 e 2008, ampliaram sua participação no PIB mundial de somente 2,8% para 9,1%, sendo que quase 60% desta expansão ocorreram nos últimos cinco anos5

(2004-2008). O aumento da importância destes países não se limitou à esfera econômica, mas refletiu- se também na maior ocupação dos espaços de decisão nas esferas políticas internacionais, como ficou evidente em suas participações nas decisões multilaterais referentes à crise financeira de 20086.

A maior atuação dos BIC também se manifestou no comércio internacional. Também aqui, o crescimento dos fluxos de comércio não ocorreu de maneira uniforme entre os países, pois respondeu a um conjunto distinto de mudanças estratégicas e reformas realizadas em cada um deles. Em virtude

1 Embora o termo BRIC inclua a Rússia, por questões vinculadas ao escopo do projeto ao qual esta pesquisa está vinculada

e à necessidade de maior maturação na análise dos dados acerca da experiência Russa, o presente trabalho terá foco comparativo apenas entre Brasil, Índia e China.

2 Pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA.

3 Assistente de Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA e Mestrando em Desenvolvimento Econômico

pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.

4 Doutorando em Economia pela Universidade de São Paulo – USP. 5 Dados do World Development Indicators do Banco Mundial.

6 Cunha (2009, p. 12) destacou a ampliação da atuação dos países em desenvolvimento no período pós-crise: “As

reuniões de cúpula do G7 (ampliado com a Rússia, no chamado G8) perderam importância relativa, em linha com a própria mudança na estrutura da geoeconomia mundial. O G20, com os BRICs [Brasil, Rússia, Índia e China], passou a ser o espaço de maior poder gravitacional para a discussão das reformas de caráter estrutural, bem como da tentativa de coordenação nas políticas de crédito e fiscais”.

80 O Brasil e os demais BRICs

Comércio e Política

destas diferenças, enquanto Brasil e Índia apresentaram resultados relativamente modestos no processo de inserção comercial, a China não apenas ampliou largamente a sua participação no comércio internacional, como também diversificou sua base industrial e exportadora7.

Como todos os três países realizaram reformas de abertura da economia, os exitosos resultados da China não podem ser simplesmente atribuídos às políticas de liberalização de modo geral, mas devem ser explicados a partir das características específicas das políticas implantadas no país. Nesse sentido, longe de responder a um programa fechado e abrangente de reformas, a abertura chinesa, iniciada nos anos 1980, acabou sendo marcada por uma visão fortemente pragmática, em que as mudanças foram implementadas de forma incremental, levando-se em conta os resultados de cada reforma no desenho da etapa seguinte. Por conta desta sistemática, foi aplicada uma estratégia de abertura extremamente cautelosa, estabelecendo uma divisão regional, setorial e patrimonial muito clara entre os fluxos de comércio protegidos pelo Estado e aqueles liberalizados para o capital estrangeiro e para outras empresas nacionais de capital não estatal (NAUGHTON, 1996).

No Brasil, a estratégia de abertura realizada no âmbito dos planos Collor e Real foi mais rápida e profunda se comparada à dos outros dois países, e apoiou-se na eliminação de parte da propriedade estatal e das restrições fiscais e financeiras à entrada do capital estrangeiro e na valorização cambial. Depois de 1999, em função da crise de balanço de pagamentos, esta estratégia foi parcialmente alterada mediante, por exemplo, a desvalorização do câmbio e a concessão de incentivos financeiros às exportações, embora não tenha sido capaz de tornar o país um grande competidor em nível global, tendo como exceção o setor agrícola. (BELLUZZO; ALMEIDA, 2002).

Na Índia, se, até 2002, o governo havia adotado um programa estratégico de reformas bem limitado, no qual as importações foram liberalizadas lentamente, ao mesmo tempo em que tentou estimular o setor exportador via política cambial e atração do IDE, no período posterior houve um aprofundamento da abertura. Assim, as importações e a conta capital foram liberalizadas como forma de incentivar a concorrência e não gerar desequilíbrios no balanço de pagamentos (PRATES; CINTRA, 2009).

Partindo dessas considerações, este artigo tem como objetivo mostrar que a inserção dos BIC no comércio internacional ocorreu de forma diferenciada, tanto em termos de participação nos fluxos comerciais como de mudanças da pauta de importações e exportações. Como será visto ao longo do trabalho, esta diferenciação respondeu, dentre outros aspectos8, às estratégias de reformas do comércio

que foram implementadas em cada um dos países, sob um conjunto distinto de instrumentos de política comercial. Deste modo, em última instância, as políticas de comércio exerceram um papel importante para determinar os rumos do comércio internacional dos BIC.

Nessa discussão, o trabalho procura avaliar as distintas trajetórias da inserção comercial e o modo pelo qual as políticas de comércio foram conduzidas segundo os interesses e as estratégias de cada país. A fim de alcançar este objetivo, está organizado em três seções, além desta introdução. Na próxima seção, apresenta-se o desempenho dos BIC no comércio internacional, analisando a evolução de sua participação nos fluxos globais e enfatizando a discrepância dos resultados chineses em comparação àqueles do

7 Na próxima seção serão analisados, detalhadamente, os dados referentes à evolução do comércio exterior de Brasil,

Índia e China.

8 As mudanças no cenário internacional, as políticas macroeconômicas, as estratégias das grandes empresas são alguns

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A inserção no comércio internacional do Brasil, da Índia e da China (BIC): notas acerca do comércio exterior e política comercial Brasil e da Índia. Na terceira seção, elabora-se uma análise das estratégias de políticas comerciais dos BIC, apontando os instrumentos e os controles que marcam a inserção no comércio internacional dos três países. Por fim, são feitas as considerações finais com destaque para os elementos de diferenciação entre os BIC em termos de comércio exterior e de política comercial.

2 - Evolução de fluxos comerciais internacionais: o