3 A PROTEÇÃO DA MULHER CONTRA A VIOLÊNCIA A PARTIR DA
3.8 Notas em torno da Lei 13.505/2017, que qualifica o atendimento a
No dia 08 novembro de 2017, foi sancionada a Lei nº 13.505, que altera a Lei Maria da Penha ao criar regras que qualificam o atendimento policial e a perícia junto a mulheres em situação de violência doméstica. A partir de então, determinou-se que o trabalho deve ser prestado, ininterrupta e preferencialmente, por servidoras do sexo feminino previamente capacitadas. Nesse aspecto, é imprescindível que a mulher submetida à situação de violência doméstica e familiar tenha pronto e eficaz atendimento em sede policial, já que, na maioria das vezes, são as delegacias de polícia que primeiro têm contato com os casos concretos.
Além disso, a Lei dá garantias quanto às perguntas e questionamentos que devem priorizar a saúde psicológica e emocional da mulher, considerada a sua condição peculiar de pessoa em situação de violência doméstica e familiar, bem como inclui novas diretrizes
19 The use of inexact categories for the classification of murders, such as the category “others”, results in misidentification, concealment and underreporting of femicides—in particular those that do not occur in a family situation. Another common practice is the use of stereotypical and potentially prejudicial categories, including
“crime of passion” or “mistress”. Disponível em:
quanto ao local do atendimento e registro dos depoimentos.
O projeto que originou a nova regra – PLC 7/2016 – foi aprovado no mês de outubro pelo Senado. Após a aprovação, o presidente da República, Michel Temer, vetou o
caput e os §§1º e 2º do artigo 12-B da nova lei, que delegava à autoridade policial a aplicação
de medidas protetivas, como a determinação para que o suposto agressor ficasse distante da vítima. O texto vetado dispunha o seguinte:
Art. 12-B. Verificada a existência de risco atual ou iminente à vida ou à integridade física e psicológica da mulher em situação de violência doméstica e familiar ou de seus dependentes, a autoridade policial, preferencialmente da delegacia de proteção à mulher, poderá aplicar provisoriamente, até deliberação judicial, as medidas protetivas de urgência previstas no inciso III do art. 22 e nos incisos I e II do art. 23 desta Lei, intimando desde logo o agressor.
§ 1o. O juiz deverá ser comunicado no prazo de 24 (vinte e quatro) horas e poderá
manter ou rever as medidas protetivas aplicadas, ouvido o Ministério Público no mesmo prazo.
§ 2o. Não sendo suficientes ou adequadas as medidas protetivas previstas no caput, a
autoridade policial representará ao juiz pela aplicação de outras medidas protetivas ou pela decretação da prisão do agressor.
Na mensagem de veto, o Presidente justificou que a redação dos dispositivos incidia em inconstitucionalidade material ao violar os artigos 2º e 144, §4º, da CRFB/88, uma vez que invadia a competência privativa do Poder Judiciário e estabelecia competência não prevista para as polícias civis. Logo, com o veto presidencial, reafirmou-se o entendimento de que as medidas protetivas de urgência à mulher em situação de violência doméstica e familiar não podem ser aplicadas, ainda que provisoriamente, pela autoridade policial, mas apenas pelo Poder Judiciário. Ao Delegado de Polícia cabe somente a remessa ao juiz do pedido da ofendida para a concessão de medidas protetivas de urgência, conforme o art. 12, inciso III, da Lei nº 11.340/2006.
No que diz respeito às diretrizes e cuidados que deverão ser adotados, a norma prevê que, em nenhuma hipótese, deverá ser permitido o contato direto da vítima, de seus familiares e das testemunhas com os investigados ou com as pessoas que a eles sejam ligadas. Deve ser evitada, também, a “revitimização” 20 da depoente, para que a vítima não seja, por
várias vezes, indagada sobre o mesmo fato nos âmbitos criminal, cível e administrativo. Além disso, o ideal é que o ambiente onde são prestados os depoimentos seja acolhedor.
20 A vítima de um crime, principalmente em delitos sexuais ou violentos, sempre que inquirida sobre os fatos, é,
de certa forma, submetida a um novo trauma, uma vez que passa novamente pelo sofrimento durante o relato do episódio triste pelo qual passou. Devido a isso e por estarem presentes ali pessoas estranhas, num ambiente formal e frio, a vítima suporta a violência psíquica a cada depoimento. Dessa forma, entende-se por revitimização esse sofrimento continuado ou repetido no qual está submetida a vítima ao ter que relembrar tais acontecimentos (ORTEGA, 2017).
A fim de que não ocorram possíveis constrangimentos, a vítima também não será questionada em relação à sua vida privada, para que não se sinta culpabilizada pelo fato, já que comumente ocorre a transformação da investigação ou do processo em uma espécie de julgamento quanto ao comportamento da ofendida. Há quem entenda, outrossim, que a revitimização é uma forma de violência institucional, pois é cometida pelo Estado contra a vítima:
A revitimização no atendimento às mulheres em situação de violência, por vezes, tem sido associada à repetição do relato de violência para profissionais em diferentes contextos o que pode gerar um processo de traumatização secundária na medida em que, a cada relato, a vivência da violência é reeditada. Além da revitimização decorrente do excesso de depoimentos, revitimizar também pode estar associado a atitudes e comportamentos, tais como: paternalizar; infantilizar; culpabilizar; generalizar histórias individuais; reforçar a vitimização; envolver-se em excesso; distanciar-se em excesso; não respeitar o tempo da mulher; transmitir falsas expectativas. A prevenção da revitimização requer o atendimento humanizado e integral, no qual a fala da mulher é valorizada e respeitada (Diretrizes gerais e protocolos de atendimento. Programa “Mulher, viver sem violência”. Brasil: Governo Federal. Secretaria Especial de Políticas para mulheres. 2015).
Em relação ao procedimento a ser adotado para a inquirição da mulher, dispõe a lei que, preferencialmente, será feita em recinto destinado a esse fim, cujos equipamentos inclusos deverão ser próprios e adequados à idade da mulher ou da testemunha, levando-se em consideração a gravidade da violência sofrida. Quando necessário for, a inquirição será intermediada por profissional especializado em violência doméstica e familiar e designado pela autoridade judiciária ou policial. Por fim, registrar-se-á o depoimento em meio eletrônico ou magnético, sendo impreterível que a degravação e a mídia integrem o inquérito.
Outra novidade trazida pela recente Lei nº 13.505/17, em seu art. 12-A, é a imposição aos Estados e ao Distrito Federal, de, na formulação de suas políticas e planos de atendimento à mulher em situação de violência doméstica e familiar, conferir prioridade, no âmbito da Polícia Civil, à criação de DEAMs, de Núcleos Investigativos de Feminicídio e de equipes especializadas para o atendimento e a investigação das violências graves contra a mulher. Nesse mesmo sentido, o art. 12-B, §3º, também acrescentado pela nova lei, possibilitou à autoridade policial requisitar os serviços públicos necessários à defesa da mulher em situação de violência doméstica e familiar e de seus dependentes.