Em Patrocínio do Coité os processos fúnebres das pessoas mais ricas e também de algumas pessoas queridas da sociedade, passava pelos jornais O Paladino e O ideal, em formas de notas necrológicas, anunciação de horários de cortejo fúnebre bem como de missas de sétimo dia ou de um mês, a depender é claro da quantidade de missas que a família irá realizar e/ou o próprio finado já tenha deixado os seus desejos de pós-morte acertado com seus parentes e amigos.
Como já sabemos, os jornais no Brasil e no mundo foram de grande importância para a informação das sociedades em que existiam esses veículos de
92 comunicação, principalmente em se tratando do Brasil no final do seu período imperial e primeira metade do século XX.
Não era normal que em todas as Vilas do Brasil tivesse um jornal que era periódico, mas, isso acontecia nas regiões que tinham uma maior massa populacional e, consequentemente, houvesse uma maior demora em se noticiar os fatos ocorridos na mesma sociedade.
As necrologias surgem no momento em que os jornais se consolidam, sobretudo, no que se refere à propagandas e outros assuntos de interesse público e político, pois, os impressos eram, em sua grande maioria, frutos de um aparato político, ou seja, o dono ou os donos dos mesmos sempre tinham uma tendência ou uma ideologia política. Automaticamente existiam discursos diferentes entre os jornais, sobretudo a partir de 1889 quando o Brasil se lança nos moldes republicanos e onde também se afloram os sentimentos sobre política.
Necrologia, uma parte do jornal onde anuncia a morte de algum membro da sociedade, e como já explicado anteriormente existe diferenças entre uma nota necrológica e outra, entre as notas de uma pessoa benquista na sociedade e uma pessoa comum. Porém, o simples fato de se demonstrar e anunciar a morte do indivíduo pertencente àquela sociedade ou a outra sociedade vizinha já o torna “democráticos” em alguns termos, como por exemplo, em se tratando da fé e da solidariedade cristã.
Geralmente as notas necrológicas traziam informações básicas, as quais pudessem ser identificadas por parente e amigos e para evitar possíveis confusões acerca de nomes iguais ou parecidos. As informações que eram mais recorrentes nas necrologias eram o nome do finado, a causa da morte, a hora que aconteceu o óbito e, por último, faziam uma homenagem ou uma conclusão da nota com os pêsames.
Mesmo que isso fosse uma forma de bajulação na maioria das vezes, mas era algo que tornava a sociedade mais bem informada e, principalmente, quando se tratava de algo tão sério e ao mesmo tempo tão religioso como é a morte de alguém.
Claro que os discursos variavam muito, pois, como já foram explicitados neste capítulo os discursos existiam e se diferenciavam de pessoa para pessoa, ainda mais quando os finados eram assinantes dos jornais e/ou pertenciam à
93 mesma classe social e política dos redatores e donos dos periódicos. Assim como Michel Foucault (1996) relata, os discursos sempre possuem um viés ideológico:
E a razão disso é, talvez, esta: é que se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que responde ao desejo ou aquele que exerce o poder, na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso verdadeiro, o que está em jogo, senão o desejo e o poder? O discurso verdadeiro, que a necessidade de sua forma liberta do desejo e libera do poder, não pode reconhecer a vontade de verdade que o atravessa; e a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdade que ela quer não pode deixar de mascará-la. (FOUCAULT, 1996, p. 20).
Em Patrocínio do Coité não era muito diferente disso, quando se morria alguém simples na sociedade, o jornal, na grande maioria das vezes, trazia uma breve necrologia, mas quando morria uma pessoa de posses, um fazendeiro, um comerciante ou um político, as notas eram mais caprichosas e bem maiores do que as das pessoas comuns no meio social; além disso, em alguns casos de enfermidade existiam também as notas explicativas sobre a atual situação da saúde do indivíduo, depois disso se o mesmo morresse o jornal fazia a necrologia de forma mais pomposa e também existiam as notas sobre as missas além de poemas enaltecendo a pessoa que se foi desse plano terreno. Com isso, podemos dizer que os periódicos possuíam fortes ideologias, sobretudo a qual os seus donos pertencessem. Segundo Andrade (2019):
[...] Em meados do século XIX os sinais de progresso e agitação vieram através dos jornais. Estes periódicos propagavam ideologias e cultura próprias. Cada publicação transmitia os interesses políticos e intelectuais dos administradores e responsáveis pela publicação dos títulos periódicos. Devido à forte representação ideológica dos jornais somados a crise política e dificuldades na manutenção de materiais, muitos tinham um período de circulação muito curto, ou sofriam constantes interrupções. (ANDRADE, 2019, p. 61).
Na Vila de Patrocínio do Coité, o encarregado de fazer essas notas e, sobretudo, transcrever poemas e crônicas era o cronista Francino Silveira Déda, pessoa que documentava quase tudo que ocorria na Vila através dos jornais e, principalmente, quando se tratava de anúncios fúnebres, as notas necrológicas.
O interessante sobre esse personagem na comunidade da Vila de Patrocínio do Coité era que ele, como se pode observar em todas as suas obras e escritos nos
94 jornais, tinha uma consciência de que possivelmente as palavras não iriam se perder, poderiam sim ficar para a posteridade. Escrevia com riqueza de detalhes, sobre o cotidiano, sobre os assuntos fúnebres e sobre a religiosidade. Mas também não abandonava suas falas enaltecedoras de cunho político além do social, pois o mesmo estava inserido numa determinada sociedade onde a política era algo presente e corriqueira, então todos os discursos de Déda também seguiam uma ordem natural do poder inserido naquela sociedade, discursos esses expostos direta ou indiretamente nas páginas dos jornais. Por isso, Foucault (1996) relembra:
Eis a hipótese que gostaria de apresentar esta noite, para fixar o lugar - ou talvez teatro muito provisório - do trabalho que faço: suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. (FOUCAULT, 1996, p. 08-09).
Déda, sem dúvidas, foi alguém relevante para a sociedade Paripiranguense e Coiteense. Por isso, foi necessário falar um pouco sobre seu papel no meio social e sobre a sua importância em vida para a referida comunidade.
2.6 A importância dos jornais na Vila de Nossa Senhora do Patrocínio do