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3 COMPREENDENDO O PERCURSO DA PESQUISA DE CAMPO

3.4 NOTAS (PESSOAIS) SOBRE O TRABALHO DE CAMPO

O nosso desenvolvimento enquanto pesquisadores é um processo contínuo. Talvez esse seja o maior aprendizado advindo da oportunidade de realizar um trabalho de campo tão significativo e pautado em teorias e métodos fascinantes que vêm sendo construídos ao longa da história por pesquisadores admirados. Se aproximar desses vultos e suas produções, estudando-os e se espelhando neles, e conseguir não se sentir inseguro, talvez seja um desafio grande demais para o mestrado, ao menos para mim. Apenas estudar as teorias e tê-las na ponta da língua não faz de nós bons pesquisadores, provavelmente seja apenas o pontapé inicial de nossa jornada, além disso, um longo caminho precisa ser percorrido, sem atalhos, para que possamos realmente fazer da aprendizagem um processo contínuo e interminável,

conquistando não a certeza de termos alcançado o desenvolvimento pleno, mas a consciência de que há sempre mais para aprender, ninguém vivo terá a sua formação dada por encerrada, e, principalmente, o conhecimento só pode ser construído coletivamente, um bom pesquisador não produz e não aprende nada sozinho.

Trabalhar com grupos de discussão e com o método documentário foi um grande e prazeroso desafio, constituído por muitos momentos de insegurança, mas, principalmente, de aprendizagem e melhoramento, inclusive porque o trabalho de campo exige mais que domínio teórico e metodológico. Para começar, produzir um bom tópico-guia se mostrou a chave para uma boa construção de dados e só foi possível devido à orientação e à contribuição de um grupo de outros pesquisadores, atentos e dispostos, que, ainda que distantes desse campo, somaram olhares diversos para que o roteiro fosse realmente aplicável e, principalmente, suscitasse dados ligados aos objetivos da pesquisa. Então, submeter o tópico-guia ao GERAJU, numa espécie de avaliação por pares, fez toda a diferença para garantir que os blocos temáticos e as questões propostas estivessem de acordo com o que se pretendia e fossem acessíveis aos jovens que seriam entrevistados. A realização de dois primeiros grupos possibilitou mais um momento de análise do instrumento e a revisão para ajustes baseados nas informações do campo.

Quando eu me vi sem poder estar com o tópico-guia em minhas mãos durante a condução do grupo, fiquei extremamente preocupada com a possibilidade de não conseguir propor os temas importantes de maneira efetiva e clara. No entanto, percebi que o tópico-guia realmente é apenas um guia mesmo, que nem adianta tentar ficar presa a ele porque ele não deve ser encarado como uma receita mágica e, mesmo que seguido fielmente, não garante o desenvolvimento dos temas. O trabalho bem fundamentado de construção do instrumento e o apoio de outra pesquisadora nos grupos fizeram com que os temas fossem abordados e, o melhor, a partir do que os jovens estavam narrando e apontando como relevante para o meio social que representam. Destaca-se, então, a importância de a condução dos grupos ser realizada de forma criteriosa e ciente de que são os próprios participantes que devem organizar a discussão.

A escolha de ambiente adequado para as discussões também é de suma importância, pois o excesso de ruídos pode atrapalhar as gravações e a formalidade imposta pelo espaço pode impactar as falas dos participantes. Em alguns casos, fiquei com receio de o ambiente escolar ter sido um limitador para a desenvoltura dos jovens nos momentos de fala, mas percebi que a organização da sala escolhida, a disponibilização de um pequeno lanche e a escolha de jovens que já se conheciam ajudaram a deixá-los mais à vontade. Faz-se

necessário, ainda, reiterar a solicitação para que não ocorra o uso de celulares no decorrer dos grupos, pois eles fazem com que a atenção dos sujeitos seja desviada e a discussão interrompida.

Com o desenrolar do trabalho de campo, foi possível compreender o que é o método de construção de dados, como ele deve funcionar, qual a dinâmica da conversa e quais objetivos podemos alcançar com essa experiência. Dessa maneira, ficou evidente que a preocupação do pesquisador deve estar voltada para estabelecer contato com os entrevistados e proporcionar uma base de confiança, tendo em vista que não se trata de alcançar respostas às perguntas, mas, sim, proporcionar que os participantes interajam e narrem, até porque o que se quer alcançar são opiniões coletivas e não individuais. Pude perceber que a minha postura como pesquisadora mudou muito em relação às primeiras experiências com grupos, melhorou, amadureceu, consegui não fazer perguntas individuais, não lançar uma pergunta exatamente em seguida da outra, respeitar os momentos de silêncio do grupo e não interpelar isoladamente cada estudante para que falasse, deixei que os grupos encontrassem o seu ritmo e eles fizeram isso.

Quando terminamos o grupo-piloto, que iniciou trabalho de campo, a pesquisadora Jéssica Reis Evangelista, mais experiente por já ter trabalhado com o método em outras pesquisas (EVANGELISTA, 2018), me orientou a realizar o registro assim que chegasse em casa, após a realização do grupo, a fim de que não deixasse de anotar as minhas percepções sobre aquele processo enquanto elas ainda estavam “quentinhas”. Posso afirmar, com certeza, que seguir a orientação da pesquisadora parceira foi muito produtivo e fez muita diferença para a análise dos grupos, inclusive porque, com as lembranças vivas em nossa memória, a interpretação dos dados dos grupos já começa a ser realizada.

Com o material todo coletado, a análise das respostas dadas pelos estudantes às questões do questionário e do formulário para a elaboração do perfil de cada um deles me fez perceber que, no caso desta pesquisa especificamente, os jovens entrevistados compartilham não só a trajetória escolar e a cidade em que vivem, mas toda a estrutura social em que estão inseridos, eles apresentam perfis semelhantes e que retratam a perversidade das desigualdades sociais do nosso país e do abandono do estado. O processo de elaboração teve início no exame dos questionários, mas foi atualizado e complementado ao longo de todo o trabalho com as falas dos estudantes, já que eles contam muito de suas histórias nos grupos de discussão e fornecem informações muito relevantes para a construção de seus perfis.

Por mais que a literatura apresentasse os passos para a realização de uma boa divisão temática conforme o método documentário, o momento inicial de realização dessa etapa da

pesquisa foi cercado de dúvidas quanto ao melhor formato para a apresentação e, principalmente, quanto ao atendimento dos critérios metodológicos que fundamentam a organização e direcionam a interpretação dos dados. Assim, diversas versões de divisão temática foram construídas e destruídas até se chegar às versões apresentadas nesse trabalho. Fica ainda mais evidente, na prática, depois da conclusão de cada etapa, a afirmação dos teóricos de que todos os passos para a análise dos grupos de discussão estão relacionados e servem de base para o desenvolvimento de um trabalho intensivo e efetivamente reconstrutivo.

Depois, no momento da transcrição do áudio dos grupos, pude refletir ainda mais acerca da minha postura enquanto pesquisadora e notei que, devido à grande preocupação de não deixar de introduzir na discussão os temas que julguei importantes, muitas vezes, acabei não promovendo o desmembramento e aprofundamento dos temas efetivamente abordados, deixando de realizar perguntas que claramente poderiam ter suscitado maiores esclarecimentos e novas narrativas, que oportunizariam a percepção de outras experiências conjuntivas do grupo.

Eu decidi realizar a transcrição de todo o material de cada um dos grupos a fim de aprofundar o contato com toda a discussão e, com isso, buscar ainda mais recursos para a interpretação das passagens selecionadas. No entanto, percebi que o tempo dispensado a essa tarefa foi muito grande e seria mais bem aproveitado se empregado na fase de interpretação propriamente dita. Assim, embora ter realizado a transcrição completa dos grupos tenha aspectos positivos, inclusive quanto ao próprio desenvolvimento da habilidade necessária para transcrever e codificar, eu não faria isso novamente.

Além disso, estar de posse da transcrição de toda a discussão de cada grupo desencadeou muitas dúvidas quanto à seleção das passagens para análise, tendo em vista que, a cada leitura, cada fala dita pelos estudantes se revestia de ainda mais sentido e importância, fazendo-me acreditar que não era justo e coerente deixar falas tão significativas fora da interpretação minuciada. Com o apoio do meu grupo de pesquisa e da orientadora, desafiei- me a realizar o exercício de selecionar algumas passagens e entender que, embora se reconheça a riqueza e complexidade dos dados construídos, em apenas uma pesquisa de mestrado não é exequível o alcance de uma análise com o grau de profundidade esperado de todo o material fornecido pelos grupos de discussão.

A codificação dos dados foi desafiadora por diversos fatores, principalmente: pelo fato de o processo de apropriação dos códigos exigir dedicação, estudo, prática e apuração dos sentidos envolvidos – no início era quase impossível saber distinguir uma leve diminuição do

tom da voz de um entrevistado de uma forte diminuição –, se assemelhando a um processo de alfabetização; e, depois, pela dificuldade que se tornou lidar com um texto sem sinais de pontuação empregados conforme às regras gramaticais da língua, inclusive por conta da minha formação acadêmica inicial ligada à área da língua e da linguagem, foi perturbador aceitar um texto sem pontuação e, ainda, compreender que uma vírgula não era uma vírgula, tinha outro significado, então, foi muito recorrente me perceber retirando símbolos ou incluindo símbolos motivada pelo meu olhar de revisora de textos.

Por fim, o que foi ainda mais digno de nota após a conclusão dos grupos de discussão e a reconstrução dos dados, para mim, foi perceber o quanto os jovens positivaram a experiência de participar da pesquisa, eles registraram de diversas formas – tanto por meio de falas, perguntas com curiosidades sobre a vida acadêmica e mensagens pedindo feedback dos grupos e resultados da pesquisa – agradecimentos sinceros por poderem ouvir e, principalmente, serem ouvidos. Os grupos de discussão representaram um momento incomum na rotina dos jovens da EJA, segundo afirmações deles, em que: tiveram toda a atenção de alguém, de fora do grupo, voltada para as histórias que eles quisessem contar; puderam refletir sobre algumas temáticas nas quais pouco tinham parado para pensar antes; fizeram autorreflexões de suas próprias participações e falas; e, em especial, se sentiram motivados a continuar acreditando nas oportunidades que os estudos podem lhes proporcionar. É possível afirmar que eu me transformei, não só enquanto pesquisadora, mas, essencialmente, enquanto profissional, ao ter contato com as visões de mundo desses jovens.

4 GRUPOS DE DISCUSSÃO COM ESTUDANTES DA EJA: RECONSTRUÇÃO DE