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Notas preliminares da história das tradições

Aquilo que o Hexateuco relata sobre os acontecimentos e as revelações de Deus no Sinai compõe um complexo de tradições de dimensões excepcionais, pois vai de Êx

19.1 até Nm 10.19. Não há no Antigo Testamento nenhum outro conglomerado de textos da tradição que fosse tão gigantesco e formado de tantas camadas literárias e que tivesse aderido a um único fato, a revelação de Deus no Sinai. É verdade que o leitor, à primeira vista, perde a esperança de discernir um todo que fosse coerente e, por isso, constituísse uma unidade, nesse amontoado não só de inumeráveis tradições isoladas, mas também de muitos organismos da tradição com tamanho maior. Entretanto, a perícope do Sinai, de qualquer modo, tem uma clara delimitação externa, quanto aos seus extremos, isto é, naquilo que a antecede e naquilo que vem a seguir. É que as tradições que a precedem são de Cades e as que lhe seguem também são de Cades.316 É evidente, portanto, que a tradição do Sinai foi secundariamente introduzida em uma outra tradição, que já existia previamente e que tratava da caminhada no deserto. Em base às diversas formulações poéticas a que se submeteu o antigo credo, é também possível perceber que nele ainda não se faz menção dos acontecimentos do Sinai. Ao que tudo indica, esse conjunto de tradições só foi incluído relativamente tarde na exposição canônica da história da salvação. Trata-se, é verdade, apenas de uma observa­ ção relativa à história das tradições, que só pretende manifestar-se sobre a forma como o conjunto de tradições cresceu e se unificou. Mas não há nela nenhuma referência à sua idade. A tradição do Sinai conservou a sua independência durante muito mais tempo do que qualquer um dos outros elementos da tradição, cuja combinação veio a constituir o formato canônico da história da salvação.317

Ao tentar em seguida livrar esse confuso aglomerado de tradições um pouco das suas dificuldades, a fim de esboçar-lhes um contexto teológico, mesmo nos limitando ao seu conteúdo principal, vamos logo encontrar aquele fato histórico fundamental, ao qual cada uma das tradições menores de algum modo se reporta: foi aqui, no Sinai,

316 Êx 18 também não tem ligação direta com a tradição do Sinai. Não faz referência alguma à teofània nem à revelação da vontade de Javé, que í o tema principal da tradição do Sinai. M. N O T H , Pentateuch, p. 151s. 317 Sobre essa posição distinta que a tradição do Sinai ocupa entre as demais, cf. V O N RAD, D as formgeschichtliche Probtem des Hexateuch (O problema do Hexateuco quanto à história das firm as], 1938, p. 1 lss (Ges. Studien, p. 20ss); M. N O T H , Pentateuch, p. 63ss.

que Javé revelou ao seu povo ordens obrigatórias, sobre cujas bases obteve a possibili­ dade de viver na presença do seu Deus. No entanto, a respeito da natureza dessas ordens, há, entre as diversas tradições, as maiores diferenças. Em parte, as tradições entendem, sob essas ordens, sistemas para a vida humana em geral (“mandamentos”), em outra parte, ordenamentos para a vida jurídica (seções do Livro da Aliança e do Deuteronômio) e, ainda, disposições para a complicada área do culto (P). Já de início, é preciso desistir de querer encontrar, entre cada um dos diversos materiais isolados, algo semelhante a uma disposição tematicamente objetiva ou linhas teológicas que de alguma outra maneira os ligassem entre si. Isso, aliás, nem mesmo corresponderia à maneira como se formou a tradição do Antigo Testamento que, nesse sentido, se deu de modo mais externo. Decisivo para que todas as numerosas tradições crescessem, se juntassem e se integrassem mutuamente foi, sobretudo, o fato de terem uma definição local (Sinai) e pessoal (Moisés) em comum. Foi desse modo que materiais extrema­ mente distintos acabaram por combinar-se e, em parte, por dispor-se lado a lado, assindeticamente, sem nenhuma ligação, quer dizer, reunindo tudo o que em algum momento ou lugar em Israel tivesse sido derivado da revelação do Sinai. Era essa a exigência que o fato de se compreenderem as tradições como documentos de uma história divina fazia.3'8

O enorme bloco da tradição do Sinai (Êx 19 - Nm 10) se compõe de duas partes que, tanto do ponto de vista externo quanto do conteúdo, são bastante desiguais: a perícope jeovista (Êx 19-24; 32-34) e a sacerdotal (Êx 25-31; 35 - Nm 10.10). A narrativa jeovista da revelação do Sinai propriamente dita encontra-se, formando uma unidade narrativa completa, em Êx 19; 20; 2 4 .0 evento começa com circunstanciadas preparações para a teofania que terá lugar no terceiro dia. Javé descera sobre o monte e proclama os dez mandamentos (Êx 20). À proclamação da vontade de Deus segue o compromisso que o povo assume em uma celebração cúltica (Êx 24).3,9Já foi comen­ tado em outra parte que essa série narrativa não remonta, de forma imediata, a eventos históricos, mas que, provavelmente, se trata da “comemoração lendária” de uma gran-

3.8 Cf. acima II, A, 2 (p. 129s).

5.9 N a exposição dos acontecimentos do Sinai (Êx 19s; 24), predomina a fonte E. De J é significativa a tradição de uma refeição de aliança (cm Êx 24.9-11), ao que parece, muito antiga. A proclamação do decálogo de J, paralela à de E, encontra-se agora cm Êx 34. No entanto, a série de mandamentos que agora se lêem nesse capítulo, é provavelmen­ te uma peça substitutiva secundária que precisou ser introduzida ao se combinarem os textos das duas fontes, porque o decálogo original de J era idêntico ao de E ou, ao menos, literalmente muito próximo. ROWLEY, Moses and the Decalogue jMoisés e o dtcálogo], 1951. p. 88ss, julga que Êx 34 é uma tradição judaica do Sul e considera possível que se tome a série de mandamentos como um antigo decálogo quenita.

de celebração cúltica, a antiga festa da renovação da aliança. A esse bloco narrativo que, como já se disse, era coeso e constituía uma unidade, foram acrescentados, nos capítu­ los 32 e 33, várias peças narrativas menores que, ainda que pertencessem ao Sinai, só têm em si uma relação muito superficial com a revelação do Sinai. O capítulo 34 oferece uma segunda proclamação dos mandamentos que se fizera necessária com a quebra das tábuas (cap. 32). Por esse processo, o redator de J e E criou jeitosamente a possibilidade de ainda recuperar a versão javista da proclamação dos mandamentos que em si, devido a Êx.20 (E), se tornara supérflua.

A perícope do Escrito Sacerdotal sobre o Sinai é muito mais descomunal. No entanto, depois de deixar de lado o grosso da quantidade de ordens cúlticas que, sem dúvida, lhe foram acrescentadas apenas secundariamente, inclusive todo o Código de Santidade (PH, Lv 17-26), teremos a seguinte seqüência de acontecimentos: a “glória de Javé” terá descido sobre o Sinai, Moisés é chamado a subir e recebe instruções para construir o tabernáculo, para investir e instalar Aarão e os seus filhos como sacerdotes; Bezalel e Aoliabe deverão preparar o tabernáculo e todos os instrumentos do culto, inclusive as vestes sacerdotais de Aarão (Êx24.15b-31.17). O povo, a convite de Moisés, reúne o material necessário através de uma coleta voluntária. E quando Bezalel tinha armado o tabernáculo, a “glória de Javé” desceu e encheu a tenda santa (Êx 35-40). Depois segue a consagração de Aarão e dos seus filhos como sacerdotes (Lv 8) e a sua primeira oferenda sacrificial, que é, por sua vez, confirmada pela aparição da “ glória de Javé” (Lv 9). A escolha e a consagração dos levitas para os serviços secundários do culto formava a conclusão (Nm 3; 4).

As duas exposições, a jeovista e a do Escrito Sacerdotal, têm em comum a tradi­ ção de uma revelação de Javé no Sinai, revelação mediante a qual Israel ouviu a procla­ mação de ordens fundamentais da sua vida diante de Javé e com ele. Mas as diferenças são também evidentes: as ordens que a tradição mais antiga do Sinai continha se refe­ riam à vida cotidiana profana. Como ainda teremos oportunidade de ver, o Decálogo era a proclamação de um direito de soberania de Deus sobre todos os setores da vida humana. O Escrito Sacerdotal, ao contrário, continha a revelação de uma ordem sa­ grada. Legislava a respeito da vida cúltica e, com ela, todo o complicado sistema de sacrifícios e ritos, através do qual Israel deveria realizar o seu relacionamento com Deus. Essa diferença se deve ao fato de que P considerava que o acontecimento decisi­ vo da revelação de Javé no Sinai era a habitação de Deus no meio de Israel, a aparição da “glória de Javé”. Com essa habitação, Javé se havia aproximado de Israel de uma forma tal que abrangentes ordenamentos e dispositivos de segurança cúltica se torna­

ram necessários.