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3 TRANSFORMAÇÕES E CONTINUIDADES NO EMPREGO DOMÉSTICO

3.3 Notas sobre a informalidade

das trabalhadoras domésticas, porque sofreram, até certo nível, uma reversão de ganhos muito recentes.

Para citar alguns dos acontecimentos próximos ao período de variabilidade dos dados apresentados, temos a regulação do trabalho através da Lei da Terceirização – Lei nº 13. 429 (BRASIL, 2017a) – e da Reforma Trabalhista – Lei nº 13. 467 (BRASIL, 2017b) –, em conjunto com a Reforma da Previdência – Emenda Constitucional nº 103 (BRASIL, 2019).

Assim, tivemos, por um lado, o maior período de ganhos trabalhistas e previdenciários para as trabalhadoras domésticas mensalistas e, consequentemente, o aumento de formalização. Por outro, logo depois, houve um aprofundamento da precarização de toda a classe trabalhadora, impactando as novas conquistas das trabalhadoras domésticas.

Concomitante a esse quadro, mais recentemente, também temos que lidar com a pandemia da Covid-19, o que torna a composição dessa conjuntura econômica e política ainda mais desafiadora para a agenda que busca a ampliação dos amparos trabalhistas e melhorias de condições de vida para as trabalhadoras domésticas. Tendo em vista essa atual aglutinação de fatores na conjuntura brasileira, a conquista da proteção trabalhista e previdenciária para as trabalhadoras diaristas nos parece um horizonte distante. Se mesmo com os avanços contínuos, essa categoria foi deixada à margem pelo sustentáculo jurídico, é custoso pensar em progressos a curto prazo na situação das diaristas diante da inoperância e instabilidade de vários direitos de diversos trabalhadores e trabalhadoras.

Assim, a questão da informalidade é ainda mais mobilizada se pensarmos na situação das trabalhadoras domésticas diaristas. Posto isso, no próximo tópico irei abordar as discussões acerca da informalidade e sua articulação elevada com o emprego doméstico.

permitida juridicamente para esse grupo de trabalhadoras domésticas, o que implica em uma ausência quase total de direitos e uma menor possibilidade de formalização14.

No entanto, pensar informalidade demanda partir do fato de que esse não é um conceito uníssono e fixo. É uma questão social e histórica e, portanto, mutável. Modifica-se de acordo com as diversas transformações trabalhistas ao longo do tempo, enquanto resultado de uma conjunção de fatores econômicos, sociais e políticos.

Nos anos 1990, o aprofundamento dos trabalhos precarizados no Brasil ocorreu como resultado de políticas de desenvolvimento capitalista, fomentadas pelos países do Norte nos países do Sul Global. O processo de construção de economias capitalistas no Sul como dependentes do Capitalismo dos países do Norte implica a criação de condições específicas nos países de Capitalismo Dependente. No Brasil, o projeto visava a modernização e industrialização dos centros urbanos, porém não produziu empregos formais suficientes para absorver a população trabalhadora brasileira. Diante disso, com os constantes fluxos migratórios rural-urbano, grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras foram marginalizados nesse processo limitado de modernização da economia. Essa camada da população, excluída do projeto que visava modernizar a América Latina, inseriu-se em atividades precárias e informalizadas.

Na crise dos anos 1970 o Capital já externalizara várias de suas atividades, transferindo um contingente de trabalhadores e trabalhadoras do setor formal organizado para a informalidade. Essas dinâmicas demonstram uma relação estreita entre os moldes de modernização estabelecidos no Brasil e a informalidade, ou melhor, a inter-relação entre o avanço do Capitalismo e a informalidade. Em face disso, temos um processo que amplia a heterogeneidade e precarização no trabalho informalizado do Brasil (DEDDECA; BALTAR, 1997). Esse contexto de heterogeneidade na informalidade é explicado por um movimento do Capital que desloca trabalhadores e trabalhadoras de uma situação assalariada com registro formal para a condição de informalidade (ANTUNES, 2010).

O contexto em que esse problema se insere é o de mudanças contemporâneas no mundo do trabalho. Como argumentado por Ricardo Antunes ([1953] 2006), a classe operária não acabou, mas complexificou-se em uma conjuntura que tem enfraquecido o modelo taylorista-fordista de emprego contratado e regulamentado. Em contrapartida, há uma

14 As diaristas podem ter a carteira assinada, mas essa prática não é obrigatória, pois há uma inexistência de vínculo empregatício.

ampliação de novas formas de organização do trabalho, que envolvem a flexibilização, informalidade e precarização das condições das relações trabalhistas, adentrando uma “nova era de precarização estrutural do trabalho” (ANTUNES, 2013).

Não houve um fim do trabalho, mas estabeleceu-se uma forma ampliada de modos de trabalho, denominada por Ricardo Antunes (1953] 2006) como “nova morfologia do trabalho”. Esse contexto contemporâneo prolifera os trabalhos parciais, temporários, terceirizados e subcontratados. Dessa forma, amplia-se o número de trabalhadores e trabalhadoras informais, tanto para as novas ocupações quanto para os empregos informais clássicos, como o emprego doméstico. Assim, a “nova informalidade” desvenda novas formas de mercado informal diante das dinâmicas mais contemporâneas de exploração de trabalho, multiplicadas em novas bases de atividades cada vez mais flexíveis, instáveis e desprotegidas (ARAÚJO; LOMBARDI, 2013; CACCIAMALI, 2000; PÉREZ-SÁINZ, 1998). Os motivos que influem nessa conjuntura de mudanças nas relações trabalhista são listados por Maria Cristina Cacciamali (2000, p.158):

Os processos de reestruturação produtiva; a internacionalização e a expansão dos mercados financeiros; o aprofundamento da internacionalização e a maior abertura comercial das economias; e a desregulamentação dos mercados. Esses processos criam um ambiente de maior incerteza nos negócios, com menores taxas de crescimento econômico e do emprego que apresentam impactos distintos em mercados de trabalho com características estruturais diferentes.

Ao compreender a vida social a partir de uma ótica segundo a qual as esferas produtivas e reprodutivas estão entrelaçadas, em razão da produção do capital repousar na exploração do trabalho reprodutivo – remunerado ou não –, argumento que o avanço de uma crise no mundo do trabalho produtivo certamente implica em transformação e exploração intensiva também do trabalho reprodutivo.

Dado isso, é possível inferir que diante do aumento da cobertura de direitos em um trabalho classicamente informal, que é o emprego doméstico, a dinâmica do Estado liberal criaria uma saída para a continuidade desse trabalho com garantia da superexploração. Assim, a maior demanda pelo trabalho doméstico em regime de diárias é resultado da ampliação de uma diferente faceta do emprego doméstico que mantém sua estrutura precarizada.

Por fim, levando em consideração toda a discussão desenvolvida neste capítulo, proponho nesta pesquisa conhecer mais de perto as trajetórias e perspectivas das diaristas. O objetivo é propriamente compreender os motivos que as levam a estar no trabalho doméstico em regime de diárias e como se sentem com essa identidade socioprofissional. Para tanto, é

necessário conhecer os passos metodológicos que eu segui para realizar essa análise. No capítulo seguinte demonstrarei as ferramentas que definiram o contorno desta pesquisa e a tornaram possível, apresentando as escolhas dos métodos e as decisões tomadas no processo da pesquisa, desde as entrevistas à análise do material empírico.

4 CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS: CAMINHOS DE INVESTIGAÇÃO E